Nova inserção da periferia na economia globalizada

Por Fernando Nogueira da Costa
A nova inserção da periferia na economia global é condicionada pela globalização comandada pelas finanças. Alterou profundamente os fluxos de comércio e de Investimento Direto Estrangeiro (IDE). Essa inserção não é uniforme e manifesta-se principalmente em dois modelos contrapostos: a integração nas Cadeias Globais de Valor (CGVs) via manufatura e a integração tradicional via produção de commodities.
Essa formulação é bastante consistente com a literatura estruturalista contemporânea e com interpretações heterodoxas da globalização financeira. A partir dos anos 1980–1990, a inserção periférica passou a ser condicionada por uma transformação profunda.
A globalização deixou de ser predominantemente comercial-industrial e tornou-se crescentemente organizada pela lógica das finanças globais. Isso alterou os fluxos de comércio, os padrões de Investimento Direto Estrangeiro (IDE), a organização produtiva e a própria hierarquia centro–periferia. A inserção periférica tornou-se diferenciada e hierarquizada.
A mudança histórica ocorreu na transição da internacionalização produtiva à financeirização global. No período fordista/desenvolvimentista (1945–1980), predominavam o comércio internacional relativamente regulado, as multinacionais produtivas, a industrialização nacional e os controles de capital. O IDE implantava plantas produtivas relativamente integradas nacionalmente.
A globalização financeirizada, de 1980 em diante, emergiu de desregulação financeira, liberalização cambial, mobilidade de capitais, revolução logística e digital. Surgiu enorme expansão dos fluxos financeiros, reorganização internacional da produção, fragmentação das cadeias produtivas.
O capital financeiro passa a comandar a globalização. Esse é o ponto central.
As decisões de investimento, localização produtiva, comércio e tecnologia passam a ser condicionadas por rentabilidade financeira global, valor acionário, liquidez internacional e estratégias de diversificação de riscos geoeconômicos de grandes fundos soberanos, investidores institucionais e multinacionais.
Há uma transformação do IDE. O clássico construía capacidade produtiva nacional relativamente integrada. O IDE contemporâneo frequentemente busca arbitragem global de custos, acesso a mercados, ativos estratégicos e valorização financeira. O IDE tornou-se mais móvel, mais fragmentado, mais subordinado às CGVs e mais financeirizado.
É muito pertinente fazer uma tipologia com dois grandes padrões de inserção periférica. Um primeiro modelo seria a Integração via Cadeias Globais de Valor. São os casos de China, Coreia do Sul, Vietnã e México.
Suas características são a manufatura exportadora, a integração produtiva internacional, a especialização em etapas da produção e a forte presença de multinacionais. As vantagens são a industrialização rápida, o aprendizado produtivo, os ganhos de escala e as exportações manufatureiras. Os limites são a dependência tecnológica, a captura limitada de valor e a vulnerabilidade às estratégias das multinacionais.
O segundo modelo seria a Integração via Commodities, por exemplo, Brasil, Argentina e vários países africanos. Evidentemente, há diferenças entre as soberanias monetárias nacionais, ou seja, dolarização ou não. Suas características são exportação de minério, petróleo, soja, proteína animal (carne) e produtos primários.
As vantagens são a geração de divisas, a forte competitividade natural e a atração de capital externo. Os limites são a baixa densidade tecnológica, a volatilidade externa, a reprimarização da pauta de exportação e o menor encadeamento industrial.
O caso chinês é uma síntese particular. A China inicialmente integrou-se às CGVs pela montagem e manufatura intensiva em trabalho. Mas usou o Estado, no Socialismo de Mercado com Características Chinesas, para ter política industrial, crédito direcionado a setores prioritários, controle cambial para a maior competitividade em exportação, para subir tecnologicamente. Como resultado, transformou inserção subordinada inicial em estratégia de catching up tecnológico.
O caso brasileiro é uma inserção híbrida e financeirizada. O Brasil manteve indústria relevante, mas perdeu densidade tecnológica, aprofundou especialização em exportação de commodities e financeirizou sua inserção externa, ou seja, ficou dependente de IDP para cobrir o déficit do balanço de transações correntes, em processo de retroalimentação. Como consequência, a economia brasileira depende muito de commodities, de fluxos financeiros e de juros diferenciais.
A centralidade das finanças é evidente na nova globalização. Os fluxos financeiros superam amplamente o comércio. Os ciclos internacionais de liquidez tornam-se decisivos. Assim, a periferia fica sujeita a entradas e saídas abruptas de capitais, volatilidade cambial e financeirização doméstica.
A nova hierarquia centro–periferia deixa de ser apenas a opção entre adotar estratégia industrial ou agrícola. Passa a envolver posição de centro tecnológico-financeiro com função de comando, tecnologia, finanças; uma periferia manufatureira integrada com montagem e exportação de manufaturados; e uma periferia primário-financeira com exportação de commodities. No caso do Brasil, há a atração financeira pelas oportunidades de lucrar diante de um dos dez maiores mercados internos da economia global e da disponibilidade de exploração de recursos naturais.
Alguns países aparecem no Top 10 em múltiplos critérios, destacando sua relevância geopolítica. Estados Unidos, Brasil, Rússia, China e Índia (BRIC) estão entre os maiores em território, população e economia. O Brasil tem destaque no Top 10 de território (5º), população (7º) e PIB (10º).
O ponto decisivo é nem toda integração às CGVs produzir desenvolvimento autônomo e nem toda exportação de commodities impedir desenvolvimento interno. O elemento chave é a capacidade estatal de transformar inserção externa em transformação estrutural interna.
Isso dialoga diretamente com a hipótese social-desenvolvimentista sobre o Brasil. O país construiu estabilidade monetária, profundidade financeira e política social. Mas não consolidou uma estratégia consistente de upgrading tecnológico, inovação disruptiva (notáveis nos casos da Embrapa, da Embraer e da Petrobras no pré-sal) e coordenação produtiva.
A formulação aqui apresentada pode ser refinada (ou sintetizada) assim. A nova inserção periférica na economia global passou a ser condicionada por uma globalização financeirizada, na qual os fluxos internacionais são comandados sobretudo pela lógica financeira e pelas estratégias das corporações globais.
Nesse contexto, os padrões de inserção tornaram-se heterogêneos, destacando-se dois modelos principais: a integração manufatureira subordinada às Cadeias Globais de Valor e a integração primário-exportadora baseada em commodities. Cada qual oferece diferentes possibilidades e limites para a transformação estrutural e o desenvolvimento autônomo.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
