30 anos do Massacre de Carajás: o MST no mapa global da luta social

30 anos do Massacre de Carajás: o MST no mapa global da luta social

Entre feridas históricas e ambições futuras, o país aparece como território decisivo das batalhas contemporâneas por democracia, soberania e desenvolvimento. (Foto: Marcello Casal Jr./Arquivo ABr)

POR JOANNE MOTA

Nesta sexta-feira (20), o Brasil voltou ao centro do noticiário internacional por razões que revelam as múltiplas faces de um país em disputa: da memória sangrenta da luta pela terra à ofensiva diplomática de Luiz Inácio Lula da Silva na Europa, passando pelo debate sobre minerais estratégicos e pela despedida de um ícone esportivo.

Carajás, para nunca esquecermos

Em extensa reportagem, a revista Jacobin relembra os 30 anos do massacre de Eldorado do Carajás e destaca a atual mobilização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Segundo o texto, milhares de trabalhadores marcharam na Bahia e no Pará, transformando estradas em “um rio vermelho” de bandeiras e cruzes em memória dos mortos.

A publicação recorda que, em 17 de abril de 1996, a Polícia Militar do Pará abriu fogo contra uma manifestação pacífica do MST, matando 21 trabalhadores e ferindo dezenas. O episódio é descrito como “uma atrocidade na história global da luta trabalhista”, comparável a massacres históricos contra movimentos populares.

A reportagem sustenta que o massacre permanece subdimensionado no Brasil e no exterior. “Trinta anos de impunidade, mas também de resistência”, diziam faixas carregadas pelos manifestantes, frase reproduzida pela revista como síntese da permanência do conflito agrário brasileiro.

O texto também denuncia a histórica aliança entre latifúndio, aparato policial e elites locais no Pará. Segundo uma fonte ouvida pela revista, oligarquias rurais “agem como um Estado dentro do Estado”, frase que ajuda a explicar por que a reforma agrária segue cercada por violência e bloqueios institucionais.

Ao analisar o presente, a Jacobin observa que o MST mudou sua forma de atuação, ampliando experiências de agroecologia, combate à fome e organização produtiva. Ainda assim, continua sendo o maior movimento social da América Latina e elo estratégico entre o governo Lula e o campo popular rural.

A conclusão da revista resgata a mística do movimento. Citando o poeta sem-terra Ademar Bogo, afirma: “Se os sonhos são eternos, eterna também é a certeza da vitória”. Em tempos de restauração conservadora global, o Brasil rural volta a lembrar que a terra continua sendo questão política central.

Lula e Sánchez defendem democracia social diante do avanço extremista

Em cobertura da Prensa Latina, Lula utilizou agenda oficial na Espanha para alertar sobre o esvaziamento das democracias liberais nas últimas décadas. Em declaração conjunta com Pedro Sánchez, o presidente brasileiro vinculou a crise institucional ao aumento da desigualdade e ao retrocesso de direitos sociais.

“Aquilo que foi criado para fortalecer o processo democrático está se desfazendo”, afirmou Lula, segundo a agência. O presidente observou que, nos últimos 20 anos, a classe trabalhadora “não fez mais que retroceder” em grande parte do mundo.

A fala sintetiza uma leitura cada vez mais difundida entre setores progressistas: democracias que preservam urnas, mas abandonam empregos, renda e proteção social tornam-se presas fáceis do extremismo. Quando o pão some da mesa, a intolerância bate à porta.

Pedro Sánchez concordou com o diagnóstico e afirmou que fortalecer a democracia exige combater desigualdades. Também defendeu uma nova arquitetura internacional com participação de governos, universidades, cientistas e movimentos sociais.

Na declaração final, Brasil e Espanha reafirmaram defesa dos direitos humanos, do multilateralismo e da reforma da ONU. Em tempos de fake news, guerras e autoritarismos, os dois líderes tentam soprar brasas democráticas num cenário internacional carregado de cinzas.

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Acordo Mercosul-União Europeia

A agência Ansa Latina destacou o reconhecimento público feito por Lula ao primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez pelo papel decisivo nas negociações entre Mercosul e União Europeia.

“Queridos amigos, a união entre Brasil e Espanha foi decisiva para o acordo Mercosul-União Europeia”, declarou o presidente brasileiro. Lula também agradeceu “a dedicação” de Sánchez para que o tratado fosse finalmente concluído.

O acordo, fechado após 26 anos de negociações, representa uma das mais longas novelas comerciais da diplomacia contemporânea. Se entrar plenamente em vigor, poderá reorganizar cadeias produtivas, tarifas e investimentos entre os blocos.

Para o governo brasileiro, o tratado combina abertura comercial com reposicionamento geopolítico. Trata-se de inserir o país em redes globais sem retornar ao papel passivo de mero exportador de commodities.

Críticos, porém, alertam para riscos à indústria nacional, compras públicas e soberania regulatória. Todo tratado comercial traz promessas no palanque e detalhes no rodapé.

Ainda assim, o gesto político entre Lula e Sánchez revela a tentativa de reconstruir alianças internacionais progressistas após anos de isolamento diplomático do Brasil.

Terras raras e soberania industrial

Em outra reportagem, a Ansa Latina destacou a defesa feita por Lula de uma política nacional para minerais críticos e terras raras, insumos centrais da transição energética mundial.

“Se o Brasil não aproveitar esta fase da revolução energética, terminará desperdiçando uma oportunidade”, afirmou o presidente. Lula lembrou ainda que o país “já perdeu o ciclo do ouro”, enriquecendo outros enquanto permanecia pobre.

O recado mira um velho problema nacional: exportar riqueza bruta e importar valor agregado. Sai minério, entra dependência tecnológica. Sai natureza, entra subordinação.

Lula afirmou que acordos internacionais são bem-vindos, mas que a transformação industrial deve ocorrer no Brasil, classificando o tema como “questão de segurança nacional”. Em outras palavras: soberania não se extrai pronta do subsolo.

Morre Oscar Schmidt, gigante do basquete mundial

O jornal argentino La Nación noticiou a morte de Oscar Schmidt, aos 68 anos, classificando-o como “uma lenda do basquetebol mundial”. Conhecido como “Mão Santa”, Oscar marcou 49.703 pontos na carreira e segue como maior pontuador da história olímpica, com 1.093 pontos em cinco edições dos Jogos.

A publicação relembra a atuação histórica nos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis, em 1987, quando liderou o Brasil contra os Estados Unidos e marcou 46 pontos na final. Foi uma vitória esportiva e simbólica contra o centro do poder do basquete.

A família destacou sua “valentia, dignidade e resiliência” no enfrentamento de um câncer cerebral. Oscar deixa legado que ultrapassa quadras, tabelas e estatísticas: o de uma geração que ousou competir de igual para igual.

O Brasil que aparece no exterior nesta sexta (17) é complexo e contraditório: luta por terra, disputa democracia, negocia mercados, protege recursos estratégicos e se despede de seus gigantes.

Boa leitura! Até a próxima!

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