Holismo metodológico em pesquisa sobre sistema bancário

Por Fernando Nogueira da Costa
Com o conhecimento acumulado na minha idade (74 anos) – 50 anos como economista e 40 anos como professor –, em uma pesquisa sobre história bancária, em vez de utilizar o individualismo metodológico com levantamento de diversos casos microeconômicos sem hipótese para os alinhavar em um fio condutor, hoje eu adotaria o holismo metodológico. Partiria da investigação dos componentes ausentes para interagirem e deles emergirem um sistema bancário para pagamentos, financiamentos e enriquecimentos.
Do ponto de vista de uma análise histórico-estrutural do sistema bancário — e especialmente considerando os objetivos de compreender pagamentos, financiamento e enriquecimento financeiro como fenômenos sistêmicos — o holismo metodológico é mais adequado diante o individualismo metodológico.
O “método holista”, apresentado como fosse “de cima (o todo = holos) para baixo (o componente = parte), ou “da linha de chegada (presente) para a linha de partida (passado)”, não é um padrão comum em metodologias formais. A descrição sugere uma combinação de dois conceitos distintos de gestão e planejamento: a abordagem holística e a abordagem de cima para baixo (top-down), com uma possível referência ao método de trabalho reverso ou “começar com o fim em mente”.
É isto mesmo! Narraria uma história reversa de como a formação bancária do Brasil chegou à atual configuração do complexo sistema bancário brasileiro, ou seja, seria uma “genealogia dos elementos componentes”.
Seria uma “história dos vencedores” e das instituições financeiras vigentes. Como se formaram os componentes interativos fundamentais para estarem em vigor hoje?
Não mais assumiria o papel de “historiador econômico”, um contador de cada história pesquisada, nas fontes originais, mas sim o de “economista histórico”. A este interessa saber como se chegou ao estágio atual, como se tomaram as decisões cruciais e se criaram as instituições necessárias, em momentos de “encruzilhada”, com caminhos alternativos a seguir. Além de, é claro, tratar de todas as inovações financeiras e tecnológicas.
A abordagem holística (ou holista) envolve olhar para o “todo” em vez de apenas para as partes isoladas, por exemplo, o estudo do caso particular de todos os bancos porventura existentes. Ela considera as interconexões e sinergias entre os componentes de um sistema.
Em um contexto de projeto ou organização, isso significa entender como cada parte afeta e é afetada pelas outras, promovendo uma visão integral. Por isso, seria um equívoco tanto falar em “setor” financeiro, como fosse desligado do “setor” produtivo, quanto designar um punhado de bancos, criados em uma determinada unidade federativa, como um “sistema bancário”.
Eles transacionavam entre si todo o sistema de pagamentos existentes no país, por exemplo, com compensação dos cheques? Onde e quando?
A abordagem de cima para baixo (ou top-down) é um método de pesquisa onde os objetos principais – os bancos – não são definidos no nível superior (sistema bancário) e são pesquisados em níveis inferiores com suas particularidades.
Em contraponto, agora, eu colocaria de início o foco na visão geral e seguiria para os detalhes ou as raízes relevantes, porque foram as sobreviventes. A frase “da linha de chegada para a linha de partida” sugere um método de trabalho reverso,
Por estar relacionado a “começar com o fim em mente”, envolve visualizar o resultado desejado (a linha de chegada) e, a partir daí, definir os passos necessários para alcançá-lo.
Combinar esses termos provavelmente descreve uma estratégia definida como uma visão integral e holística do objetivo final. Esta é a “linha de chegada”, vista de forma completa, considerando todos os seus aspectos e impactos.
Hoje, eu utilizaria uma abordagem de cima para baixo para planejar as etapas necessárias, começando do resultado atual. Daí retrocederia para estabelecer o ponto de partida e o caminho seguido pelos “vencedores”.
Em resumo, esta é uma descrição metafórica de um método de pesquisa capaz de valorizar a visão sistêmica e a história reversa. A justificativa se estrutura com a seguinte argumentação.
Contar a história de “bancos” não é apenas somar os estudos de casos isolados. O sistema bancário não é a mera adição de contas individuais, agências isoladas e decisões microeconômicas atomizadas.
Ele só existe como rede institucional e tecnológica capaz de conectar Estado, empresas, famílias e o sistema financeiro internacional. Sua função econômica emerge da interação entre componentes – finanças públicas, finanças corporativas, finanças pessoais e finanças internacionais –, não da ação de um único agente. A lógica do sistema bancário é relacional, não individual.
Por isso, o individualismo metodológico é insuficiente. A análise microeconômica tradicional parte do indivíduo ou da empresa/banco como unidade de decisão. Prioriza otimização e preferências. Descreve comportamentos localizados e fragmentados.
Resultado: não captura a monetização da vida social, ampliada por razões demográficas, nem os mecanismos de acumulação de capital via sistema financeiro. É como estudar o corpo humano analisando órgãos isolados, ignorando o metabolismo.
Defendo, no meu atual estágio de conhecimentos, o holismo metodológico como método científico adequado. Uma abordagem sistêmica parte do todo histórico estruturado e identifica funções emergentes de interações entre pagamentos, créditos, governança monetária, ou melhor, gestão do dinheiro.
Considera renda da terra, relações trabalhistas, grau de urbanização, avanço das telecomunicações, redes digitais e “nuvens”. Ao incorporar o Estado, reconhece hierarquias, dependências e conflitos. Só ao olhar o banco dentro do sistema capitalista se pode entender o sistema bancário e, dentro dele, cada banco.
Essa perspectiva permite responder a pergunta crítica: por qual razão um sistema bancário se expandiu assim — e não de outro modo?
Todos os componentes ausentes precisam ser integrados ao longo do tempo para estudar o caso brasileiro de Capitalismo Financeiro Tardio. Como defendiam Ignácio Rangel (1963) e Maria da Conceição Tavares (1967): para o financiamento autônomo do desenvolvimento brasileiro, em longo prazo, teria de haver a plena implantação do capitalismo financeiro no Brasil.
A dúvida hoje é: a Economia de Endividamento Bancário e Público, típica no Brasil, vai incorporar um mercado de ações mais autônomo ou se submeterá às cotações das bolsas de valores dos países centrais? Afinal, praticamente, todas as grandes empresas brasileiras em sociedades abertas têm ações listadas nelas…
Para pesquisar a completa formação bancária do Brasil, temos de entender os relacionamentos sistêmicos dos seguintes componentes.
| Componente | Papel estrutural |
| Estrutura fundiária | Origem da exclusão bancária rural |
| Urbano | Base espacial para circulação monetária entre cidadãos |
| Padrões de crédito | Dispositivos de captura da renda popular e empresarial através de bancos comerciais de varejo |
| Telecomunicações | Infraestrutura dos meios de pagamento |
| Conjuntura internacional | Dependência financeira e tecnologia |
Nenhum desses elementos pode ser derivado por inferência individual. Portanto, meus caros sucessores como pesquisadores de bancos, sugiro focar no modo de emergência sistêmica. Este deve ser o fio condutor da pesquisa.
Em vez de estudar bancos como coleções de histórias empresariais, o holismo propõe estudar 1. o processo social transformador de dinheiro em capital financeiro e 2. a vida cotidiana em fluxo monetário bancarizado.
O sistema bancário seria, então, visto como uma infraestrutura de pagamentos (coerção monetária), uma máquina de endividamento (criação de capital fictício pela avaliação do futuro), um mecanismo de apropriação da renda social (a “maldita” financeirização). São funções sociais emergentes, invisíveis se o pesquisador olhar apenas o micro – e não tiver visão macrossistêmica.
Para compreender a história do sistema bancário como inseparável da história do sistema capitalista, o holismo não é apenas recomendável — ele é necessário. O individualismo metodológico descreve os casos; o holismo metodológico explica o sistema.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
