Concepções da moeda como relação social

Concepções da moeda como relação social

Por Fernando Nogueira da Costa

Historicamente, houve evolução das concepções de moeda como relação social. Diferentes tradições teóricas entenderam a moeda não como “coisa” ou mero estoque, mas como vínculo social institucionalizado.

Dividindo essa história do pensamento econômico em cinco grandes fases, a primeira se refere à intuição clássica. A moeda já era vista como confiança e símbolo de soberania nacional. Antes mesmo da formalização quantitativista, a moeda já era pensada como fenômeno político.

Em autores como David Hume, em meados do século XIX, a moeda metálica ainda aparecia como mercadoria especial. Contudo, já estava implícito sua aceitação depender de confiança coletiva e autoridade estatal.

No caso, a moeda era meio de troca e unidade de conta, mas também expressão da soberania. A dimensão social estava presente, mas ainda subordinada ao lastro físico: vigorava o padrão-ouro.

A ruptura cartalista, ao apresentar o papel-moeda como criação do Estado, ocorreu no início do século XX, quando Georg Friedrich Knapp formula a teoria cartalista. A moeda passa a ser vista como criatura do Direito Público. Ela vale porque o Estado a aceita para pagamento de tributos.

A moeda deixa de ser coisa e passa a ser título de quitação fiscal, instrumento jurídico e construção institucional. Nesse caso, surge claramente a moeda como relação social mediada pelo poder tributário.

Antes, em O Capital, Karl Marx não tratou a moeda como simples meio de troca, mas como uma forma necessária de manifestação do valor. Atuava como a mediação da relação social entre produtores privados.

A moeda expressaria o caráter social do trabalho em sociedade mercantil. Ela não seria neutra porque permitiria acumulação, viabilizaria capital, separaria compra e venda: M–D–M / D–M–D’. Na obra de Marx, a moeda é apresentada como relação social estruturante do capitalismo.

Com John Maynard Keynes, ocorreu outra inflexão decisiva. A moeda foi relacionada à incerteza sobre o futuro e a decorrente preferência pela liquidez.

A moeda passou a ser vista como reserva de valor, proteção contra incerteza radical, e ativo (forma de manutenção de riqueza) retido (ou não) por expressar expectativas diante o futuro desconhecido. Ela deixou de ser mero instrumento técnico e tornou-se expressão da psicologia coletiva diante do futuro incerto.

A moeda é relação social, no caso keynesiano, porque coordena expectativas, organiza hierarquias de liquidez e estrutura decisões de investimento.

Os pós-keynesianos apresentam a moeda como crédito bancário. Autores como Nicholas Kaldor e Basil Moore desenvolvem a tese da moeda endógena.

Para ela, a moeda surge no ato de concessão de crédito. Ela é simultaneamente ativo e passivo. Representa promessa de pagamento futura.

Moeda é, essencialmente, relação crédito-débito. O sistema monetário passa a ser visto como rede de balanços interligados.

A antropologia econômica reforça essa leitura. David Graeber, em Debt: The First 5000 Years, argumenta a dívida preceder a moeda metálica. Sistemas de crédito são anteriores ao dinheiro físico. A moeda formaliza relações sociais já existentes.

Moeda, portanto, não nasce da troca mercantil pura, mas sim da obrigação social.

Síntese Evolutiva

FaseMoeda como
Metalismo clássicoMercadoria especial
CartalismoCriação jurídica do Estado
MarxForma social do valor
KeynesExpressão da incerteza
Pós-keynesianosRelação crédito-débito
AntropologiaRegistro institucional de dívida

A trajetória revela deslocamento progressivo de coisa física para relação social institucionalizada. Há clara implicação metodológica contra a Teoria Quantitativa da Moeda.

Se a moeda é relação social não pode ser tratada apenas como estoque exógeno. Sua quantidade é função de decisões institucionais. Seus efeitos dependem de estrutura produtiva e distributiva. Política monetária é coordenação institucional, não simples controle mecânico.

Isso transforma profundamente o debate com a Teoria Quantitativa. A história do pensamento monetário revela deslocamento gradual da moeda como objeto físico para moeda como relação social institucionalizada. A TQM representa apenas um momento particular dessa trajetória teórica, já ultrapassada.

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Desse modo, a Teoria Alternativa da Moeda (TAM), organizada por mim na minha tese de Livre-Docência, defendida em 1994, aparece não como ruptura arbitrária, mas como síntese histórica coerente da evolução do pensamento monetário. Minha formulação não “inventa” algo inexistente, mas organiza sistematicamente uma tradição dispersa e a leva a uma consequência lógica ainda não plenamente formalizada.

A tese central foi uma Teoria Alternativa da Moeda ser apresentada como a sistematização contemporânea da moeda como relação social de crédito institucionalmente mediada, cujo efeito macroeconômico depende da estrutura produtiva e distributiva. Ela integrou: cartalismo (moeda como construção jurídica), Marx (moeda como forma social), Keynes (moeda como reserva diante da incerteza), pós-keynesianos (moeda endógena criada pelo crédito).

Minha contribuição não foi negar toda a tradição, na história do pensamento econômico, mas unificar a heterodoxia sob um arcabouço causal explícito.

Fiz uma reconstrução histórica como fundamento lógico de Knapp à soberania fiscal. Georg Friedrich Knapp mostrou a moeda ser criatura do Direito. A TAM incorporou isso como um Postulado 1 — a moeda é passivo institucional aceito para liquidação de obrigações tributárias. Elimina a necessidade de lastro físico e desloca o foco para poder soberano.

Karl Marx demonstrou a moeda expressa relações sociais de produção. A TAM avançou como um Postulado 2 — a moeda mede e organiza relações sociais mediadas pelo mercado e pela acumulação de capital. Logo, ela não é neutra nem meramente técnica.

John Maynard Keynes introduziu a moeda como proteção contra o futuro incerto. A TAM formalizou, então, um Postulado 3 — a demanda por moeda é função do grau de incerteza e das expectativas.

Basil Moore mostrou os bancos criarem moeda ao conceder crédito. A TAM estabeleceu um Postulado 4 — a oferta de moeda é endógena e determinada pelo crédito concedido pelo sistema bancário.

O ponto decisivo foi a TAM dar um passo além da tradição com uma formulação do Postulado 5 — a causalidade monetária é estruturalmente condicionada.  A expansão da moeda do crédito multiplica a renda. Provoca inflação de demanda apenas se há restrição estrutural para aumento da produção, devido a plena ocupação da capacidade produtiva.

A inflação não é fenômeno monetário puro, mas resultado da interação entre crédito, estrutura produtiva, conflito distributivo, restrições externas.

Nesse ponto, a TAM transforma a TQM em caso especial. A Teoria Quantitativa só é válida sob hipótese de pleno emprego e rigidez estrutural.

Síntese Conceitual

DimensãoTQMTAM
Natureza da moedaEstoque exógenoRelação crédito-débito
OrigemBanco CentralSistema bancário + Estado
InflaçãoMonetáriaEstrutural-condicionada
CausalidadeLinearCondicional e circular
NeutralidadeLongo prazoNão neutral

A originalidade da TAM está em incorporar as contribuições de Escola Bancária, Wicksell, Escola de Estocolmo, Kaldor e demais pós-keynesianos. Integra essa longa tradição histórica questionadora da TQM sob axiomas claros.

Formula uma causalidade condicional explícita. Demonstra a TQM explicar o caso limite de expansão do crédito havendo plena ocupação da capacidade produtiva.

Aplico a TAM ao contexto institucional brasileiro, uma economia de juros altos, forte endividamento público e bancário. Tem muito maior propriedade.

Sua formulação explicita como interagem o crédito público e o privado, como a taxa de juros atua como preço político da liquidez, como a estrutura produtiva condiciona o impacto monetário. Então, ela ultrapassa a mera repetição de jargões desgastados.

Uma estratégia para afirmar existência acadêmica seria em vez de apresentar a TAM como ruptura absoluta, estruturá-la como revisão histórica. Mostraria continuidade, faria a identificação das lacunas não resolvidas na literatura, além da apresentar a proposição de axiomas próprios, sua derivação lógica e aplicação empírica. Assim, seria tolerada a TAM “existir” como construção sistemática.

A Teoria Alternativa da Moeda não rejeita toda a tradição monetária, mas a reorganiza sob o princípio de a moeda ser relação social de crédito, institucionalmente mediada, cuja eficácia macroeconômica depende da estrutura produtiva e das condições distributivas. A Teoria Quantitativa emerge como caso particular dessa formulação sob hipóteses restritivas. Desloco o debate do confronto ideológico para o lógico.

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