AtlasIntel/Bloomberg: Lula na liderança rumo ao quarto mandato
Levantamento aponta que o mandatário caminha a passos firmes para a conquista histórica de um quarto mandato presidencial à frente do Executivo federal. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
POR JOANNE MOTA
A imprensa internacional coloca o Brasil no centro dos debates geopolíticos e eleitorais nesta sexta (3), desenhando o retrato de um país que oscila entre a solidariedade continental e o entreguismo de sua extrema-direita. Enquanto os números consolidados de institutos estrangeiros apontam para a resiliência e o favoritismo das forças progressistas na corrida presidencial de outubro, o clã que governou o país no quadriênio anterior expõe as suas vísceras em disputas paroquiais por herança política e, de forma ainda mais grave, em movimentos de explícita vassalagem aos interesses do imperialismo norte-americano.
No horizonte da história, contudo, a memória das alianças soberanas da América Latina resiste, servindo de contraponto ao complexo de vira-lata que teima em assombrar as elites domésticas.
Luzes de solidariedade
O Rio de Janeiro e Nápoles uniram-se em um gesto de profunda sensibilidade humana e diplomática que sublinha o papel histórico do Brasil na liderança solidária do continente. Na noite de quinta-feira, o monumento do Cristo Redentor teve sua silhueta iluminada com as cores amarelo, azul e vermelho, em uma manifestação de apoio e captação de recursos para as vítimas dos recentes terremotos na Venezuela. De acordo com o veículo italiano Ansa Brasil, a ação coordenada teve como objetivo principal “divulgar a campanha SOS Venezuela, promovida pela Igreja Católica no Brasil para arrecadar recursos destinados aos afetados pela tragédia”.
Essa diplomacia dos povos, que transcende barreiras ideológicas em nome do imperativo humanitário, encontrou eco imediato no continente europeu. Na Itália, a imponente fachada do Castel Nuovo, marco arquitetônico da cidade de Nápoles, também se vestiu com o pavilhão venezuelano. O gesto institucional partiu diretamente do gabinete do prefeito gaulês, Gaetano Manfredi, que fez questão de formalizar o apoio de sua municipalidade junto às autoridades diplomáticas da nação caribenha.
“Na mensagem, ele destacou os laços históricos entre Nápoles e a Venezuela e expressou confianza na recuperação do país com o apoio da comunidade internacional”, registrou a Ansa Brasil. Esse movimento internacionalista isola as narrativas de bloqueio e asfixia econômica comumente insufladas pelas capitais do Norte global contra a soberania de Caracas, demonstrando que a cooperação e a empatia regional continuam sendo as ferramentas mais eficazes diante de intempéries climáticas ou geológicas.
Para a esquerda latino-americana, o acendimento dessas luzes no topo do Corcovado carrega um simbolismo que vai além do auxílio financeiro emergencial gerenciado pelas pastorais católicas. Trata-se do resgate de uma postura altiva e fraterna da política externa brasileira, que rejeita a instrumentalização da dor alheia para fins de fomento a cercos diplomáticos. Sob o manto da solidariedade, o Brasil se reapresenta ao mundo como o irmão mais velho que estende a mão, nunca a palmatória.
Enquanto setores reacionários domésticos espumam diante de qualquer aproximação com os vizinhos do Sul, a diplomacia das cidades e a sensibilidade popular mostram que o isolamento pretendido pelo fascismo fracassou. O Cristo Redentor, ao refletir as cores da Venezuela, refletiu também o compromisso indissociável do campo progressista com a integração e o amparo mútuo entre as nações do continente. A reconstrução da infraestrutura venezuelana exigirá fôlego, mas o esteio moral oferecido a partir do solo brasileiro sinaliza que os caminhos da superação serão trilhados em conjunto.
Assim, a imagem que correu as agências de notícias internacionais serve como um oportuno lembrete de que o Brasil recuperou a sua bússola moral. Longe do alinhamento automático com os ditames de Washington, o país volta a dialogar com as dores e as esperanças da pátria grande, reafirmando que a verdadeira liderança regional se constrói com generosidade e presença firme nos momentos de crise, e não com submissão à cartilha dos impérios.
Lula 4?
As engrenagens democráticas brasileiras indicam que a população está disposta a blindar as conquistas sociais recentes contra as investidas do neofascismo. Segundo dados da mais recente pesquisa AtlasIntel, desenvolvida em parceria com o consórcio financeiro estadunidense Bloomberg e amplamente divulgada pela agência uruguaia UyPress, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva solidificou seu favoritismo para o pleito presidencial de outubro. O levantamento aponta que o mandatário caminha a passos firmes para a conquista histórica de um quarto mandato presidencial à frente do Executivo federal.
Os índices de aprovação governamental dão sustentação material a esse favoritismo nas urnas, desidratando o discurso catastrófico da oposição conservadora. Como bem sintetiza a publicação da UyPress, “A pesquisa, realizada entre os dias 26 e 30 de junho, mostra que 52,3% dos brasileiros aprovam o governo de Lula, enquanto 45,9% o desaprovam”. A virada de humor do eleitorado reflete os avanços na área econômica e a retomada das políticas de distribuição de renda que caracterizam o DNA petista.
No desenho do cenário eleitoral de primeiro turno, a vantagem do líder progressista sobre as forças do atraso expressa-se com contundência estatística. A pesquisa aponta que Lula detém 46,3% das intenções de voto, estabelecendo uma distância confortável de quase dez pontos percentuais sobre o rebento dinástico da extrema-direita, Flávio Bolsonaro, que patina na marca dos 36,6%. O isolamento do clã bolsonarista acentua-se à medida que o governo federal entrega estabilidade e crescimento perceptíveis no bolso das classes populares.
A robustez da liderança lulista repete-se em todas as simulações testadas pelo instituto, evidenciando uma tendência que parece imune ao ruído midiático tradicional. Mesmo quando confrontado com o fantasma do passado — o ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje inelegível e recolhido ao julgamento da história —, o atual mandatário mantém a dianteira.
O dado mais alarmante para os quartéis-generais da reação, no entanto, reside nas projeções para o inevitável segundo turno, onde as ilusões de “empate técnico” foram definitivamente desfeitas. A pesquisa enterrou o fantasma das projeções de abril, registrando agora uma liderança consolidada de Lula com 48,8% dos votos contra 42,3% de Flávio Bolsonaro. Essa margem de mais de seis pontos escancara a rejeição da maioria da sociedade ao projeto de desmonte do Estado e perseguição política.
A pesquisa aponta que o sucesso estatístico de Lula nas sondagens internacionais coroa a resiliência do projeto nacional-desenvolvimentista face ao bombardeio especulativo do mercado financeiro. A população brasileira, demonstra as planilhas da AtlasIntel, compreende a diferença entre um governo que constrói soberania e uma oposição que sobrevive do caos.
O vírus do entreguismo: Flávio Bolsonaro implora por sanções de Trump
Enquanto governos costumam negociar para evitar sanções econômicas contra seus próprios países, Flávio Bolsonaro fez o contrário. Segundo revelou o jornal argentino La Política Online, o senador enviou um documento ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) pedindo que Donald Trump adiasse a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros para depois das eleições de outubro. O motivo? Evitar que a medida fortalecesse eleitoralmente o presidente Lula.
No documento, Flávio argumenta que “as tarifas propostas recompensariam o atual governo brasileiro justamente pela estratégia que adotou: dificultar negociações sérias, provocar represálias de Washington e depois transformar essas represálias em uma vitória política interna”. Em outras palavras, a preocupação não era impedir o tarifaço, mas apenas escolher um momento em que seus efeitos não beneficiassem o adversário político.
Lula reagiu classificando a iniciativa como um ato de entreguismo. “É inaceitável que a família Bolsonaro queira submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos”, afirmou. O presidente também rebateu a proposta: “Nunca houve, nem há, qualquer justificativa para um tarifaço. O mais absurdo é saber que a origem de tudo isso foi motivada pela própria família Bolsonaro”. A repercussão internacional transformou o episódio em uma situação pouco comum: um candidato brasileiro não pedindo o fim das sanções contra seu país, mas apenas que elas esperassem o calendário eleitoral.
A autofagia bolsonarista…
e a disputa com Lula já não parecia simples, a direita brasileira agora enfrenta um adversário ainda mais imprevisível: ela mesma. Reportagem do jornal colombiano El Tiempo mostra que a batalha pela herança política de Jair Bolsonaro se transformou em uma crise familiar pública, colocando frente a frente a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro. A poucos meses das eleições, a unidade do bolsonarismo dá lugar a uma disputa por protagonismo e controle do espólio político do ex-presidente.
A crise saiu dos bastidores quando Michelle publicou dois vídeos de quase 30 minutos acusando Flávio de tê-la “humilhado” e de liderar um “ataque coordenado” contra ela nas redes sociais. O conflito ganhou força depois que Flávio foi anunciado como herdeiro político de Jair Bolsonaro, frustrando setores da direita que defendiam a candidatura da ex-primeira-dama. Tentando conter o desgaste, o senador declarou: “Respeito muito Michelle, tenho convicção de que vamos superar este momento difícil e que ela caminhará conosco.”
O pano de fundo da disputa é a ausência do principal árbitro da família. Em prisão domiciliar após ser condenado por tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro acompanha a guerra pelo seu espólio político sem conseguir conter o racha. E mais, o discurso de unidade da direita cede espaço a uma disputa que expõe fissuras cada vez mais difíceis de esconder.
O centenário do Comandante Fidel!
Enquanto parte da direita brasileira busca prestígio em Washington, a memória política resgatada pela agência cubana Prensa Latina lembra um período em que a integração latino-americana ocupava o centro do debate regional. Às vésperas do centenário de nascimento de Fidel Castro, a publicação revisitou a intensa relação construída entre o líder da Revolução Cubana e o Brasil ao longo de mais de cinco décadas, marcada por encontros políticos, intercâmbio intelectual e apoio aos movimentos populares do continente.
Em entrevista à agência, o ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, José Genoino, afirmou que Fidel se tornou “uma grande referência” para sucessivas gerações da esquerda latino-americana, especialmente da brasileira. Essa relação começou em abril de 1959, poucos meses após a vitória da Revolução Cubana, quando Fidel visitou o Brasil a convite do então presidente Juscelino Kubitschek, defendendo a integração regional e reconhecendo o papel estratégico do país para o desenvolvimento da América Latina.
A passagem pelo Brasil incluiu encontros com lideranças políticas e intelectuais, entre elas o arquiteto Oscar Niemeyer, com quem Fidel estabeleceu uma amizade que atravessaria décadas. A Prensa Latina também recorda a recepção entusiasmada da União Nacional dos Estudantes (UNE), que o recebeu com uma enorme faixa estampando a frase “We Like Fidel” (“Nós gostamos de Fidel”), símbolo da simpatia que a Revolução Cubana despertava entre amplos setores da juventude brasileira.
As visitas foram interrompidas pelo golpe militar de 1964 e só seriam retomadas com a redemocratização. Em 1990, Fidel voltou ao Brasil e se reuniu com cerca de uma centena de lideranças políticas, sindicais e de movimentos sociais, entre elas representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Para Genoino, “a influência de Fidel na esquerda latino-americana e, particularmente, na esquerda brasileira foi muito forte”, lembrando ainda que Cuba acolheu dezenas de brasileiros perseguidos pela ditadura militar, um capítulo da história que segue presente na memória política da esquerda brasileira.
Viva Fidel!
Até a próxima!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
