Capital-Dinheiro +/- Trabalho-Emprego
Por Fernando Nogueira da Costa
Se a economia está em constante mudança, onde o estado atual do sistema é uma função do seu estado anterior mais uma mudança ocorrida no intervalo, para descrever isso, utiliza-se a lógica de estoques (acumulações como saldo bancário ou nível de emprego) e fluxos (taxas de mudança como depósitos ou contratações). Nesse sentido, o capital-dinheiro e o trabalho-emprego atuam nesse dinamismo de maneira cooperativa ou antagônica por ser oscilante ao longo de ciclos temporais.
Para descrever a economia como um sistema em constante mudança, Eric Beinhocker utiliza a lógica da dinâmica de sistemas, baseada em estoques e fluxos. Essa abordagem permite entender como o estado atual do sistema depende do seu histórico e das mudanças ocorridas em intervalos de tempo específicos.
Estoques são as acumulações de algo no tempo, como o saldo de uma conta bancária, o nível total de emprego na economia ou o estoque de inventário de uma empresa. Eles representam o estado do sistema em um momento dado.
Fluxos são as taxas de mudança capazes de alterarem esses estoques, como depósitos/saques, contratações/demissões ou o ritmo de produção de uma fábrica.
A economia é descrita por uma fórmula onde o estado de um estoque amanhã é igual ao estoque de hoje mais os fluxos de entrada e menos os fluxos de saída ocorridos no intervalo. Essa estrutura cria ciclos de feedback, onde a saída de uma parte do sistema se torna a entrada de outra.
De acordo com a perspectiva da Economia da Complexidade, a interação entre variáveis como capital-dinheiro e trabalho-emprego é caracterizada por ser oscilante ao longo de ciclos temporais, em vez de ser estritamente cooperativa ou antagônica. Há uma interdependência dinâmica, isto é, variável ao longo do tempo.
O capital e o emprego estão conectados por cadeias de feedback. Por exemplo, uma queda no estoque de emprego pode levar a uma redução nas taxas de juros e esta expande o estoque de dinheiro disponível para investimento, gerando demanda por mais empregados e elevando novamente o estoque de emprego.
Essa relação é marcada por atrasos temporais, devido ao tempo necessário para construir uma fábrica ou contratar pessoas. Logicamente, impede o sistema atingir um equilíbrio estático como propõe a Economia convencional.
Esses atrasos fazem com que os agentes econômicos “passarem do ponto” (overshoot) de equilíbrio fundamentado, tentando ajustar estoques a mudanças na demanda. Daí surgem padrões emergentes de oscilação.
Em vez de uma cooperação suave, a estrutura do sistema gera endogenamente ciclos de expansão e queda (boom e bust), ou seja, expansão e recessão. Descreve um ciclo econômico ou financeiro no qual um período de forte crescimento, euforia e alta atividade (boom) é bruscamente seguido por uma queda, colapso ou recessão (bust).
Mesmo com intenções cooperativas, a interação entre estoques (inventários) e fluxos (pedidos), combinada com a falibilidade humana em lidar com sistemas não lineares, resulta em oscilações persistentes na economia. Por isso, em uma escala maior de tempo, o capital (tecnologia física) e o trabalho (tecnologias sociais) atuam em uma dança recíproca ou coevolução, onde inovações em uma área impulsionam e exigem inovações na outra para criar riqueza.
Portanto, a economia é vista como um problema massivo de múltiplos corpos, onde a interação de bilhões de pessoas e seus recursos financeiros cria padrões complexos — como leis de potência e equilíbrios pontuados — inerentemente dinâmicos e instáveis.
De acordo com o modelo de Eric Beinhocker, o capital e o trabalho coevoluem por meio da interação constante entre o definido como tecnologias físicas (associadas ao capital e às ferramentas) e tecnologias sociais (associadas ao trabalho e às formas de organização).
A coevolução desses elementos ocorre de maneira interdependente através de uma “dança recíproca”, onde o progresso em uma área impulsiona e exige avanços na outra. Os principais aspectos desse dinamismo são, primeiro, a interdependência mútua.
As tecnologias físicas sozinhas são apenas designs. Para terem impacto, precisam ser organizadas socialmente. Por exemplo, a invenção do tear mecânico (tecnologia física) tornou economicamente viável a organização da produção em grandes fábricas (tecnologia social) durante a Revolução Industrial.
Cada inovação tecnológica cria novos nichos de mercado e necessidades. A agricultura sedentária (tecnologia social) permitiu o desenvolvimento de ferramentas pesadas, como o arado (tecnologia física). Este, por sua vez permitiu o surgimento de vilas maiores e mais complexas.
O trabalho evolui para formas de cooperação cada vez maiores, desde pequenos bandos de caçadores-coletores até corporações multinacionais. Tecnologias sociais, como o Estado de Direito e a moeda, permitem estranhos cooperarem em larga escala, algo fundamental para sustentar tecnologias físicas de alta complexidade, como computadores e aviões.
As empresas atuam como o local onde essas duas tecnologias se fundem. Os designs de negócio (planos de negócio) combinam ferramentas (capital) e formas de organização (trabalho) sob uma estratégia específica para serem testados pelo mercado.
O progresso econômico resulta dessa coevolução. Mudanças na tecnologia física aceleram a busca por novas tecnologias sociais. Estas, por sua vez permitem novos saltos tecnológicos físicos.
Esse ciclo se tornou explosivo a partir de 1750, devido a metainovações como a revolução científica e a ascensão dos mercados organizados. Na história da humanidade, significou um círculo virtuoso de crescimento como nunca tinha existido antes.
Em resumo, o capital e o trabalho não atuam apenas de forma cooperativa ou antagônica, mas sim como parceiros em um processo evolutivo onde a inovação em um lado fornece a “escada” para o próximo passo do outro. Porém, têm seus conflitos conjugais como todos os casais – e são necessárias as DR, isto é, as discussões de relacionamentos…

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
