Revolução comunista é consumista
O consumo de massa, impulsionado pelo sistema comunista/consumista chinês, transformou bens de luxo em produtos acessíveis à população em escala global.
Por Fernando Nogueira da Costa
Um texto-base como referência ao seminário mensal entre os professores e os alunos da pós-graduação do IE-UNICAMP analisa a crise e a tentativa de reconstrução da indústria brasileira diante de um cenário global em rápida transformação. Os pesquisadores do NEIT – Núcleo de Economia Industrial e Tecnologia — examinam o histórico de desindustrialização do Brasil, contrastando o antigo modelo de crescimento acelerado com a perda recente de densidade tecnológica e competitividade externa.
O sucesso de uma nova estratégia nacional depende de enfrentar fenômenos contemporâneos, como a hegemonia industrial da China, a financeirização econômica e a consolidação de monopólios intelectuais por grandes corporações. São discutidas, no texto, iniciativas recentes do governo federal, como a Nova Indústria Brasil, em busca de integrar a produção doméstica às demandas de sustentabilidade ambiental e inovação tecnológica.
A reindustrialização exige uma coordenação estratégica entre o Estado e o setor privado para superar gargalos estruturais e sociais. A soberania econômica do país no século XXI está atrelada ao domínio de tecnologias de fronteira e à capacidade de realizar uma transição energética eficiente.
A ascensão da China impactou profundamente o processo de desindustrialização brasileira, já em andamento desde o advento do neoliberalismo, da globalização e da financeirização por meio de diferentes canais macroeconômicos, comerciais e produtivos. O primeiro foi o boom de commodities e a apreciação cambial.
A partir de 2003, a rápida urbanização, a expansão da infraestrutura, a industrialização e a entrada da China na OMC (Organização Mundial do Comércio) impulsionaram uma forte demanda global por commodities agrícolas, energéticas e minerais. No Brasil, embora esse ciclo tenha estimulado o crescimento do PIB e das exportações no curto prazo, os episódios recorrentes de valorização cambial, associados a esse fluxo de divisas, inclusive pela disparidade entre o juro interno e o internacional, penalizaram severamente a competitividade da indústria de transformação doméstica.
Essa valorização cambial de longo prazo favorece a penetração de insumos e produtos importados. Uma parcela massiva das importações feitas pelas indústrias ocorre entre filiais e matrizes (comércio intrafirma). Elas compram peças, componentes e tecnologia de suas próprias sedes ou de subsidiárias localizadas em outros países.
A pressão competitiva no mercado global foi um efeito do ingresso massivo de dezenas de milhões de trabalhadores chineses na manufatura mundial, aliado a fatores como grande economia de escala produtiva, subsídios estatais, câmbio competitivo e avanço tecnológico acelerado. A “revolução comunista foi consumista”, em nível global, porque provocou uma intensa queda mundial nos preços relativos de produtos manufaturados.
Diante disso, a concorrência chinesa passou a abastecer uma parcela cada vez maior do consumo doméstico brasileiro com produtos importados mais baratos, provocando um descolamento entre o consumo interno e a produção industrial do país. Setores intensivos em escala e de processo contínuo, como a siderurgia e a petroquímica, têm sofrido forte e direta pressão competitiva por essas importações. Em contrapartida, a sociedade de consumo se beneficiou muito.
Houve também perda de mercados externos, devido ao transbordamento de excedentes chineses. A concorrência chinesa afetou a competitividade do Brasil não apenas localmente, mas também em mercados de terceiros, historicamente disputados pelas exportações manufatureiras brasileiras.
Esse cenário é intensificado pela chamada “involução competitiva”, isto é, o processo deflacionário, dentro da própria China, onde a sobrecapacidade industrial e o crédito abundante forçam as empresas chinesas a escoar excedentes para o mercado externo a preços muito baixos. Com o aumento de barreiras protecionistas nos EUA e na Europa, esses excedentes de exportação chineses acabam sendo redirecionados com ainda mais força para economias em desenvolvimento como a do Brasil.
Uma consequência foi a especialização regressiva da pauta exportadora. Sob o impacto desse duplo movimento (demanda chinesa por produtos primários e forte concorrência em manufaturados), a estrutura produtiva brasileira perdeu elos tecnológicos importantes.
A participação das manufaturas no total das exportações brasileiras desabou de 74,4% em 1990 para 49,4% em 2023. Consolidou uma inserção externa subordinada e altamente dependente de recursos naturais.
Mais recentemente, essa dinâmica comercial tem se transformado com o direcionamento de investimentos chineses diretamente para a manufatura em território nacional, com destaque para a indústria automotiva de veículos elétricos. Contudo, como esses novos empreendimentos geralmente se iniciam com um volume elevado de importação de componentes, o país enfrenta o problema de estabelecer exigências de conteúdo local e transferência de tecnologia para garantir esses investimentos gerarem enraizamento produtivo real e capacitação tecnológica doméstica em áreas críticas como baterias e eletrônica de potência.
Antes de se pensar em Economia Normativa – o que deveria ser – é necessário verificar a Economia Positiva – o que é. De fato, a participação da indústria manufatureira no PIB brasileiro encolheu?
Isso não se confirma, no século XXI, de acordo com o Sistema de Contas Nacionais, divulgado sistematicamente pelo IBGE. A Agropecuária produziu 6,6% do valor adicionado em 2000 e 7,1% em 2025. A Indústria Geral, 26,7% em 2000 e 23,4% em 2025. As Indústrias Extrativas produziram 1,4% em 2000 e atingiram até 5,5% em 2022, caindo para 3,7% em 2025. A Indústria de Transformação produziu 15,3% em 2000 e 13,7% em 2025, ficando no patamar de pouco mais de 12% de 2012 a 2020 e 15,2% em 2022 e 2023. A Indústria de Eletricidade e Gás, Água e Esgoto foi, respectivamente, 3,1% e 2,4%. A Indústria de Construção foi de 7% para 3,7%. Serviços foram de 67,7% para 69,5%, chegando a 73,3% antes da pandemia.
Em outras palavras, a estrutura produtiva nacional revela uma notável estabilidade nas participações relativas dos grandes setores produtivos neste primeiro quarto de século. Como contrapartida, é interessante correlacionar com os componentes da demanda no PIB no período.
A Despesa de Consumo das Famílias se manteve no patamar de 64,6% em 2000 e 63,4% em 2025. A Despesa de Consumo do Governo se manteve em 18,8% em 2000 e 19,1% em 2025. A FBCF caiu de 18,9% para 17,1%, depois de ficar em torno de 21,8% no período 2010-2013. A grande mudança ocorreu no componente “exportação líquida”, porque a Exportação passou de 10,2% para 17,8%, enquanto a Importação foi de -12,5% a -17,5%.
O balanço comercial brasileiro saiu de um déficit comercial contumaz, junto com o déficit do balanço de transações correntes provocador de crises cambiais, para um superávit comercial estrutural. Está baseado principalmente na exportação de commodities como petróleo, minerais e as do agronegócio. Como um todo, estas representam aproximadamente 48% a 50% de todas as exportações do Brasil.
A mais reveladora de ter havido alguma mudança estrutural, nos últimos 30 anos, é a série encadeada do índice de volume trimestral com ajuste sazonal, publicada pelo SCN-IBGE, com a média de 1995 igual a 100, ou seja, um índice de base fixa. A Agropecuária multiplicou-se por quase 3 vezes (293), a Indústria por menos de 1,5 vez (+45%), Serviços por pouco mais de 2 vezes (+106%), bastante correlacionada com o PIB (+95%) e as Despesas de Consumo das Famílias (+107%), enquanto as Despesas de Consumo da Administração Pública (+66%) ficaram entre eles e o crescimento da Indústria (45%). A FBCF cresceu 75% nesses 30 anos. A Exportação multiplicou-se por 4 vezes (414) e Importação por 3 vezes (307), ou seja, a economia brasileira globalizou-se com a abertura externa neoliberal desde os anos 90.
Mas ela é, predominantemente, uma economia de serviços (+/-70%), correlacionados com o consumo familiar (2/3), voltada mais para o mercado interno. A análise da série temporal da população ocupada pela PNADC é reveladora. Em 2012, havia 89 milhões pessoas ocupadas e, entre elas, a Indústria Geral ocupava quase 13 milhões. Em 2025, eram 103 milhões pessoas ocupadas e a Indústria Geral pouco variou: 13,3 milhões, ou seja, houve em 13 anos um crescimento nas ocupações semelhante ao ocupado por toda a indústria.
Em 2025, a Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e passou a registrar 7,9 milhões de trabalhadores. Em relação a 2012, quando esse grupamento alcançava 10,1 milhões de pessoas, a queda foi de 22,3% (menos 2,3 milhões de pessoas).
Informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas passou para 13,4 milhões de trabalhadores. No primeiro ano da série, essa atividade contava com 9,6 milhões de pessoas, indicando um aumento de 40,1% (mais 3,8 milhões de pessoas) em treze anos.
O grupamento formado pelas atividades de Administração pública, defesa, seguridade, educação, saúde humana e serviços sociais obteve um contingente de 19 milhões de trabalhadores diante de 14 milhões em 2012.
Alojamento e alimentação teve sua população ocupada estimada em 5,4 milhões de pessoas em 2025. Em relação a 2012, houve crescimento de 45,1% (mais 1,7 milhão de pessoas).
Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas no Brasil registrou, no ano de 2025, 19,5 milhões de trabalhadores, correspondendo a um aumento de mais 2,5 milhões pessoas em relação a 2012.
Em Serviços domésticos havia 5,7 milhões de trabalhadores em 2025. Frente a 2012, com 6 milhões, a atividade acumula queda de 6%.
O grupamento da Indústria geral, em 2025, contava com 13,3 milhões de trabalhadores, apresentando crescimento de apenas mais 348 mil pessoas em relação a 2024. No século corrente, a sociedade brasileira, via importação, teve acesso a produtos industriais muito mais baratos.
Na verdade, “a revolução comunista propiciou uma revolução consumista”, via deflação nos preços relativos de bens de consumo duráveis, como automóveis e eletrodomésticos, antes denominados “bens de consumo capitalista”. O consumo de massa, impulsionado pelo sistema comunista/consumista chinês, transformou bens antes considerados de luxo em produtos acessíveis à população em escala global com o aumento da produtividade industrial. O slogan “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” virou união pelo barateamento acessível de produtos industriais.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
