Financeirização e a boa sociedade

Financeirização e a boa sociedade

Por Fernando Nogueira da Costa

Em sua obra Finance and the Good Society, publicada em 2013, Robert Shiller defende a ideia de o sistema financeiro, apesar de suas falhas e excessos, ser uma tecnologia social poderosa. Deve ser expandida e democratizada para servir aos objetivos fundamentais da sociedade. Ele desafia a visão comum de a “financeirização” ser apenas uma ferramenta para os ricos, propondo uma definição mais ampla e humanista.

As principais ideias de Shiller no livro incluem tratar a Finança como arquitetura de objetivos. Ele redefine o termo, afirmando ela ser a ciência de estruturar os arranjos econômicos necessários para indivíduos, famílias e instituições governamentais e financeiras alcançarem seus planos, desde a educação de um filho até a criação de sistemas de seguridade social. Para ele, a finança é funcional e existe para apoiar os objetivos da sociedade – e não para “fazer dinheiro” por si só.

O futuro do capitalismo financeiro reside em tornar suas ferramentas acessíveis a todos (democratização) e em desenhar instituições capazes de levarem em conta as limitações e comportamentos reais da mente humana, baseando-se nas descobertas das Finanças Comportamentais (humanização).

Shiller descreve os diversos papéis dos profissionais no sistema financeiro — como CEOs, corretores, banqueiros e reguladores — não apenas como operadores técnicos, mas como zeladores da riqueza e dos objetivos da sociedade. Cada profissão possui responsabilidades morais essenciais para manter a integridade e a confiança no sistema.

Ao contrário daqueles desinformados e preconceituosos “contra a usura” a pedirem a restrição do mercado financeiro, principalmente após crises, Shiller defende mais inovação financeira. Ele propõe novas soluções para gerenciar riscos capazes de afetarem a vida das pessoas comuns, como seguros contra a queda de valor de imóveis ou contra riscos de carreira (livelihood insurance), e títulos governamentais indexados ao PIB (trills) para compartilhar riscos entre gerações.

O autor reconhece a desigualdade extrema ser um problema sério, mas argumenta a finança ter condições de ajudar a resolvê-lo. Ele propõe o “seguro contra a desigualdade” — uma reforma no sistema tributário para ajustar, automaticamente, as alíquotas de imposto, caso a desigualdade de renda aumentar de forma desproporcional no futuro.

Contra a Grande Ilusão do Conflito, Shiller contesta o mito de os negócios serem um jogo de conquista e exploração agressiva. A satisfação real nos negócios vem da cooperação e de se sentir “digno de louvor” (praiseworthy), agindo de forma construtiva e ética para ser um membro valorizado da comunidade.

Ele sugere mudanças nas leis fiscais e nas instituições para tornar a caridade mais recompensadora e eficaz, ou seja, uma reforma da filantropia. Incentivaria os ricos a planejarem a distribuição de suas fortunas de forma a beneficiar a sociedade, em longo prazo, em vez de apenas acumularem riqueza sem propósito.

Para entender a visão de Shiller, imagine o sistema financeiro como a infraestrutura de encanamento de uma cidade: quando o encanamento é mal projetado ou negligenciado, ocorrem vazamentos e desastres (crises), mas a solução não é cortar a água de todos. A solução é projetar um sistema melhor e mais moderno de modo a chegar água a todas as casas, garantindo o recurso essencial (o capital) fluir para onde é necessário para sustentar a vida e o progresso.

No capítulo 20 de Finance and the Good Society, intitulado “Categorizing People: Financiers versus Artists and Other Idealists“, Robert Shiller critica a tendência humana de separar as pessoas em categorias rígidas — como o “idealista” versus o “financista” — ser frequentemente equivocada e baseada em uma percepção psicológica distorcida.

Há a tendência humana de atribuir o comportamento das pessoas a diferenças de personalidade muito mais do justificado, um fenômeno chamado por psicólogos de “erro de atribuição fundamental”. Isso nos leva a crer os artistas e filósofos serem o oposto polar de banqueiros e CEOs, ignorando essas trajetórias poderem se cruzar ou coexistirem na mesma pessoa.

Veja Também:  MULHERES DA MOOCA (ou, A greve de 1917)

A finança pode ser usada como suporte à arte e ao idealismo. Exemplos históricos ou contemporâneos mostram o sucesso em áreas “espirituais” ou artísticas muitas vezes exigiu um manejo sofisticado de recursos financeiros.

Por exemplo, Walt Whitman, embora seja um poeta reverenciado, teve de atuar como empresário de si mesmo, convencendo impressores a apoiar seu trabalho e organizando a venda de seus livros por conta própria. Charles Ives, um dos maiores compositores americanos, foi também um executivo de seguros de grande sucesso. Sua fortuna o permitiu subsidiar e produzir sua própria música idiossincrática sem ter de aceitar trabalhos comerciais degradantes.

Shiller aponta Jeff Koons e Damien Hirst, artistas contemporâneos, como sendo sofisticados em termos financeiros, operando empresas com inúmeros funcionários e utilizando estratégias agressivas de marketing para valorizar suas obras.

Há necessidade da finança em “profissões não financeiras”. Mesmo aqueles indivíduos em profissões voltadas para a igreja, filantropia ou causas revolucionárias precisam rotineiramente gerenciar recursos e executar contratos financeiros.

Apesar de sua imagem como alguém capaz de ter “abandonado” a sociedade moderna, Henry David Thoreau esteve envolvido na gestão da fábrica de lápis de sua família e inventou novos métodos de fabricação. A renda desse negócio lhe permitiu o lazer para viver em Walden Pond.

O radical político dos anos 60, Jerry Rubin, tornou-se analista de mercado em Wall Street. Justificou sua visão, embora os métodos mudem com as décadas, o dinheiro e a contabilidade continuarem sendo formas reais de poder e questões sociais prementes.

Shiller conclui: a autopromoção e a aquisição de riqueza, seja por meios financeiros ou outros, não são crimes. Pelo contrário, ele defende algumas das maiores conquistas humanas terem origem justamente nesse tipo de comportamento voltado para a viabilização de objetivos por meio do capital.

Para Shiller, a finança não é um fim em si mesma, mas uma tecnologia social. Permite até os idealistas mais ferrenhos estruturarem seus planos e deixarem uma marca duradouro na sociedade.

Os economistas podem ser excessivamente atraídos — ou distraídos — pelo que é simétrico e belo. Isso pode levar a uma fé exagerada na perfeição dos mercados, ignorando o mundo real ser frequentemente “bagunçado”, “desumano” e cheio de manipulações. A teoria matemática, usada por eles, nem sempre captura isso.

Para Shiller, a beleza mais profunda da finança não está nas equações, mas na sua capacidade de viabilizar os desejos e atividades humanas. A verdadeira beleza reside na finança como uma “arquitetura de objetivos” capaz de facilitar a vida profissional, o desenvolvimento e os significados eternos da sociedade.

Para entender essa relação, imagine a teoria financeira como a planta de uma catedral gótica: a matemática fornece a simetria e as leis físicas (as equações) capazes de permitirem a estrutura ficar de pé com elegância. No entanto, a verdadeira beleza não está apenas no desenho geométrico do papel, mas na vida acontecida dentro da catedral e na capacidade daquela estrutura de abrigar as aspirações e propósitos da comunidade empenhada em sua construção.

A teoria financeira não é apenas um conjunto de fórmulas áridas, mas possui uma beleza inerente e elegância comparáveis às das artes e das ciências naturais.

A relação entre Finança, Matemática e beleza se manifesta porque esta beleza está intimamente ligada à simetria. Na finança, essa simetria é encontrada na Hipótese do Mercado Eficiente, por imaginar os movimentos de preços não serem meros erros humanos, mas refletirem um “desígnio grandioso” e perfeito onde as informações são incorporadas de forma lógica. Quem lutar contra ele, perde

Tagged: ,