Resultados macroeconômicos do governo Lula 3
Por Fernando Nogueira da Costa
As taxas de inflação e de desemprego médias do período 2023-2026 são inferiores às dos demais governos brasileiros. As taxas de crescimento da renda nacional são similares às dos países ocidentais. Os superávits comerciais acumulados nos três primeiros anos do governo Lula III superam os de período semelhante em outros governos. Os principais resultados macroeconômicos não são muito bons?
Em linhas gerais, a resposta é sim, caso a avaliação seja qualificada e se distingam resultados macroeconômicos dos problemas estruturais.
Os indicadores agregados do período 2023–2026, de fato, mostram um desempenho considerado favorável em comparação tanto com vários governos brasileiros recentes quanto com muitas economias avançadas, embora coexistam fragilidades importantes.
A inflação ficou relativamente baixa para o padrão histórico brasileiro. A taxa de inflação média anual no Brasil, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE, é de aproximadamente 5,6% ao ano, de 2001 até meados de 2026. Para contextualizar o período desde a implementação do regime de metas, os maiores picos anuais ocorreram em 2002 (12,53%), 2015 (10,67%) e junho de 2022 (11,89%), enquanto o menor registro foi em 2017 (2,95%).
A taxa de inflação oficial no Brasil (medida pelo IPCA do IBGE) acumulou os seguintes índices anuais fechados e o último dado: 2023: 4,62%; 2024: 4,83%; 2025: 4,26%; junho de 2026: 4,64%. Ela se situou em patamar moderado para os padrões brasileiros e muito inferior ao observado nos citados episódios históricos.
Portanto, a oposição acusar a inflação de estar “fora de controle” não encontra respaldo nos dados agregados.
O mercado de trabalho apresentou desempenho excepcional. O desemprego atingiu os menores níveis da série histórica da PNAD Contínua, acompanhado por aumento da ocupação, expansão do emprego formal e crescimento da renda real do trabalho.
Os indicadores de desemprego apresentaram trajetória de queda consecutiva: 2023: 7,8%; 2024: 6,6%; 2025: 5,6% (menor patamar da série histórica iniciada em 2012). O indicador trimestral mais recente fechou em 5,6% no trimestre encerrado em maio de 2026. Esses resultados não se conciliam com a ideia de uma “economia em estagnação”, como acusa a oposição.
O crescimento do PIB não foi extraordinário como o da China ou da Índia. Entretanto, também não foi baixo quando comparado às economias de capitalismo maduro. Nos anos recentes, Estados Unidos cresceram em torno de 2%; a zona do euro permaneceu próxima de 1%; o Japão continuou com crescimento reduzido.
O Brasil tem superado a taxa de crescimento do PIB dos países ricos ocidentais. O FMI projeta uma expansão de 2,4% para a economia brasileira em 2026, enquanto os países do G7 devem crescer em torno de 1,7%.
Os países ricos ocidentais (G7 e Zona do Euro) enfrentam um ritmo mais lento de expansão, geralmente oscilando entre 1% e 1,5% ao ano, devido a problemas estruturais como a desindustrialização e o envelhecimento populacional. O Brasil está em 8º. lugar (acima da França e do Reino Unido) no ranking mundial dos dez maiores PIB por Paridade do Poder de Compra com US$ 4,99 trilhões.
Essa priorização do controle inflacionário é resultado de taxas de juros mantidas em patamares restritivos. Mesmo assim, o Brasil mantém uma resiliência acima da média esperada para o seu grupo de comparação na Europa e América do Norte. O desempenho brasileiro tem sido impulsionado pelo consumo interno, expansão do crédito e de serviços urbanos, além da força das exportações do agronegócio, minerais e petróleo.
Apesar da diferença favorável em relação às nações ocidentais ricas, o Brasil cresce abaixo da média dos mercados emergentes e em desenvolvimento. Eles possuem projeções próximas a 3,8%.
O Brasil cresceu acima das expectativas em 2023 (3,2%) e 2024 (3,4%) e desacelerou em 2025 (2,3%), muito em razão da política monetária restritiva. Ainda assim, permaneceu em ritmo comparável ao das principais economias ocidentais. Portanto, a afirmação de “o Brasil não crescer” precisa ser evidenciada.
No quarto pilar macroeconômico (superávits comerciais), o desempenho foi relativamente forte. Os três primeiros anos do governo Lula III acumularam superávits comerciais muito elevados, sustentados por agronegócio, petróleo, mineração e certa recuperação das exportações industriais. Foram os melhores resultados externos da história recente brasileira: 2023: US$ 98,8 bilhões (recorde histórico); 2024: US$ 74,2 bilhões; 2025: US$ 68,3 bilhões.
Entretanto, há uma nuance importante. Grande parte desse desempenho decorre da competitividade das commodities e da produção agroindustrial, não necessariamente de uma recuperação da indústria manufatureira de maior intensidade tecnológica.
Além disso, o superávit comercial convive com déficits na conta de rendas primárias (lucros, dividendos e juros enviados ao exterior), característica típica de economias com elevada presença de investimento estrangeiro direto. Em retroalimentação, este se contrapõe ao déficit no balanço de transações correntes.
Então, por qual razão existe tanta controvérsia? Porque diferentes ideólogos enfatizam dimensões distintas.
Quem pratica Economia Positiva destaca os indicadores macroeconômicos observa “o que é”: inflação relativamente controlada, desemprego historicamente baixo, crescimento positivo, forte geração de empregos, renda real em expansão e comércio exterior superavitário.
Quem imagina Economia Normativa critica o desempenho por enfatizar “o que deveria ser”, contrapondo-se aos juros reais muito elevados, investimento privado insuficiente, déficit nominal elevado, crescimento potencial ainda modesto, baixa produtividade, continuidade da desindustrialização, aumento da dívida pública bruta e dependência crescente de exportações de commodities.
Os dois conjuntos de fatos podem coexistir. Mas uma abordagem sistêmica da complexidade, com o “terceiro incluído” diante de reducionismos binários, ajuda justamente a compreender essa coexistência.
Os bons indicadores macroeconômicos, no atual governo Lula, não significam o país ter superado seus problemas estruturais. É possível ocorrer simultaneamente inflação moderada, desemprego baixo, crescimento razoável, superávits comerciais elevados e, ao mesmo tempo, indústria relativamente enfraquecida, elevada desnacionalização produtiva, forte dependência tecnológica, juros reais entre os mais altos do mundo e inserção subordinada nas cadeias globais de valor. Sob essa perspectiva, não há contradição.
O governo Lula III apresenta notável desempenho na estabilização macroeconômica e na recuperação do mercado de trabalho, sem isso implicar em uma transformação estrutural do padrão de desenvolvimento.
Os dados disponíveis sustentam a avaliação de, em termos estritamente macroeconômicos, o período 2023–2026 apresenta um desempenho favorável: inflação moderada para os padrões brasileiros; desemprego em níveis historicamente baixos; crescimento do PIB semelhante ao de economias ocidentais maduras, inclusive com recuperação da renda do trabalho; expressivos superávits comerciais.
Contudo, esses resultados não eliminam os problemas estruturais da economia brasileira. A principal questão analítica deixa então de ser “se a macroeconomia foi bem ou mal” para tornar-se: esses bons resultados conjunturais são suficientes para alterar a trajetória de longo prazo marcada pela desindustrialização, pela dependência tecnológica e pela elevada financeirização?
Nessa segunda pergunta se concentra o debate acadêmico sobre o desenvolvimento brasileiro, mas não o debate eleitoral. A maioria do eleitorado está preocupado com “o aqui e o agora”, isto é, suas condições de sobrevivência cotidiana.
Na imagem, o presidente Lula, na empresa Avibras Aeroco, em Jacareí (SP), na sexta-feira (24/07) / Ricardo Stuckert

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
