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Sistema capitalista é financeiro

Sistema capitalista é financeiro

Ensino aos meus alunos eliminar a equivocada expressão “setor financeiro” do vocabulário. Notáveis economistas, não especialistas em Finanças, mas sim em um ou outro setor de atividade, referem desse modo reducionista ao designar o sistema financeiro.

Ensino aos meus alunos eliminar a equivocada expressão “setor financeiro” do vocabulário. Notáveis economistas, não especialistas em Finanças, mas sim em um ou outro setor de atividade, referem desse modo reducionista ao designar o sistema financeiro.

Qual é a razão da minha implicância? O ramo de atividade de uma empresa é a especificação do feito por ela para gerar bens e serviços para seus clientes e valor adicionado para o dono. Este escolhe qual será o seu ramo de atuação como empreendedor, levando em consideração a preferência pessoal, o conhecimento, o público-alvo consumidor, a concorrência, o investimento e as perspectivas da atividade.

Cada setor profissional congrega “famílias de ofícios” suficientemente próximas para serem consideradas como um único aparelho de produção. Pode envolver múltiplos ramos de atividade econômica, assim como cada setor profissional inclui atividades corporativas sujeitas à mesma regulamentação profissional e fiscal.

Por isso, um setor é um conjunto de atividades econômicas com características semelhantes.

Convencionalmente, a subdivisão da economia se dá em três grandes setores econômicos: primário, secundário e terciário.

Por sua vez, um sistema é um conjunto de componentes interdependentes, cuja emergência de suas interações configura um todo auto-organizado. O termo “sistema” significa “combinar”, “ajustar”, “formar um conjunto”.

Um sistema, em sentido figurado, é um organismo, isto é, um conjunto de órgãos funcionais, cada qual com determinada função, mas com relações entre eles. A integração entre esses órgãos componentes de um sistema pode se dar por fluxo de informações e/ou fluxo de dinheiro. São meios de comunicação entre eles.

Daí todos os agentes econômicos, sejam Pessoas Físicas, sejam Pessoas Jurídicas ou Entidades, são clientes e participantes ativos do sistema financeiro. Ele é emergente de interações entre três subsistemas.

O subsistema de crédito financia a expansão de capacidade produtiva, concede capital de giro à produção, credita consumo, habitação, compra de ativos baratos para vender caro (especulação) etc. De maneira crucial, propicia aumento da oferta de empregos.

O subsistema de gestão de dinheiro propicia aos seus clientes a possibilidade de investimentos financeiros para proteger o poder aquisitivo de suas reservas e seus rendimentos financeiros substituírem a renda do trabalho na aposentadoria.

O subsistema de pagamentos dá acesso popular ao sistema de pagamentos eletrônicos para oferecer segurança e facilidade prática no dia a dia dos clientes. Circula a moeda.

Um sistema aberto interage com o seu meio através de fluxos de entradas e saídas. Os sistemas são dinâmicos pela evolução ao longo do tempo de seus estoques e fluxos.

Uma ordem espontânea é a auto-organização a partir do aparente caos, isto é, afastamento das condições iniciais. Uma combinação de indivíduos auto interessados, sem estarem intencionalmente tentando criar uma ordem social, gera fenômenos padrões, detectados com um comportamento coletivo emergente.

Em lugar da “visão de baixo para cima” do atomismo ou individualismo metodológico, o holismo inverte: a partir da visão do todo localiza e pondera as partes. Os fenômenos, teorias e significados complexos podem ser sempre reduzidos, ou seja, expressos em unidades diferentes, a fim de explicá-los em suas partes constituintes mais simples.

O oposto do reducionismo constitui o holismo: a ideia de fenômenos macrossistêmicos terem propriedades como um todo. Eles não são explicáveis a partir das propriedades de suas partes. O todo é qualitativamente distinto da soma das partes.

Por exemplo, o dinamismo da economia é propiciado pelo multiplicador de gastos, financiados pelo crédito, independentemente da disponibilidade de poupança prévia.  É inversamente proporcional à fração de retirada (aplicações em outros ativos) por ciclo de gastos, ou seja, à diferença entre a unidade e a fração gasta novamente, devido à propensão marginal a consumir.

Depois de todas as rodadas ou os ciclos de gastos, o aumento total na renda será a resultante de todos os gastos em consumo acumulados. Haverá, ao mesmo tempo, aumento no total de aplicações em ativos financeiros. Servem de lastro como passivos bancários dos empréstimos efetuados pelos bancos para alavancar os gastos, seja em consumo, seja em investimento.

Assim como o subsistema de crédito gera o multiplicador de gastos e empregos, fluxos de renda e ativos, isto é, formas de manutenção de estoques de riqueza, o subsistema de gestão de dinheiro pode gerar dois típicos fenômenos.

Em Economia de Mercado de Capitais, como a norte-americana, o comportamento de manada na euforia do boom e no pânico do crash, quando todos tentam vender ao mesmo tempo para pagar os empréstimos tomados para a alavancagem financeira: multiplicar a rentabilidade através de endividamento com recursos de terceiros.

Em Economia de Endividamento Público ou Bancário, como a brasileira, o risco soberano seria um governo estrangeiro não honrar um empréstimo em dólar – e não a insolvência governamental em moeda nacional. O alarmismo do risco fiscal se transformar em risco cambial, em geral, é uma falsa ameaça de fuga de capital para a divisa estrangeira.

Este poderia ocorrer onde não há um mercado de títulos de dívida pública estruturado com pagamentos de juros internos acima dos internacionais. Compare o caso argentino, onde o dólar é reserva de valor e a taxa de inflação alcança 92% aa, com o brasileiro, onde a quase-moeda em títulos de dívida pública resgatáveis com alta liquidez e a disponibilidade de grande reserva cambial estabiliza a taxa de câmbio. Com isso, a taxa de inflação gira em torno de 6% aa, desde 2004, exceto em dois anos: 2015 e 2021.

Falamos em mercado de crédito e mercado de capitais, falta apontar um possível fenômeno coletivo em mercado de dinheiro. Qualquer ameaça de bancarrota e atentado ao direito de propriedade privada de clientes e acionistas provocaria uma corrida bancária. Por isso, os prudentes escolhem “banco grande demais para não falir”, de modo o Banco Central o salvar para evitar a contaminação em risco sistêmico.

O método holista, para perceber a complexidade sistêmica, supera visão da configuração humana com o método cartesiano: divisão do problema em partes, reducionismo, objetivismo generalista sem contextualização, dualismo simplório. A lógica clássica binária com terceiro excluído é superada pela transdisciplinaridade, sustentada por diferentes níveis de realidade, terceiro incluído e complexidade.

Confira a superação do binarismo com o terceiro incluído: Estado ou Mercado X Estado, Mercado e Comunidade; Trabalhadores contra Capitalistas X Classe Média, Castas e Párias; “Nós contra Eles” X Pobres, “Remediados” e Ricos; “Público Não-Bancário” contra Banqueiros X todos os participantes do sistema bancário (PF, PJ, bancos públicos, privados nacionais e estrangeiros, digitais, fintechs etc.); Mercado Financeiro versus 
Mercado de Capitais X crédito com recursos livres, direcionados e repasses externos, debêntures, ações etc.

No entanto, o marxista Michael Hudson insiste no dualismo simplório em seu último livro, publicado em 2022: The Destiny of Civilization: Finance Capitalism, Industrial Capitalism or Socialism. Sua hipótese é a riqueza ser viciante e as demandas dos credores romper o equilíbrio social e provocar uma polarização binária. Quanto mais dinheiro alguém tem, mais ele se torna propenso a uma ganância por mais dinheiro.

Ele condena, sumariamente, qualquer dívida e desconhece o papel-chave da alavancagem financeira no capitalismo. O “segredo do negócio” é usar recursos de terceiros para somar aos recursos próprios e assim ganhar economia de escala e maior rentabilidade patrimonial, caso o novo lucro operacional supere as despesas financeiras.

Do mesmo modo cego pela ideologia, Hudson não percebe a racionalidade do juro. É a remuneração, cobrada pelo empréstimo de dinheiro próprio, porque transferirá o usufruto (ganho) dele para terceiros e, portanto, requer compensação pelo custo de oportunidade: o benefício perdido por conta dessa escolha.

Michael Hudson exerce a cansativa prática de “denúncia do capitalismo”. Não aceita o sistema capitalista ser financeiro, sempre inseparável da chamada “financeirização”. Obtuso com a revolução súbita e rápida por meio de um partido único, não reconhece só ser possível uma re-evolução sistêmica ao longo do tempo, reformista e gradualista.

Setor se estatiza, sistema não. Os cidadãos, tanto ricos quanto pobres, defendem a propriedade privada como uma conquista social. Por isso, vemos muitos iletrados “patriotários” manipulados pela ideologia do anacrônico “anticomunismo”.

Em seu reducionismo binário, Michael Hudson transforma a luta de classes (trabalhadores contra capitalistas) em imaginário conflito entre capitalismo industrial e capitalismo financeiro. Pressupõe a possibilidade de regressão histórica deste sistema àquele retratado de maneira idílica…

Confira abaixo.

Objetivos do
Capitalismo Industrial

Obter lucros produzindo produtos.

Minimizar o custo de vida e os preços.

Favorecer a indústria e o trabalho.

Minimizar o aluguel da terra e os custos de moradia tributando o aluguel da terra e outros ativos geradores de renda, não a indústria ou o trabalho.

Fornecer infraestrutura pública a baixo custo.

Reformar os parlamentos para bloquear o rent-seeking.

Evitar gastos militares e guerras exigentes de endividamento externo.

Concentrar o planejamento econômico e social no capital político.

Reciclar a receita corporativa em investimento de capital em novos meios de produção.

Concentrar a política monetária no Tesouro Nacional.

Alinhar os preços com o valor de custo.

Os bancos devem ser industrializados para financiar investimentos de capital tangível.

Longo prazo para desenvolver produtos e planos de marketing: M-C-M’.

Engenharia industrial para aumentar a produtividade por meio de pesquisa e desenvolvimento e novos investimentos de capital.

Concentra-se no desenvolvimento de longo prazo do capitalismo industrial como um sistema econômico amplo

Economia de altos salários, reconhecendo o trabalho bem alimentado e bem-educado com lazer ser mais produtivo no lugar do trabalho “pobre” de baixo preço. A segurança no emprego de longo prazo é incentivada.

M-C-M’ Os lucros são obtidos investindo em meios de produção e contratando mão-de-obra para produzir mercadorias para vender a um preço mais alto do que custa empregar mão-de-obra.

A banca é industrializada, para fornecer crédito principalmente para investir na formação de novo capital. Esse aumento do crédito tende a aumentar os preços das commodities e, portanto, o salário-mínimo.

Apoia a democracia porque a Câmara dos Deputados apoiará o capital industrial em sua luta contra a classe dos latifundiários e outros rentistas, cuja receita aumenta os preços sem agregar valor.

O capitalismo industrial é inerentemente nacionalista, exigindo proteção do governo e subsídios à indústria.

Apoia uma economia mista, com o governo pagando pela infraestrutura para subsidiar a indústria privada. O governo trabalha com a indústria e os bancos para criar um plano de crescimento de longo prazo para a prosperidade.

A banca e o crédito são industrializados.

Manter os serviços bancários e de crédito como utilidade pública e estabelecer fortes regulamentações financeiras

Objetivos do
Capitalismo Financeiro

Extrair arrendamentos e juros.

Adicionar arrendamento de terras e aluguel de monopólios aos preços.

Dar especial favoritismo fiscal aos setores de Finanças, Seguros e Imobiliário (FIRE).

Desviar os impostos do aluguel da terra para deixá-lo disponível e para pagar como juros aos banqueiros hipotecários.

Privatizar a infraestrutura em monopólios para extrair renda monopolista.

Bloquear a reforma democrática, transferindo o controle para funcionários tecnocratas não eleitos.

Usar organizações internacionais (como o FMI ou a OTAN) para forçar a política neoliberal.

Planejar a alocação de recursos para os centros financeiros.

Pagar a receita como dividendos ou usá-la para recompras de ações para aumentar os ganhos no preço das ações.

Transferir a política monetária para os bancos centrais, representando os interesses dos bancos privados.

Maximizar as oportunidades de rent-seeking através da propriedade da terra, crédito e privilégios de monopólio.

Os bancos emprestam contragarantias, elevando os preços dos ativos, especialmente os com rendimentos.

Curto prazo, atingido e executado pela especulação financeira: M-M’.

Engenharia financeira para aumentar os preços dos ativos – por meio de recompras de ações e maiores pagamentos de dividendos.

Objetivos hit-and-run de curto prazo, principalmente comprando e vendendo ativos

Uma corrida para o fundo, esgotando funcionários e substituindo-os por novos contratados. A mecanização do trabalho trata os trabalhadores como facilmente substituíveis e, portanto, descartáveis.

M-M’ Ganhos de “capital” obtidos diretamente pela inflação dos preços dos ativos.

O aumento do crédito bancário para financiar a oferta de habitação, ações e títulos aumenta o custo da habitação e da compra de renda de pensões, deixando menos para gastar em bens e serviços.

O capital financeiro se une ao capitalismo industrial “tardio” para se opor às políticas trabalhistas. Ele procura assumir o controle do governo, e especialmente dos bancos centrais, para sustentar os preços de ações, títulos, imóveis e pacotes de empréstimos bancários inadimplentes com ameaça de insolvência dos bancos.

O capital financeiro é cosmopolita, buscando impedir os controles de capital e impor o livre comércio e a política antigovernamental libertária.

Procura abolir a autoridade do governo em todas as áreas, de modo a deslocar o centro do planejamento para Wall Street e outros centros financeiros. O objetivo é desmantelar a proteção do trabalho e da indústria em conjunto.

A indústria está financeirizada, com lucros usados principalmente para aumentar os preços das ações por meio de programas de recompra de ações e pagamentos de dividendos, não para novos P&D ou investimentos tangíveis

Privatizar todos os bancos e o crédito e assumir o controle do Banco Central e dos demais reguladores financeiros.

Fonte: Michael Hudson. The Destiny of Civilization: Finance Capitalism, Industrial Capitalism or Socialism. CounterPunch, 2022.

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