O aprendiz de feiticeiro e os feitiços do mercado

Era uma vez O Aprendiz, tão vaidoso quanto incauto ao brincar de comandar forças mal compreendidas por ele. Primeiro, em um palco de TV sob holofotes aprendeu frases de efeito e os truques do espetáculo: quando as cortinas se abriam, ele já estava no centro do palco. Não estava lá por aprendizado em escolas, mas pela busca das luzes de um estúdio e pelas regras de um programa de TV onde o lucro e a eliminação eram os dois únicos princípios.
Da popularidade à vaidade, o bilionário imaginou como seria fácil cortar impostos e gastos públicos imaginários, taxar importações, criar empregos por decreto e prometer prosperidade apenas com sua assinatura. A plateia aplaudia. O Aprendiz sorria.
Aprendera o mundo ser um espetáculo de aparência. A linguagem do sucesso era feita de sentenças curtas, dedos apontados e slogans eficazes. Assim, diante da ilusão do carisma autoritário, O Aprendiz atravessou o espelho da vaidade midiática e adentrou o Salão Oval do poder.
Estava lá a cadeira de comando de um império em declínio, em um mundo entrelaçado por fluxos de dados, capitais e containers. Ele olhou ao redor e viu alavancas: políticas fiscais, taxas de juros, tarifas aduaneiras, sanções econômicas. Pareciam botões simples, como os de seu antigo programa de TV. Bastava apertar e assistir ao espetáculo acontecer.
O Aprendiz de Feiticeiro já não mais midiático, mas presidente, resolveu empunhar a varinha do tarifaço. Seu feitiço preferido? “America First! Jobs for Americans! Bring our factories home!” – repetido como mantra diante das câmeras.
Nesse passe de mágica, conjurou barreiras sobre automóveis, aço, alumínio, chips e até rolhas de cortiça. O comércio global estremeceu e os espíritos do mercado pareceram obedecer: as bolsas pularam do ritmo da euforia ao do pânico nacional e algumas fábricas avaliaram se valia a pena retornar antes da eleição para o Congresso, no ano seguinte, quando provavelmente ele perderia a maioria.
Mas o Aprendiz não sabia os feitiços da economia global não serem unilaterais. São pactos tácitos, configurados em décadas de interdependência. O que ele via como cordas de marionetes eram, na verdade, fios de um sistema vivo, cuja complexidade reagia com certo atraso e com fúria a tentativas toscas de controle.
O Mercado, tal como a água encantada do conto, tem seu próprio espírito –interligado e implacável. A água começou a subir.
Primeiro, os custos de produção aumentaram. Depois, os consumidores pagaram mais caro por produtos antes vindo baratos da Ásia. Em seguida, os exportadores americanos foram atingidos por retaliações. De imediato, os especuladores em ações, sempre os primeiros a farejar tempestade, começaram a saltar do navio.
As tarifas, lançadas com a confiança de um mágico de auditório, começaram a ter efeitos colaterais. Os insumos encareceram. As cadeias produtivas, costuradas em décadas de globalização, se embaralharam. Os aliados retaliaram. Os adversários ajustaram seus tabuleiros.
Como o aprendiz de Goethe, ao animar vassouras para carregar água ter inundado a casa, o presidente-aprendiz descobriu: invocar forças de O Mercado é fácil – controlá-las, nem tanto. O Aprendiz não compreendia: ele apenas apertara os botões certos, como na TV. Por qual razão tudo dava tão errado?
Os bens de consumo encareceram. Os estoques encalharam. Os investidores, nervosos, começaram a especular contra ele. O Dow Jones oscilava como um navio em tempestade.
Tentou gritar novos slogans, acenar novas ordens executivas, impor mais barreiras. Mas quanto mais tentava, mais as águas subiam. Os espíritos invocados por ele agora o ignoravam. O mercado de bens, o mercado de capitais, o mercado de confiança – todos haviam ganhado vontade própria.
O Dow Jones, imaginado dançar conforme sua batuta, passou a se mover por conta própria, refletindo a desordem. As pouca fábricas retornadas sob promessas ilusórias fechavam em silêncio. Os empregos evaporavam como magia invertida.
E O Aprendiz, agora isolado no salão do poder, começou a perceber: O Mercado não é servo fiel, mas sim um demônio capaz de dançar conforme a lógica dos lucros, da produtividade e da confiança – não da bravata.
Quando, por fim, tentou desfazer os feitiços com novos decretos e incentivos, percebeu o verdadeiro mestre do mercado era o sistema capitalista – não o showman. No segundo ato de sua jornada, ele percebeu: não era mais um aprendiz de feiticeiro. Era apenas um vaidoso cercado por forças sem nunca as entender.
O Mercado não era um palco. A economia não era um reality show. A confiança global não era uma plateia hipnotizável.
A história, como sempre, ensina com ironia: quem pensa manipular o comércio global como se fosse um tabuleiro de reality show, acaba descobrindo a economia mundial não aceitar roteiro improvisado. Não se governa um sistema complexo com instinto, mas com conhecimento, prudência e respeito pelas engrenagens de fluxos comerciais e financeiros entre estoques de riqueza.
O Aprendiz deixará o mundo pior diante o encontrado. E o feitiço, como sempre, virará contra o feiticeiro. Cercado de câmeras e olhares questionadores, estará sem saber mais o encantamento dos slogans fáceis para fazer as forças descontroladas pararem.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
