Serviços urbanos como contraponto da desindustrialização

Discute-se muito a relação entre desindustrialização e urbanização com a transformação da estrutura produtiva do classificado como setor secundário para hegemonia do setor terciário. Adota-se, comumente a hipótese clássica: “sem indústria forte não há urbanização sustentada”.
A partir de uma análise histórico-comparada, essa proposição só seria válida para a fase formativa do capitalismo (séculos XVIII–XX), nos países centrais, mas torna-se insuficiente para explicar a urbanização no período pós-1980, destacadamente nos países periféricos ocidentais. A desindustrialização relativa nos países ocidentais foi acompanhada pela expansão de serviços urbanos — tanto aqueles de baixa produtividade e alta absorção de força de trabalho quanto serviços intensivos em conhecimento, finanças e tecnologia.
A combinação de terciarização, financeirização, digitalização e economia de plataforma permitiu sociedades altamente urbanizadas se sustentarem sem uma base industrial competitiva com a asiática. Quanto às implicações para os BRICS, destaco o papel híbrido da indústria (como causadora tardia da urbanização) e dos serviços urbanos (como centro contemporâneo de reprodução econômica ocidental), mas os fatores de repulsão do setor primário (superexploração e mecanização do campo) não podem ser esquecidos para explicar o êxodo rural.
A relação entre industrialização e urbanização constitui um dos eixos centrais da formação do capitalismo moderno. Desde os economistas clássicos ingleses até a tradição estruturalista latino-americana, a indústria foi entendida como o setor com maior capacidade de aumentar a produtividade, coordenar encadeamentos produtivos e gerar excedentes capazes de sustentarem a vida urbana.
Assim, tornou-se senso comum a afirmação de não haveria urbanização sustentada para o desenvolvimento socioeconômico sem uma base industrial sólida. Entretanto, transformações ocorridas nas últimas quatro décadas — desindustrialização relativa, globalização produtiva, financeirização, ascensão da economia digital e expansão dos serviços urbanos — questionam essa proposição.
Países altamente urbanizados, como Estados Unidos, Reino Unido, França e Brasil, mantêm níveis elevados de urbanização apesar da redução da indústria como proporção do PIB e do emprego. Analiso aqui essa mudança estrutural, propondo uma interpretação capaz de conciliar continuidade histórica e ruptura contemporânea.
A indústria foi condição necessária para a urbanização europeia e norte-americana, mas deixou de ser condição suficiente na era dos serviços massificados e das redes financeiras-digitais encadearem os países do Sul Global.
A literatura clássica e estruturalista apontou mecanismos pelos quais a indústria impulsiona a urbanização: aumento da produtividade; economias de escala e escopo; encadeamentos intersetoriais na cidade; base fiscal pública para infraestrutura urbana; absorção de massa de trabalhadores migrantes; formação de mercados internos dinâmicos. Assim, a urbanização aparece como resultado da industrialização combinada com modernização estatal e integração territorial.
A partir dos anos 1980, três processos estruturais alteraram esse quadro. Primeiro, houve a globalização produtiva e o deslocamento industrial para Ásia. Em paralelo, espalhou-se a financeirização com hegemonia da lógica de ativos (ações), avaliados em bolsa de valores centrais, indicar a alocação do capital transnacional. Terceiro, propagou-se a economia digital, as plataformas e os serviços intensivos em dados.
Essas transformações criam um capitalismo urbano-financeiro. Nele, serviços e financeirização sustentam metrópoles mesmo sem base industrial ampla.
A urbanização histórica (1750–1970) parecia indicar a indispensabilidade da indústria para todo o mundo. Almejava-se a base produtiva industrial como motor urbano.
Revolução Industrial e urbanização caminhavam juntas. Indústrias absorviam milhões de trabalhadores expulsos do campo, geravam renda, estimulavam transporte, bancos, comércio e serviços urbanos.
Sistemas de saneamento, ferrovias, iluminação, escolas e moradias operárias foram financiados por Estados urbanos-industriais. Sua capacidade fiscal derivava dos excedentes industriais.
EUA, Alemanha, Japão, URSS e posteriormente Coreia e China representaram o padrão clássico. O argumento generalizante era: eles só se urbanizaram, aceleradamente, porque se industrializam de modo massivo e coordenado. Daí se deduzia a conclusão histórica: a urbanização forte seria inseparável da industrialização forte.
O período pós-1980 conduziu a uma urbanização sem base industrial robusta, pelo contrário, houve uma relativa desindustrialização no Ocidente. A participação industrial caiu no PIB e no emprego em quase todos os países ocidentais, mas a urbanização continua — e até se acelera.
Não deve ser visto como problema grave a ascensão dos serviços urbanos ocorrer com base em serviços de baixa produtividade. Por definição, serviço é o encontro direto de um produtor com um consumidor.
Comércio, alimentação, transporte, cuidados, varejo e informalidade urbana absorvem grande contingente de trabalhadores. Sustentam um fluxo de renda contínua para esses prestadores de serviços.
Mas há serviços de alta produtividade, nos quais cada trabalhador gera muito valor adicionado ou apropriado. Finanças, tecnologia, logística integrada, consultorias, audiovisual, pesquisa e design concentram valor adicionado e apropriado. Desse modo, comandam as cadeias globais.
Economia digital e financeirização se relacionam às plataformas digitais, pagamento eletrônico, crédito pessoal, hipotecas, fintechs e big techs. Tornam o ambiente urbano produtivo mesmo sem fábricas.
Portanto, a urbanização continua sem a indústria a acompanhando. Paris, Nova York, Londres, São Paulo, Cidade do México e Joanesburgo permanecem altamente urbanizadas apesar da queda industrial.
Conclusão contemporânea, necessária para os economistas se atualizarem. A urbanização dá-se hoje sob um regime terciário-financeiro, não mais industrial.
As implicações para os BRICS são distintas. A China teve uma industrialização tardia e com urbanização massiva. Confirmou o paradigma clássico: só se urbanizou aceleradamente porque se industrializou muito entre 1980 e 2010.
A Índia teve uma urbanização moderada sem salto industrial equivalente. Exemplifica o limite do modelo: apesar de crescimento urbano, a ausência de industrialização robusta gerou urbanização precária e serviços informais muito fragmentados.
Brasil, Rússia e África do Sul tiveram uma “urbanização terciária”. Nos três países, a indústria perdeu participação, mas a urbanização se mantém via serviços urbanos de massa, expansão financeira, crédito ao consumo, políticas sociais urbanas e informalidade de subsistência.
A urbanização deu-se sem aumento de produtividade. Gerou cidades grandes, mas frágeis.
Dentro da continuidade histórica, a indústria foi fundamental para romper a economia agrária, criar excedentes urbanos e articular mercados nacionais. A ruptura contemporânea aconteceu porque a nova sustentação urbana vem de: financeirização, plataformas digitais, serviços massificados, capital imobiliário e economia de (bancos de) dados.
A urbanização passa a ser vista como um processo autônomo. Torna-se um sistema próprio, alimentado por redes de serviços e crédito, não mais dependente do setor secundário.
A frase “sem indústria forte não há urbanização sustentada” é válida para explicar a formação histórica do capitalismo moderno, mas se mostra insuficiente para a Era Digital-Financeira. O capitalismo contemporâneo transformou a urbanização em um processo sustentado por serviços urbanos — tanto aqueles de baixa produtividade quanto os intensivos em conhecimento —, por redes digitais e pela financeirização do cotidiano.
Os BRICS revelam combinações distintas dessa transição: industrialização tardia (China), urbanização incompleta (Índia) e urbanização terciária fragilizada (Brasil, África do Sul, Rússia). De forma geral, a urbanização não depende mais da indústria, mas sim da capacidade de suas cidades de coordenar serviços, fluxos financeiros e redes digitais.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
