“Brasil não quer guerra com ninguém”, afirma Lula

Com Lula, o Brasil segue ampliando parcerias e enfrentando, com serenidade, as turbulências que vêm de fora — e de dentro. (Foto de Lula na Índia: Ricardo Stuckert/PR)
POR JOANNE MOTA
Nesta sexta-feira (20), o Brasil segue no noticiário internacional. Entre tensões com os Estados Unidos, acordos estratégicos com a Índia, alertas sanitários continentais e disputas políticas internas que atravessam o Carnaval e a extrema direita, o país aparece como protagonista de um mundo em transição.
Em meio a ventos protecionistas e rearranjos geopolíticos, o Palácio do Planalto envia uma mensagem clara: não renunciaremos à nossa soberania. Com isso, Lula segue de sorriso em sorriso ampliando parcerias com o chamado Sul Global e enfrentando, com serenidade, as turbulências que vêm de fora — e de dentro. Confira!
Lula e Trump: comércio, soberania e diplomacia
Em entrevista exclusiva ao India Today, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou disposição para negociar com Donald Trump as tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. O tom foi direto, mas não beligerante: “Dois homens de 80 anos não precisam brigar. Temos que dar exemplo em todos os níveis”, afirmou.
Segundo a publicação, Lula reforçou que não deseja uma guerra comercial. “Estou claro de que não quero guerra”, declarou, acrescentando que acredita na teoria de Mahatma Gandhi. A declaração combina firmeza e simbolismo: soberania não se confunde com submissão, mas tampouco com bravata.
As tarifas foram justificadas por Trump sob o argumento de que o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe teria motivação política. Desde então, as relações entre os dois líderes oscilaram entre a tensão e a retórica ríspida. Lula já havia afirmado anteriormente que “não tinha relação” com o mandatário norte-americano.
Na entrevista, contudo, o presidente brasileiro indicou que pretende levar “tudo por escrito” às negociações, incluindo temas como comércio, tráfico de drogas e minerais críticos. Ao mesmo tempo, fez questão de frisar que “a soberania e a democracia do Brasil não são negociáveis”.
Lula também criticou qualquer forma de ingerência estrangeira na América Latina, especialmente após a ação militar dos EUA na Venezuela. Segundo o India Today, ele rechaçou a ideia de que “uma nação capture o presidente de outra”, defendendo uma relação “civilizada”, baseada no respeito mútuo.
Ao mesmo tempo, o presidente brasileiro aproveitou a agenda na Índia para reforçar que inteligência artificial e inovação tecnológica são centrais para o crescimento global. Em um cenário de rearranjo geopolítico, o Brasil busca afirmar-se não como coadjuvante, mas como ator estratégico do Sul Global.
No plano geopolítico, Lula reiterou a importância do BRICS como expressão do Sul Global e defensor do multilateralismo, criticando guerras comerciais e defendendo relações equilibradas com Estados Unidos, China, Índia e Rússia. Reforçou a parceria estratégica Brasil–Índia, com ampliação do comércio e cooperação tecnológica, e voltou a condenar ingerências externas, como no caso da Venezuela. Também defendeu a reforma e o fortalecimento da ONU, a proteção da Amazônia com desmatamento zero até 2030 e afirmou seguir “a teoria de Mahatma Gandhi”, baseada no diálogo, na soberania e na paz.
Brasil e Índia: minerais críticos para o Sul Global
De acordo com a France 24, Lula tenta fechar com o primeiro-ministro Narendra Modi um acordo sobre minerais críticos e terras raras — insumos estratégicos para veículos elétricos, painéis solares, celulares e até mísseis guiados.
O Brasil detém as segundas maiores reservas mundiais desses materiais, enquanto a China domina o processamento. A Índia, por sua vez, busca reduzir sua dependência chinesa e diversificar fornecedores. Segundo a diplomata brasileira Susan Kleebank, Lula e Modi discutirão “os desafios que atravessa o multilateralismo e o comércio internacional”.
Rishabh Jain, especialista do Council on Energy, Environment and Water (CEE), afirmou à AFP que “as alianças com os países do Sul são essenciais para garantir um acesso diversificado e concreto aos recursos e moldar as novas regras do comércio mundial”. A frase sintetiza o espírito do momento: o Sul Global não quer apenas vender commodities, mas participar da definição das regras.
O comércio bilateral deve superar 15 bilhões de dólares em 2025, com meta de 20 bilhões até 2030. Índia é hoje o décimo mercado para exportações brasileiras e o principal parceiro indiano na América Latina.
A visita inclui uma robusta comitiva de ministros e empresários, sinalizando que a diplomacia brasileira atua articulada ao setor produtivo. A estratégia é clara: transformar reservas minerais em poder geopolítico, sem repetir o modelo extrativista subordinado.
Em tempos de protecionismo e disputas tarifárias lideradas por Washington, o eixo Brasília–Nova Délhi emerge como alternativa pragmática, apostando na cooperação Sul-Sul como resposta às incertezas do Norte.
Defesa nacional após ação dos EUA na Venezuela
Segundo a agência ANSA Brasil, Lula convocou os comandantes das Forças Armadas após a ação militar dos EUA na Venezuela para avaliar a capacidade de defesa do Brasil.
O encontro ocorreu em 15 de janeiro e contou com a presença do ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, do assessor especial Celso Amorim e dos chefes militares. Os comandantes indicaram que o país não dispõe de equipamentos suficientes para exercer plena capacidade de dissuasão diante de uma operação similar.
Embora não considere haver risco imediato, Lula solicitou análise de “diferentes hipóteses”, inclusive cenários futuros. O presidente questionou tanto riscos de curto prazo quanto mudanças no equilíbrio regional após a primeira ação militar dos EUA contra um país sul-americano desde 1989.
A preocupação não indica paranoia, mas prudência estratégica. Em um continente historicamente marcado por intervenções externas, a soberania exige vigilância permanente.
O debate reacende a necessidade de fortalecer a indústria nacional de defesa e a integração regional. Diplomacia e capacidade dissuasória caminham juntas.
No tabuleiro sul-americano, o Brasil busca manter a tradição de resolução pacífica de conflitos, sem ignorar que autonomia também se constrói com preparo.
Clã Bolsonaro em guerra
O portal La Política Online relata que Michelle Bolsonaro decidiu não fazer campanha para Flávio Bolsonaro, aprofundando fissuras no bolsonarismo.
Segundo a reportagem, Michelle adotará “perfil baixo”, após sentir-se “insultada” por mensagens que sugeriam que ela trabalhava contra a candidatura do enteado. Um dirigente do Partido Liberal afirmou que “ela tem um capital que Flávio perderá”.
A ex-primeira-dama teria sido vista como alternativa “mais moderada” por setores do establishment, mas o clã optou por manter a linhagem masculina. A ironia é evidente: o grupo que brada valores familiares enfrenta conflitos domésticos expostos.
Nos estados, as divisões se multiplicam, com disputas por candidaturas ao Senado e divergências estratégicas. A extrema direita, que se vende como bloco monolítico, revela fraturas internas profundas.
Dengue no Brasil e o alerta para a AL
Segundo a Prensa Latina, o Brasil segue entre os países com maior número absoluto de casos de dengue nas Américas, ainda que os dados de 2025 indiquem redução expressiva em relação ao recorde histórico de 2024. No conjunto regional, foram notificados 4,4 milhões de casos suspeitos no ano passado, com queda de 66% em comparação ao período anterior — mas o volume brasileiro permanece significativo devido à dimensão populacional e à extensão territorial do país.
A Organização Pan-Americana da Saúde (OPS) destacou que, apesar da redução, a circulação simultânea dos quatro sorotipos do vírus mantém o risco de novos surtos e de formas graves da doença. Até o fim de janeiro de 2026, a região registrou 122 mil casos, com seis mortes. A taxa de letalidade regional foi de 0,05%, indicador que reforça a importância do diagnóstico precoce e do manejo clínico adequado — pontos críticos também para o sistema público brasileiro.
No Brasil, onde a dengue é endêmica e sofre influência direta de fatores climáticos e urbanos, o desafio permanece estrutural: combate ao mosquito, saneamento básico, vigilância epidemiológica integrada e fortalecimento da atenção primária. A OPS recomenda “reforçar a vigilância integrada (epidemiológica, clínica, laboratorial e entomológica)” e ampliar o reconhecimento de sinais de alerta como “dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramento de mucosas e letargia”.
A experiência recente mostra que políticas públicas consistentes, coordenação federativa e investimento em saúde coletiva são determinantes para conter picos epidêmicos. Em um país continental como o Brasil, enfrentar a dengue não é apenas uma questão sanitária, mas também social e ambiental — e exige compromisso permanente do Estado com a vida.
Ainda sobre o carnaval e a polêmica eleitoral
O jornal argentino La Nación relata que o Partido Liberal pediu investigação sobre desfile da escola Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula.
A legenda classificou o evento como “desfile-mitin” e denunciou “exaltação do governo, ataque a adversários”. O Tribunal Superior Eleitoral já havia rejeitado tentativas de cancelamento prévio.
No desfile, Bolsonaro foi retratado como palhaço preso, e um segmento intitulado “neoconservadores em conserva” gerou indignação na direita.
O episódio revela como cultura e política se entrelaçam no Brasil — e como a liberdade artística incomoda quem prefere controlar narrativas.
Para não dizer que não falei de Trump…
A Deutsche Welle informou que a Suprema Corte dos EUA decidiu, por seis votos a três, que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional “não autoriza o presidente a impor tarifas”.
Mesmo após a derrota, Trump anunciou tarifa global adicional de 10%. A Constituição americana atribui ao Congresso o poder de instituir tributos, limitando o alcance do Executivo.
A decisão pode impactar diretamente as sobretaxas contra o Brasil e representa um freio institucional ao voluntarismo tarifário.
No xadrez global, o protecionismo enfrenta limites jurídicos — e o Brasil observa atento, negociando com firmeza e diplomacia.
O cenário desta sexta (20) confirma: o Brasil não é espectador, mas protagonista em um mundo em rearranjo. Entre negociações comerciais, alianças estratégicas, defesa soberana e disputas políticas internas, o país se move com prudência e ambição.
Leia as matérias completas nos veículos citados, aprofunde-se nos detalhes e acompanhe os desdobramentos dessa conjuntura decisiva.
Boa leitura! Até a próxima!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
