Especialistas debatem Programa Nacional de Cinema na Escola

Especialistas debatem Programa Nacional de Cinema na Escola

5ª edição do Seminário de Cinema e Educação do Sesc SP debateu a regulamentação da Lei 13.006/2014 e a construção do Programa Nacional de Cinema na Escola

POR CARMEN MUNARI e TATIANA CARLOTTI

Nos dias 6 e 10 de outubro, em parceria com a Ecofalante e a Prefeitura de São Paulo, o Sesc São Paulo promoveu a 5ª edição do Seminário de Cinema e Educação, reunindo educadores, gestores, cineastas e pesquisadores para debater as perspectivas e metodologias do trabalho com o cinema nas escolas.

O curso, distribuído em cinco aulas, discutiu a regulamentação da Lei 13.006/2014 e a construção do Programa Nacional de Cinema na Escola, debatendo como incorporar o cinema e o audiovisual como uma linguagem viva e transversal para fomentar a sensibilidade estética, o pensamento crítico e a cidadania socioambiental dos estudantes brasileiros.

Aprovada em 26 de junho de 2014, a Lei 13.006/2014 tornou obrigatória a exibição de filmes de produção nacional nas escolas de educação básica por, no mínimo, duas horas mensais. A medida busca integrar o cinema à proposta pedagógica, estimulando o uso de obras audiovisuais como ferramenta de aprendizado, reflexão e valorização da cultura brasileira.

Dividido em quatro mesas, o curso contou com a abertura de Rosália Duarte, doutora em Educação pela PUC-Rio e professora visitante sênior na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, que debateu “Sonhos para a Terra: Educação, Cinema e o Reencantamento do Mundo”.

Na sequência, Adriana Fresquet, professora titular da Faculdade de Educação da UFRJ e coordenadora do Grupo CINEAD, e Raquel Franzim, doutora em Educação pela Unicamp e representante do MEC na Coordenação-Geral de Educação Integral, explicaram o que diz a lei? e debateram o cinema na escola como política pública, discutindo os caminhos institucionais e legais para consolidar o cinema como direito educacional.

Práticas pedagógicas

Na mesa “Cinema na Escola: Práticas Transformadoras em Educação”, a professora Renata Lanza, articuladora do Programa de Cinema e Educação de Campinas; e Juliana Costa, coordenadora do Programa de Alfabetização Audiovisual de Porto Alegre, apresentaram experiências municipais que colocam o audiovisual no centro das práticas pedagógicas.

Juliana Costa explicou que o projeto de alfabetização audiovisual de Porto Alegre, criado em 2008, já atingiu mais de 250 mil estudantes. “O programa atua em conjunto com a Faculdade de Educação da UFRGS, salas de cinema da capital e as próprias salas de aula. São realizados seminários de cinema e cursos para formação de docentes no audiovisual.” Um dos objetivos da iniciativa é o de criar o hábito do cinema nas escolas, oferecer repertório, metodologias e perspectivas viáveis para trabalhar com o cinema entre os alunos. “Até nas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 o Cine Vida levou o cinema para abrigos dos moradores que tiveram que deixar suas casas”, relatou.

Já Renata Lanza, doutora em Educação e articuladora do Programa de Cinema e Educação da Secretaria Municipal de Educação, contou que a iniciativa em Campinas começou em 2006 e conta com parceria do Museu da Imagem e do Som e o Laboratório de Estudos Audiovisuais da Unicamp.

Hoje, a iniciativa atinge 178 escolas de educação infantil, 45 escolas de ensino fundamental, 57 mil alunos, 5 mil educadores e 3.200 profissionais envolvidos nos cursos, cineclubes e mostras. Os alunos fazem filmes de curta-metragem. Campinas disponibiliza sua experiência “como uma vontade de partilhar nossas experimentações com o cinema junto a crianças pequenas no contexto da educação infantil”, salientou.

Na sequência. a mesa “Ver, criar e aprender: o cinema como prática pedagógica” trouxe as colaborações de Wenceslao Oliveira Jr., professor da Unicamp e pesquisador do Laboratório de Estudos Audiovisuais-OLHO, ao lado de Maria Angélica Santos, coordenadora do Programa de Alfabetização Audiovisual e da ação educativa da Cinemateca Capitólio.

Curadorias

A última mesa do curso abordou a questão dos acervos e curadorias, questionando “quais imagens queremos nas escolas”. Participara do debate a cineasta Clarice Alvarenga, professora da UFMG, coordenadora do LAIS e da Casa de Cinema, e Isaac Pipano, doutor pela UFF com experiência na Sorbonne Nouvelle.

Pipano destacou a dimensão política e pedagógica da curadoria audiovisual. “Ao tratar de acervos e curadorias no ambiente escolar, estamos diante de uma questão de natureza político-pedagógica: como construir culturas cinematográficas capazes de formar cidadãos críticos, sensíveis e capazes de se engajar no mundo e se relacionar eticamente com as imagens e os sons que eles consomem.”

Apesar do investimento expressivo do Estado brasileiro na produção cinematográfica nacional — com o maior volume de recursos já destinado ao setor nos últimos anos —, o acesso do público a essas obras segue sendo um dos principais desafios. “Em 2023, apenas 3,7 milhões de pessoas assistiram a filmes brasileiros nos cinemas, número considerado muito baixo diante do potencial de público existente. Para efeito de comparação, o Brasil possui cerca de 40 milhões de estudantes da educação básica, o que representa um universo dez vezes superior ao público alcançado pelas produções nacionais”, apontou.

Ele também comentou o impacto das plataformas digitais, que operam com algoritmos de recomendação baseados em métricas de engajamento e tempo de tela. Essa lógica, centrada no mercado e na repetição de padrões de consumo, tende a invisibilizar produções periféricas, experimentais ou que escapam dos modelos hegemônicos de sucesso. Assim, o cinema brasileiro, mesmo mais diverso e produtivo, enfrenta o desafio de disputar visibilidade em um ambiente dominado por bolhas de consumo e critérios comerciais, o que compromete seu potencial formativo e cultural, salientou.

Nesse sentido, ele destacou a importância da curadoria pedagógica, criticando a “monocultura da imagem”, que tem no seu latifúndio de Hollywood o seu grande produtor.

Aprendizagem

A cineasta Clarice Alvarenga reforçou que reconhecer o cinema feito dentro da escola “é pensar que estudantes também são realizadores, e não só espectadores. Que a produção audiovisual na escola, que já existe, é uma prática pedagógica de investigação do território, de constituição de memória, de fortalecimento de práticas mais inclusivas e democráticas. E que esse acervo produzido pelos estudantes é também cinema brasileiro”, afirmou.

Ela contou que há cerca de dez anos começou a perceber que seus alunos aprendiam mais sobre raça, sexo e classe com filmes do que com a bibliografia teórica passada por ela. Em sua visão, o diálogo entre cinema e escola não deve reduzir o audiovisual a um instrumento didático tradicional, mas reconhecê-lo como um território de aprendizagem sensível. “Quando a gente estabelece essa relação do cinema com a escola ou pensa curadorias pedagógicas, não está exigindo do cinema que ele seja pedagógico, porque, na verdade, o que acontece é que as pessoas aprendem com o cinema, sem que a intenção do cineasta seja ser pedagógico. A gente sempre aprende com as imagens”, explicou.

“Mesmo que grande parte das pessoas diga que vai ao cinema para se divertir, verdade seja dita, muitos de nós — incluo aí — vamos ao cinema para aprender coisas. Muitas vezes o que aprendemos transforma a nossa vida de algum modo”, complementou.


Foto: Divulgação Seduc – Gov. do Pará

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