Axiomas de Zurique no Brasil

Axiomas de Zurique no Brasil

Por Fernando Nogueira da Costa

As ideias de Max Gunther em Os Axiomas de Zurique não se limitam ao mercado de ações americano. Sua filosofia se aplica a “qualquer situação na qual você arrisque dinheiro visando a ganhar mais dinheiro”. Embora ele mencione o mercado de ações com frequência por ser sua área de maior experiência, os Axiomas são princípios para gerir o risco em sentido amplo.

Para um investidor brasileiro diante da renda fixa com juros elevados, a aplicação dessas ideias apresenta nuances importantes, por exemplo, distinção entre especulação e investimento “seguro”.

Gunther defende: ninguém fica rico apenas com salários ou através de cadernetas de poupança, pelas quais ele nutria “um profundo desprezo”. Ele argumenta a postura de buscar “a segurança absoluta” é uma ilusão impeditiva de uma mudança substancial da situação financeira.

Em caso de aplicação no Brasil, um investidor ao se manter na renda fixa apenas pela “sensação de tranquilidade” pode estar caindo naquilo chamado por Gunther de “vegetar em vez de viver uma aventura”. Para ele, se o investimento não lhe causa nenhuma preocupação, você provavelmente não está arriscando o bastante para ficar rico.

O 5º Grande Axioma dos Padrões alerta o caos só ser perigoso quando começa a parecer ordem. Gunther ensina a armadilha do historiador: a crença de a história se repetir de forma previsível.

Em caso de aplicação brasileira, um investidor pode acreditar, como o Brasil sempre teve juros altos, esse cenário persistirá para sempre de forma ordenada. Gunther alertaria essa ser uma “ilusão de ordem” e o comportamento humano regente da economia ser imprevisível. Confiar cegamente em a renda fixa ser sempre “o porto seguro ideal” pode tolher a mobilidade do investidor.

Mesmo na renda fixa, os princípios de Gunther sobre o comportamento humano são válidos. Por exemplo, o 2º Axioma da Ganância indica, se uma oportunidade de renda fixa pré-fixada ou um título atrelado ao IPCA valoriza-se, devido à marcação a mercado, o axioma sugere “realizar o lucro sempre cedo demais” em vez de esperar o pico máximo.

O 3º Axioma da Esperança indica: se o cenário econômico brasileiro mudar bruscamente (como em crises fiscais), o investidor não deve “rezar” para seus títulos recuperarem valor, deve sim ser capaz de desistir logo quando eles começarem a perda.

Gunther é um crítico feroz do planejamento a longo prazo (12º Axioma), afirmando ele gerar a falsa crença de o futuro estar sob controle. Muitos investidores brasileiros travam capital em títulos de renda fixa de longuíssimo prazo (como Tesouro IPCA+ para 2045 ou 2055).

Gunther diria isso ser perigoso porque a visibilidade de vinte ou trinta anos é nula e as tendências de hoje podem não existir amanhã. Ele prefere o investidor reagir aos fatos conforme eles surgem no presente.

O cenário de “juros reais muito elevados” no Brasil é uma particularidade local. De fato, muitas vezes permite o enriquecimento com riscos significativamente menores diante os encontrados no mercado americano.

Enquanto Gunther escreve para um contexto americano de juros baixos (onde o risco é obrigatório para superar a inflação), no Brasil, a renda fixa pode atuar como uma “especulação de baixo risco”. Foi algo não abordado diretamente por Gunther, pois sua premissa é a segurança quase nunca trazer riqueza.

Em suma, embora os exemplos de Gunther sejam americanos e suíços, sua psicologia financeira é voltada para a liberdade de movimentos. Para ele, o investidor brasileiro não deve se deixar “escravizar” por um plano de renda fixa em longo prazo, mas sim manter a agilidade para pular de uma oportunidade para outra, conforme o caos do mercado se desenrola.

O pensamento de Gunther é como o de um surfista: não importa em qual praia (mercado) ele esteja, ele não tenta controlar o oceano ou prever a próxima onda com meses de antecedência. Ele simplesmente mantém a prancha pronta para aproveitar o movimento da água no momento no qual ele acontece.

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Na realidade, o maior investimento de trabalhadores é em educação superior até o maior nível de pós-graduação possível para obtenção de uma renda do trabalho, em seu emprego, muito superior aos rendimentos dos juros de seus investimentos, mantidos mensalmente em cerca de 30% do salário. Até a fase de aposentadoria, ocorre isso, mas a partir dela se inverte essa relação entre juros e salário elevado, devido ao montante de riqueza financeira acumulada e a perda de vantagens do ciclo de vida ativa.

Essa perspectiva, embora lógica e amplamente aceita pela ética do trabalho tradicional, é confrontada de forma incisiva por Max Gunther nas fontes, enquanto encontra algumas nuances na filosofia de Morgan Housel. Abaixo, detalho como os autores analisariam essa estratégia de focar quase exclusivamente na renda do trabalho.

Max Gunther é categórico ao afirmar: “ninguém fica rico através de salário”. Para ele, a estrutura econômica mundial está montada contra o trabalhador assalariado, e depender apenas do emprego — mesmo com alta escolaridade — garante apenas a pessoa passar pela vida sem mendigar, mas não permitir “ela sair da multidão”.

O pai de Gunther, um banqueiro suíço, criticava o sistema educacional por não ensinar o realmente importante: a especulação e como correr riscos. Dedicar 100% do potencial para ganhar um salário seria um erro. O ideal seria aplicar metade desse potencial em investimentos e especulações.

Há uma transição previsível entre a fase ativa (salário alto) e a aposentadoria (renda de juros). Gunther, no entanto, alerta quanto a planejamentos em longo prazo gerarem a perigosa crença de o futuro estar sob controle.

É possível o caso de um casal capaz de ter seguido exatamente esse plano: educação-emprego estável-poupança para a velhice. O plano fracassou porque não previu a inflação (corroendo o poder de compra se o investimento não fosse indexado) nem a perda inesperada do emprego. Gunther defende “a cigarra”, móvel e reagente ao presente, muitas vezes sobrevive melhor diante “a formiga” presa a um plano rígido de décadas.

Embora o trabalho gere o aporte inicial, Morgan Housel sugere a riqueza real ser o não visto (ativos acumulados) e não o salário alto ostentatório. Muitos trabalhadores de alta renda falham em acumular riqueza porque gastam para manter o status de sua posição.

Housel concorda com a sua ideia de “inversão na aposentadoria” ao destacar o poder da composição. A maior parte do ganho financeiro vem da longevidade e da paciência, permitindo o dinheiro trabalhar mais se comparado ao indivíduo na fase final da vida.

Para Gunther, o maior erro do trabalhador altamente qualificado é a falta de mobilidade e o medo de arriscar. Ao se esconder no “conforto de um plano”, o profissional pode perder oportunidades de enriquecimento mais rápido diante o salário, por mais alto este seja, raramente proporcionado.

Para ele, o único plano de longo prazo necessário é a intenção firme de ficar rico, reagindo às oportunidades do mercado logo quando surgem, em vez de esperar passivamente por uma aposentadoria segura. Ela pode ser destruída por variáveis econômicas imprevisíveis.

Na economia moderna, o conceito de capital humano (o valor da sua educação ser a capacidade de gerar renda) é de fato considerado o maior ativo de um trabalhador jovem. No entanto, Gunther foca especificamente no capital financeiro e na especulação como os únicos motores capazes de gerar riqueza, capaz de ultrapassar a inflação e os impostos, cujo salário não consegue fazer sozinho.

Para concluir, a estratégia de focar na educação é como construir um navio muito potente (seu salário). Ele pode navegar rápido, mas, se você não aprender a lidar com as ondas do mar (os riscos do mercado), um único evento imprevisto pode afundar o navio antes de ele chegar ao porto da aposentadoria.

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