Teologia da prosperidade do banco Digimais
Por Fernando Nogueira da Costa
O caso policial do Banco Digimais – surgido em 2020 como uma união das palavras Digital e Mais – do Edir Macedo (foto / reprodução), naturalmente, provoca um questionamento do neopentecostalismo. A sensação popular de pertencimento por parte de pessoas pobres extrapola para os campos político e financeiro, de modo os seus líderes pastores tirarem proveito pessoal, sem nenhuma reação por parte dos crentes manipulados e/ou explorados em votos e dinheiro, doados “voluntariamente”?
Essa questão envolve três planos distintos: a Teologia, a Sociologia da Religião e a Economia Política. É importante distingui-los para evitar generalizações sobre milhões de fiéis e milhares de igrejas bastante diferentes entre si.
O neopentecostalismo é uma vertente do protestantismo. Surgiu nas últimas décadas do século XX. Conhecidas pelo uso de rituais de quebra de maldições e grande presença midiática, essas igrejas enfatizam a Teologia da Prosperidade: a ideia de a fé trazer recompensas financeiras e saúde imediata, além da chamada “batalha espiritual” contra demônios como o identitarismo e o esquerdismo.
No Brasil, o neopentecostalismo possui forte expressão social, econômica e política. As principais características definidoras deste movimento incluem, sem dúvida, a Teologia da Prosperidade. Trata-se da pregação contínua de a fé e as contribuições financeiras resultarem diretamente em sucesso material, cura física e prosperidade na vida terrena.
Em sua guerra espiritual pratica até o exorcismo. Adota práticas intensas voltadas para a “libertação”. Incluem sessões de descarrego, quebra de maldições hereditárias e a crença de o diabo e os demônios atuarem ativamente na vida das pessoas.
Seu misticismo usa objetos sagrados como “pontos de contato” para a fé. Por exemplo, faz uso de fitas, sal grosso, água abençoada e rosas consagradas, buscando afastar o mal e atrair bênçãos.
A atuação midiática e política cria confiança econômica explorável. Por isso, faz uso massivo de emissoras de televisão, rádio e internet, além de forte representação e articulação no cenário político institucional, inclusive com bancada no Congresso Nacional, atuante como fosse um partido político.
Sua liderança é centralizadora. Estruturas eclesiásticas, lideradas por “pastores”, com hierarquia corporativa e comunicação moderna está focada em atrair públicos urbanos.
Exemplos de denominações neopentecostais no Brasil incluem empreendimentos como a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), a Igreja Internacional da Graça de Deus, a Igreja Mundial do Poder de Deus, a Igreja Renascer em Cristo etc.
A chamada Teologia da Prosperidade propaga Deus desejar o fiel prosperar em todas as dimensões: espiritual, familiar, física, profissional e financeira. Nessa visão, prosperidade material não seria necessariamente um desvio da fé. Seria interpretada como um sinal da bênção divina.
Entre suas ênfases estão a fé ativa, o empreendedorismo, a disciplina pessoal, a rejeição do fatalismo e a expectativa de transformação da vida. Algumas igrejas acrescentam, de maneira oportunista, a ideia de dízimos fazerem parte da relação de fidelidade com Deus. Há, porém, grande diversidade na forma como isso é ensinado.
Há diferenças bastante significativas entre protestantismo histórico, pentecostalismo e neopentecostalismo. O protestantismo histórico como na Igreja Presbiteriana do Brasil, Convenção Batista Brasileira e Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil normalmente enfatizam estudo bíblico, salvação pela graça, ética do trabalho e responsabilidade individual. A riqueza não é vista como garantia de aprovação divina.
No pentecostalismo clássico, como Assembleias de Deus, tradicionalmente enfatizam experiência do Espírito Santo, dons espirituais, oração, santificação e evangelização. Historicamente, muitas mantiveram estilo de vida relativamente austero.
Já igrejas neopentecostais enfatizam mais intensamente guerra espiritual, vitória sobre adversidades, prosperidade, empreendedorismo e superação financeira. Nesse segmento a Teologia da Prosperidade se tornou mais visível, embora nem todas as igrejas neopentecostais a adotem da mesma forma.
Do ponto de vista sociológico, alguns autores observam afinidades entre certos discursos religiosos e valores do capitalismo contemporâneo. Max Weber havia mostrado como a ética protestante favoreceu disciplina, poupança e investimento no espírito do capitalismo.
A Teologia da Prosperidade representa um desenvolvimento posterior: empreender torna-se virtuoso; enriquecer pode ser visto como compatível com a fé; pobreza tende a ser interpretada menos como destino inevitável e mais como situação passível de mudança. Para muitos fiéis, essa mensagem funciona como incentivo psicológico à iniciativa econômico-financeira.
O pertencimento pode extrapolar para política e finanças, mas não necessariamente. Toda comunidade, baseada em elevada confiança, gera capital social.
Esse capital pode facilitar mobilização eleitoral, ações solidárias, cooperativas, campanhas beneficentes e consumo de produtos recomendados pela comunidade. Isso ocorre também em sindicatos, associações profissionais, clubes e organizações não religiosas. O mecanismo sociológico é semelhante.
Os líderes costumam obter vantagens pessoais. Em qualquer organização capaz de concentrar autoridade, recursos financeiros, confiança e baixa transparência, existe potencial para abuso.
Isso vale para igrejas, partidos políticos, sindicatos, fundações, empresas familiares e organizações não governamentais. Entretanto, seria incorreto concluir esse potencial implicar todos os líderes religiosos agirem dessa maneira.
Há casos documentados de condenações por crimes financeiros envolvendo líderes religiosos, assim como há inúmeros líderes administradores dessas instituições sem acusações dessa natureza. Cada situação depende de provas específicas.
A literatura sociológica tende a rejeitar explicações tão simples como “os fiéis são simplesmente manipulados”. Os participantes dessas comunidades, em alguns casos, obtêm benefícios reais, como redes de apoio, identidade coletiva, auxílio em momentos de crise, combate ao alcoolismo e às drogas, disciplina financeira, oportunidades de trabalho e fortalecimento familiar.
Esses benefícios ajudam a explicar por quais razões permanecem nas comunidades religiosas. Isso não impede, em determinados contextos, existirem relações assimétricas de poder ou práticas abusivas. As duas coisas podem coexistir.
Sob a ótica da Economia Institucional e da Teoria da Complexidade, talvez o elemento comum mais importante não seja a fé em si, mas a confiança institucional. Pode-se representar essa dinâmica assim: Comunidade → Confiança → Capital Social.
Esse capital social pode ser convertido em diversas formas de ação coletiva como solidariedade, participação política, empreendedorismo, consumo e adesão a produtos financeiros. A questão normativa relevante não é impedir essa conversão, mas assegurar ela ocorrer com transparência, prestação de contas, governança, liberdade de escolha e fiscalização quando houver atividades econômicas reguladas.
Em síntese, a Teologia da Prosperidade não se reduz a uma ideologia de enriquecimento dos líderes nem pode ser entendida apenas como manipulação dos fiéis. Ela constitui um fenômeno religioso e social complexo.
Estimula iniciativa econômica e mobilização comunitária, mas também gera incentivos para concentração de poder e conflitos de interesse, quando organizações religiosas passam a atuar intensamente em mercados eleitorais, midiáticos ou financeiros. A avaliação de cada caso exige evidências concretas sobre sua governança e suas práticas, e não apenas inferências a partir da doutrina professada.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
