Escolaridade e demografia inflacionários?!

Escolaridade e demografia inflacionários?!

Por Fernando Nogueira da Costa

A escolaridade e a demografia desempenham papéis fundamentais na composição da massa de rendimentos do trabalho na economia brasileira, servindo como os principais fatores sociais para seu crescimento real. Essa dinâmica impacta a demanda agregada e, preocupantemente, a condução da política monetária pelo Banco Central (BCB) para o controle da inflação.

De acordo com estudo de William Tales Leiria Campo, postado no BC Blog, a evolução da massa de rendimentos real, desde 2012, foi impulsionada majoritariamente por mudanças na composição da população ocupada.

O aumento da escolaridade foi o principal fator para a expansão do rendimento médio nacional. Entre 2012 e 2025, a proporção de trabalhadores com Ensino Médio completo ou mais subiu de 50% para 69,2%, e a participação daqueles com Ensino Superior, recebedores de renda muito maior, passou de 14,4% para 24,8%. Esse fenômeno, chamado de Efeito Composição do Rendimento (ECR), sobrepôs-se inclusive a quedas no rendimento médio dentro de grupos específicos de mesma idade e estudo.

O envelhecimento da força de trabalho também contribuiu, positivamente, porque o rendimento médio tende a avançar com a idade, especialmente nos grupos mais instruídos. O crescimento da população em idade de trabalhar foi o fator central para a expansão da população ocupada com rendimento, embora projeções indiquem uma desaceleração desse ritmo nos próximos anos.

A evolução da massa de rendimentos é um elemento essencial para a dinâmica do consumo das famílias e da demanda agregada. O Banco Central, para cumprir seu mandato de estabilidade de preços e controle da inflação, monitora esses indicadores positivos como fossem negativos – e tenta os sabotar!

Um mercado de trabalho dinâmico, com ganhos reais de renda e desemprego em níveis historicamente baixos, sustenta a demanda agregada. Se essa demanda crescer acima da capacidade produtiva da economia, de fato, gera pressões inflacionárias, reconhecida como “inflação verdadeira” – e o BCB deve as combater.

Atualmente, não se observa a plena utilização da capacidade produtiva, mesmo assim o cenário é caracterizado por uma taxa básica de juros (Selic) contracionista. O BCB utiliza os juros elevados para encarecer o crédito e desestimular o consumo excessivo, buscando equilibrar a demanda agregada, pressuposta acima da oferta agregada, e garantir a inflação convergir para a meta de inflação irrealista (3% aa).

O BCB observa, apesar dos ganhos consistentes de renda, o comprometimento de renda (CR) das famílias com dívidas permanecer historicamente elevado – e em ascensão. Esse fator, somado às condições financeiras mais restritivas, impostas pela política monetária, tem levado a uma desaceleração no financiamento à economia produtiva e a uma aversão ao risco maior por parte  dos bancos.

Positivamente, a escolaridade eleva estruturalmente a renda e a capacidade de consumo da população. O Banco Central atuaria, teoricamente, de forma a garantir esse aumento da renda e da demanda ocorrer de maneira sustentável, utilizando a política monetária para evitar o dinamismo do mercado de trabalho se transformar em descontrole inflacionário.

Paradoxalmente, o Banco Central do Brasil age contra a geração de empregos e um maior valor adicionado (renda) na economia brasileira! Sua política monetária, na realidade, desempenha uma função política e distributiva ao conectar o sistema financeiro, o Estado  e os detentores de riqueza em um arranjo possível de ser interpretado como um mecanismo de acomodação social.

O Estado arrecada impostos e, se não consegue cobrir todos os seus gastos, emite títulos de dívida pública. Na União, de 2010 a 2025, a despesa cresceu 6,3% como proporção do PIB, com alta puxada por juros, com contribuições positivas de 2,73 pontos percentuais (p,p.), e benefícios previdenciários com 2,5 p.p. (Valor, 31/03/26). As despesas com transferências/doações cresceram 1,5 p.p. do PIB e a remuneração de servidores públicos teve queda de -0,84% p.p. no período.

Os juros pagos aos detentores de títulos e valores mobiliários constituem renda financeira para os estratos mais ricos. A lógica distributiva implícita é esse mecanismo gerar um circuito: arrecadação tributária ampla – gastos públicos (inclusive previdenciários e sociais) – pagamento de juros da dívida.

Nesse circuito, parte da renda arrecadada da sociedade retorna aos detentores de riqueza financeira, além de propiciar assistência social. Esse processo foi interpretado por vários economistas “denunciantes do capitalismo” como uma forma de mediação distributiva típica de economias financeirizadas.

Deviam destacar a importância da riqueza financeira, acumulada ao longo da vida ativa por trabalhadores de alta renda com formação universitária, como fonte de financiamentos. Em fevereiro de 2026, o volume financeiro das 193 milhões de contas do Varejo alcançou R$ 6,079 trilhões, segundo a Anbima, sendo nas 170 milhões de contas do Varejo Tradicional R$ 2,874 trilhões e nas 23 milhões de contas do Varejo de Alta Renda R$ 3,205 trilhões. Por sua vez, as 775 mil contas dos 168 mil clientes exclusivos do Private Banking acumularam R$ 2,755 trilhões.

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No portfólio dos ricaços, destacavam-se R$ 607 bilhões em ações contra apenas R$ 287 bilhões em todo o Varejo, sendo R$ 117 bilhões no Tradicional e R$ 170 bilhões no de Alta Renda. No primeiro trimestre, o Ibovespa rendeu 16,35%, mas com 12,56% em janeiro, 4,09% em fevereiro e -0,70% em março. O investidores brasileiros típicos não têm “nervos de aço”, para suportar a volatilidade da bolsa de valores, diante do custo de oportunidade em acumulação via renda fixa com juros compostos em longo prazo. Nesse trimestre, acumularam rentabilidade de 3,41%.

A distribuição percentual do volume financeiro do Varejo está com 16,2% em Fundos de Investimento, 3,1% em Fundos Estruturados / ETF, 43,8% em Títulos e Valores Mobiliários (TVM) e 15,4% em Poupança. O maior montante do Varejo (R$ 2,279 trilhões) está em renda fixa, sendo no TVM R$ 1,183 trilhão em CDB (44,4%), 12,2% em LCA e 10,3% em LCI. Ações (fora de Fundos) representam apenas 10,8%.

É necessário destacar o crescimento dos depósitos a prazo a partir do “ano da pandemia”, em 2020, quando teve uma variação de 56,3%, saindo de R$ 1,115 trilhão em dezembro do ano anterior para R$ 1,743 trilhões doze meses após. Com a taxa de juro Selic em 2% aa, os big five bancos resolveram captar CDB com 100% do CDI, algo jamais feito antes.

Resultado: essa aplicação ganhou a competição diante as demais. Acumulou R$ 3,644 trilhões, em fevereiro de 2026, na estatística de Meios de Pagamento Ampliados. O significado disso é os bancos estarem com um grande volume de funding para conceder empréstimos. Porém, a taxa de juro elevadíssima não atrai demanda por crédito – e sem ela não há oferta efetiva.

Desde 2024, os depósitos a prazo mantém 1/3 da captação pelos diversos instrumentos. A poupança caiu de 20% em 2020  para 12% em 2025. Em contrapartida, as Letras com isenção tributária (LCI ou LCA) cresceram de 5% em 2020 para 12% no mesmo período. Como efeito, há o encarecimento da fonte de financiamento imobiliário para mercado – não subsidiado como no caso do FGTS.

As captações externas de 14% do total, em junho de 2020, caíram para 9%, cinco anos após. Letras Financeiras permaneceram em torno de 7%. Os instrumentos citados superam 80% das captações do sistema bancário brasileiro.

Segundo o Relatório de Estabilidade Financeira do BCB, mantém-se o cenário de forte competição por funding no SFN. Os bancos do S1 privado seguem reduzindo a participação (de 42% para 38%), e os públicos vêm mantendo estabilidade (33%) nos últimos anos. Em contrapartida, a participação das IFs digitais aumentou de 2% em 2021 para 8% em 2025, impulsionada pelo maior uso de plataformas de distribuição e alcance dos canais digitais, bem como por pagarem maior percentual de CDI (não tanto como o Banco Master). Em um horizonte de tempo mais longo, prevê o BCB, a captação líquida estimada anual das IFs digitais superará consistentemente a das IFs dos S1 privado e público. Podes crer…

Enquanto isso, a captação por tipo de investidor permaneceu praticamente estável no período. Pessoas Físicas (R$ 3,5 trilhões) superam Pessoas Jurídicas (R$ 2,239 trilhões), Não Residentes (R$ 757 bilhões), Setor Público (R$ 782 bilhões), Investidores Institucionais (R$ 815 bilhões) e Instituições Financeiras (R$ 233 bilhões). As plataformas de investimento seguem como canais centrais de captação para instituições de menor porte, intensificando a competição e pressionando as taxas de captação. Ajudaria a explicar o aumento de competição, mas redução nas taxas de juros de crédito pelos segmentos não S1 não afetou os big five banks do S1 (instituições sistemicamente importantes)…

Imagem: Arte CUT

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