Ameaças ao reinado do King Dollar

O livro King Dollar: The Past and Future of the World’s Dominant Currency, lançado em março de 2025, de Paul Blustein, foi considerado por Martin Wolf (comentarista do Financial Times) um dos melhores livros de Economia do primeiro semestre. As principais ideias podem ser resumidas em cinco pontos centrais.
O primeiro é seu argumento a favor da força histórica do dólar contra previsões de ruína. Previsões sobre a queda do dólar, impulsionadas por déficit fiscal, inflação, Bitcoin ou o avanço do Renminbi (RMB), se mostraram equivocadas repetidamente. Truffin, Kindleberger e outros profetas da crise erraram.
O dólar resistiu, graças à política monetária, ao realismo institucional e ao apoio internacional – e continua sendo a moeda dominante. As bases da sua supremacia estão na liquidez, na confiança e no poder institucional.
A supremacia do dólar não é por acaso: depende da profundidade dos mercados dos EUA (em especial os Treasury securities), da confiança global no Estado de Direito americano e na independência da Reserva Federal. Seu uso nas transações internacionais é facilitado por um sistema financeiro global capaz de operar basicamente em dólar via o CHIPS.
O CHIPS, ou Clearing House Interbank Payments System, é um sistema privado de compensação e liquidação de pagamentos em dólar americano, operado pela The Clearing House. É considerado o maior sistema do mundo para compensação e liquidação de pagamentos em dólares americanos, processando cerca de US$ 1,8 trilhão em transações diariamente.
O terceiro ponto é sobre o uso da ‘arma do dólar’ em sanções. O livro analisa como os EUA vêm usando o dólar como instrumento de poder por meio de sanções financeiras. Mesmo adversários como a Rússia têm sido vulneráveis a esses mecanismos, porque continuam eficazes. Porém, Blustein adverte: o uso excessivo incentivará alianças em busca de alternativas monetárias global.
O quarto ponto diz respeito a cripto, stablecoins e os limites das inovações monetárias. Embora a proliferação de criptomoedas e stablecoins seja vista por alguns como ameaça ao dólar, Blustein pondera, embora possam ter impacto marginal, representam riscos substanciais: surgem em ambientes regulatórios frágeis, favorecem atividades ilícitas e fragmentam o sistema financeiro como no século XIX. Ele propõe, como alternativa mais segura, os depósitos tokenizados por bancos tradicionais.
Finalmente, o quinto refere-se ao futuro sob Trump. Mesmo com a incerteza do Imperador Donald, o autor mantém-se otimista: a dominância do dólar sobreviverá, salvo erros catastróficos na política fiscal ou institucional dos EUA.
Mas alerta: o privilégio monetário também exige responsabilidade. A combinação de déficit crescente, erosão do Estado de Direito e uso abusivo das sanções pode, a médio prazo, abalar a confiança global.
Em suma, King Dollar é uma narrativa envolvente — fruto da experiência de Blustein como jornalista econômico — sobre por quais razões o dólar reina, desafiando crises, rivais monetários e previsões apocalípticas. Mas também apresenta um alerta: o reinado não é eterno e exige escolhas prudentes dos EUA para manter essa posição.
Em uma análise comparativa com outros livros recentes sobre moeda global e reservas – The Currency Cold War (2020), Eswar Prasad; Globalizing the Yuan (2021), W. McDowell; The Future of Money (2021), Eswar Prasad; The Exorbitant Privilege (2011), Barry Eichengreen – Blustein se destaca por defender o dólar não como imposição imperial, mas como resultado de confiança institucional (Estado de Direito, Fed, Tesouro) e infraestrutura de mercado. Sua visão do dólar como hegemonia resiliente contrasta com Eichengreen, porque este fala em “privilégio exorbitante”, mais próximo da crítica estruturalista.
Autores como Eswar Prasad e McDowell veem a emergência das CBDCs (Moedas Digitais de Bancos Centrais) como parte de uma nova disputa monetária global. Prasad aponta o yuan digital e outras moedas terem capacidade de mudar a dinâmica de poder monetário. Blustein, por sua vez, trata isso com ceticismo técnico: criptos e stablecoins são ineficientes, frágeis e arriscadas, salvo se tokenizadas por bancos.
Quanto à relação entre geopolítica e moeda, The Currency Cold War e Globalizing the Yuan apresentam um mundo mais polarizado, onde moedas são extensões do poder geopolítico. Blustein reconhece o papel das sanções e o risco de abuso, mas mantém o argumento de a estrutura de rede do dólar ser quase imbatível, exceto se os próprios EUA a destruírem de dentro.
Diante a regulação e a multipolaridade, Blustein se alinha aos institucionalistas liberais: crê na capacidade dos EUA corrigirem excessos. Já Prasad e McDowell consideram a fragmentação ser estrutural e potencialmente inevitável com o avanço da tecnologia.
Em síntese, King Dollar (2025) de Paul Blustein faz a defesa do dólar como símbolo da hegemonia monetária. Resiliência institucional e força dos mercados americanos explicam sua dominância. Tem perspectiva forte e durável, mas dependente da estabilidade fiscal e do bom uso político. Criptos e moedas digitais não são alternativas reais no curto prazo. Sua abordagem política é liberal-institucionalista com crítica pragmática.
Em The Currency Cold War (2020), Eswar Prasad apresenta a competição entre moedas digitais estatais (CBDCs). Há nova disputa entre moedas nacionais mediada por tecnologia. Ainda o dólar é dominante, mas está pressionado por Yuan digital e inovação estatal. As alternativas discutidas são: RMB digital, euro digital, stablecoins estatais. Destaca a competição geopolítica entre blocos monetários.
Em Globalizing the Yuan (2021), W. McDowell mostra a ascensão do RMB nas finanças globais. Faz parte da estratégia estatal de longo prazo da China para reduzir dependência do dólar. Este ainda lidera, mas RMB se insere gradualmente em acordos bilaterais e mercados asiáticos. A alternativa discutida é o sistema de acordos swap e pagamento em RMB. O autor é estruturalista com foco asiático e institucional.
Em The Future of Money (2021), Eswar Prasad apresenta a transformação tecnológica do dinheiro. A inovação digital (CBDCs, stablecoins, criptomoedas) está redesenhando a política monetária global. O dólar continua forte, mas novas infraestruturas podem fragmentar seu uso diante stablecoins, tokens, CBDCs. Sua abordagem política é tecnocrática com um alerta regulatório.
Em The Exorbitant Privilege (2011), Barry Eichengreen mostra a história do status do dólar como reserva internacional. O dólar domina por falta de alternativa e pelo peso dos mercados financeiros dos Estados Unidos. O dólar é forte, mas está vulnerável a déficits persistentes e erosão da confiança. Euro, RMB, SDRs são as alternativas discutidas. Faz uma crítica estrutural com ênfase em coordenação internacional.
As implicações dessas leituras para o Sul Global é Blustein ainda ver o sistema dominado pelo dólar como inevitável, e não especialmente injusto. Outros autores destacam como países periféricos buscam escapar do dólar por meio de acordos bilaterais, swaps em moedas locais, redes alternativas (como CIPS, da China). Para o Sul Global, a chave está em infraestrutura de pagamentos, autonomia monetária relativa e capacidade de diversificação de reservas.
Referências
- Blustein, P. (2025). King Dollar: The Past and Future of the World’s Dominant Currency. CIGI.
- Prasad, E. (2021). The Future of Money: How the Digital Revolution Is Transforming Currencies and Finance. Harvard Univ. Press.
- Prasad, E. (2020). The Currency Cold War. Brookings.
- McDowell, W. (2021). Globalizing the Yuan. Palgrave Macmillan.
- Eichengreen, B. (2011). Exorbitant Privilege: The Rise and Fall of the Dollar. Oxford University Press.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
