Cultura do investimento nos EUA: de Roosevelt a Wall Street Digital

Os comportamentos e as estratégias de investimento dos norte-americanos podem ser catalogados em ciclos históricos. Contextualizam historicamente as mudanças nas formas de uso de parte do fluxo de riqueza para elevar o estoque de riqueza, do New Deal à Era dos ETFs e da estratégia buy-borrow-die.
A Era dos ETFs refere-se à popularização crescente dos ETFs (Exchange Traded Funds ou Fundos de Índice) como um tipo de investimento. Eles são fundos cujas ações em carteira são negociadas em bolsa como cotas capazes de replicarem a performance de um índice de mercado, como o Ibovespa ou o S&P 500, oferecendo ao investidor diversificação e baixo custo em um único produto.
Ethos significa caráter, costume e modo de ser. Pode se referir tanto ao caráter moral e aos hábitos de um indivíduo quanto ao conjunto de crenças e valores definidores da identidade de uma comunidade, ideologia ou nação.
Nos Estados Unidos, o Ethos prega a associação de pequenos acionistas com os grandes empreendedores como ideal nacional, desde a Era dos Barões Ladrões. Refere-se ao fim do século XIX nos Estados Unidos, onde industriais e financistas acumularam vastas fortunas, inclusive através de práticas comerciais antiéticas e monopólios, como nos empreendimentos em petróleo e ferrovias.
O termo “barão ladrão” tem uma conotação negativa e foi usado para descrever figuras como Andrew Carnegie (liderou a expansão da indústria siderúrgica) e John D. Rockefeller (monopolizou a indústria do petróleo através da Standard Oil). Eles exploravam trabalhadores, com baixos salários e condições de trabalho precárias, e utilizavam táticas como intimidação, corrupção, fraude e violência para eliminar a concorrência e criar monopólios.
Os “barões ladrões” empregaram estratégias como expansão horizontal (compra de concorrentes) e vertical (compra de fornecedores e serviços) para controlar todo o setor. Usaram “trustes” (grupos de empresas controlados por um único Conselho de Administração) para consolidar poder.
O New Deal e o nascimento do investidor de classe média (1933–1945) ocorreram no contexto da Crise de 1929. Provocou uma série de falências bancárias, exigindo reformas financeiras como o Glass–Steagall Act, SEC (Securities and Exchange Commission – Comissão de Valores Mobiliários dos EUA), FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation), uma agência do governo americano, criada em 1933, para assegurar os depósitos bancários, garantindo até US$ 250.000 por depositante em caso de falência de um banco. O FGC – Fundo Garantidor de Crédito no Brasil é uma cópia, garantindo até R$ 250.000…
Daí surgiram transformações como a proteção do pequeno poupador para a restauração da confiança no sistema financeiro. Houve a criação de títulos públicos acessíveis ao cidadão médio na posterior Economia de Guerra (War Bonds).
Em termos de Sociologia do Investimento, o investimento passa a ser patriótico no sentido de financiar o Estado para reconstruir a nação. Um comportamento típico se tornou poupar e investir em títulos federais com a aversão a risco de ações após o crash de 1929.
Um terceiro ciclo se deu no pós-guerra com o chamado “capitalismo popular” (1945–1970). A sociedade afluente representou a expansão da classe média. Com os fundos de pensão privados o mercado acionário volta a ganhar legitimidade.
Empresas blue chips (GM, IBM, AT&T) tornam-se símbolos de estabilidade e sucesso. O acionista de longo prazo é visto como cidadão responsável. A “Rule of 72” é popularizada: cálculo simples de duplicação do capital com juros compostos.
Essa regra prática estima quanto tempo é necessário para dobrar seu investimento com base na taxa de retorno anual: Tempo (anos) = 72 ÷ Taxa de Retorno Anual (%). Por exemplo, com uma taxa de retorno de 6% ao ano (ou 0,5% ao mês), seu capital dobrará em: 72 ÷ 6 = 12 anos. Se juros “brasileiros” se mantiver em 15% aa: 72 ÷ 15 = 4,8 anos! Em menos de cinco anos, o capital financeiro dobra com esses juros!
O comportamento típico do investidores americanos passa a ser buy and hold (comprar e manter), devido à confiança no progresso técnico e nos dividendos pagos por grandes empresas.
A virada neoliberal e a financeirização do cotidiano com o Reaganomics (1980–2000) levam ao contexto macro de desregulamentação, globalização, inflação controlada, juros altos. Os comportamentos emergentes passaram a ser, acima de tudo, a busca de rentabilidade com a valorização do investidor especulador em ações, não do poupador em títulos de dívida pública.
Com a criação dos 401(k), fundos de pensão de Previdência Privada, baseada em ações para sua capitalização, a massa de trabalhadores entra em fundos mútuos. Nesta Era dos Yuppies (Young Urban Professional), Wall Street se torna cultura pop e filmes como Wall Street e The Wolf of Wall Street moldam o imaginário do sucesso financeiro.
A estratégia típica torna-se buy the dip (compre na queda) e momentum trading. Em consequência, a desigualdade patrimonial aumenta, porque quem tem capital inicial se beneficia da valorização contínua dos ativos.
No novo milênio, inicia-se a Era dos ETFs e da automação financeira. A revolução tecnológica das big techs beneficia fundos de índice (ETFs). Democratizam o acesso ao mercado de ações e barateiam o investimento.
Plataformas digitais (Robinhood, Vanguard, BlackRock) criam “investidores automáticos”. A Psicologia Econômica (ou Economia Comportamental) cataloga os vieses cognitivos explorados por algoritmos de investimento.
A estratégia dominante é a diversificação passiva (passive investing) com foco no longo prazo. A consequência sociológica é a inclusão de milhões de microinvestidores, mas com a ampliação da distância entre rentistas profissionais e amadores.
A lógica do “Buy-Borrow-Die” expressa o capitalismo imortal dos milionários ou bilionários americanos. Buy representa a compra de ativos (ações, imóveis, obras de arte) com valorização no tempo. Borrow refere-se ao uso desses ativos como colateral para empréstimos — sem os vender, logo sem pagar imposto sobre ganhos de capital. Die diz respeito aos herdeiros recebem os ativos com “step-up in basis” — reajuste do valor de compra, eliminando o imposto devido.
A consequência na estratificação social é o acúmulo intergeracional de riqueza imune à tributação. Com a estrutura tributária regressiva, o trabalho é tributado, mas o patrimônio não.
“Ricos não vendem” e, em consequência, obtêm liquidez via crédito garantido pelos ativos não vendidos. O comportamento social passa a ser a aversão à venda, preferência por crédito e uso de trusts familiares. Quanto há esse mimetismo, as tendências de alta nas bolsa de valores se estabelecem.
Já o investimento em títulos públicos se refere às estratégias conservadoras. Renda fixa nos EUA tem papel simbólico de estabilidade: T-Bills, T-Bonds e muni bonds (títulos municipais ou estaduais) são instrumentos de confiança estatal.
O comportamento de “laddering” (ou “método de escada”) é uma técnica de entrevista qualitativa profunda, usada para entender como os consumidores ligam os atributos de um produto aos seus valores pessoais. No caso das Finanças Pessoais, refere-se a uma escada de vencimentos para suavizar riscos.
Há uma mudança pós-2008 porque a “política de juros zero” (afrouxamento monetário) obriga até investidores conservadores a se arriscar. Provoca uma migração parcial para ações e fundos imobiliários (REITs).
Portanto, os ciclos históricos das Finanças Pessoais, nos Estados Unidos, conduziram do investidor cidadão ao investidor algoritmo. A cultura do investimento nos EUA é processo histórico e ideológico, não apenas financeiro.
Evoluiu do “investidor patriótico” (New Deal) para o “rentista imortal” (Buy-Borrow-Die). O Estado sempre mediou a financeirização via regulação, desregulação, incentivos fiscais e previdência privada.
A desigualdade em riqueza financeira se elevou muito, porque o capital inicial, progressivamente acumulado ao longo do tempo, determina quem se beneficia não só dos juros compostos exponenciais como também de dividendos reinvestidos em participações acionárias. O desafio contemporâneo, aparentemente insuperável de superar o aumento da pobreza relativa, diz respeito a como democratizar o acesso à valorização patrimonial sem perpetuar a oligarquia financeira digital.
Imagem de Wall Street / Reprodução

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
