Brasil reage às tarifas de Trump e prepara medidas para proteger os setores afetados

Brasil reage às tarifas de Trump e prepara medidas para proteger os setores afetados

Veículos estrangeiros repercutem resposta brasileira às tarifas dos EUA, defesa do Pix, fortalecimento da parceria com a China, agenda social do governo e novo desgaste judicial envolvendo Flávio Bolsonaro. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

POR JOANNE MOTA

A política brasileira segue em destaque na imprensa internacional nesta sexta (17). Do confronto comercial com os Estados Unidos às iniciativas de aproximação com a China, passando pela defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e pelos desdobramentos judiciais envolvendo a família Bolsonaro, diferentes veículos retrataram um Brasil que busca afirmar sua soberania em meio ao recrudescimento das disputas geopolíticas promovidas pelo governo Donald Trump.

O principal eixo da cobertura internacional foi a reação do governo Lula à decisão de Washington de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. A medida, justificada pela Casa Branca com base em alegadas práticas comerciais “desleais”, foi respondida pelo Palácio do Planalto com a ativação da Lei da Reciprocidade Econômica e com o anúncio de que recorrerá à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Reação do Brasil a Trump

O portal indiano NewsClick destacou que o governo brasileiro classificou a decisão norte-americana como um “marco lamentável” nas relações bilaterais e anunciou uma estratégia que combina contestação jurídica internacional, proteção dos setores produtivos e busca de novos mercados.

Segundo o veículo, Brasília rebateu um a um os argumentos apresentados pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que questiona políticas brasileiras relacionadas ao Pix, à regulação das plataformas digitais, à política ambiental e ao combate à corrupção.

Na avaliação do governo brasileiro, reproduzida pelo NewsClick, a ofensiva norte-americana ignora os próprios números do comércio bilateral. O Brasil lembra que os Estados Unidos acumularam superávit superior a US$ 424 bilhões nas trocas comerciais com o país nos últimos quinze anos e que grande parte das exportações norte-americanas entra no mercado brasileiro com baixíssima tributação.

O comunicado divulgado pelo Planalto também faz uma crítica direta à atuação da família Bolsonaro durante a investigação comercial conduzida por Washington. O texto afirma que integrantes do clã atuaram junto ao governo Trump para incentivar medidas contra o próprio Brasil, classificando-os como “falsos patriotas” por colocarem interesses eleitorais acima da soberania nacional.

Lula: “Nossa soberania não está à venda”

A cobertura da RT enfatizou o tom político da resposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para o veículo, a principal mensagem enviada por Brasília foi que nenhum governo estrangeiro determinará os rumos das políticas públicas brasileiras.

Ao comentar as críticas ao Pix — sistema público de pagamentos que se tornou referência internacional em infraestrutura financeira digital — Lula foi categórico: “Nossa soberania não se negocia. Ninguém mudará o nosso Pix.”

A reportagem observa que Washington tenta enquadrar o sistema brasileiro como um obstáculo à competitividade de grandes operadoras privadas de cartões de crédito, argumento rejeitado pelo governo brasileiro. O embate evidencia um conflito que ultrapassa tarifas comerciais e alcança o controle sobre tecnologias estratégicas e infraestruturas digitais nacionais.

China ganha espaço na estratégia econômica brasileira

Enquanto cresce a tensão com Washington, a imprensa econômica acompanha o aprofundamento das relações entre Brasil e China. A Bloomberg publicou reportagem sobre a aposta do governo Lula na emissão dos chamados panda bonds, títulos emitidos por governos ou empresas estrangeiras diretamente no mercado financeiro chinês.

Veja Também:  Não é Milei, é o imperialismo!

Segundo a reportagem, a iniciativa representa um teste importante para medir o interesse de empresas brasileiras em captar recursos na segunda maior economia do planeta. Caso avance, a estratégia poderá ampliar as alternativas de financiamento externo do país e reduzir a dependência dos tradicionais centros financeiros ocidentais.

A movimentação reforça uma tendência observada desde o início do terceiro mandato de Lula: a diversificação das parcerias econômicas internacionais e o fortalecimento dos mecanismos de cooperação Sul-Sul.

Saúde pública também ganha visibilidade internacional

Outro tema presente na cobertura internacional foi a agenda presidencial dedicada ao Sistema Único de Saúde. A agência cubana Prensa Latina destacou a visita de Lula à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ao Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), no Rio de Janeiro.

O foco da reportagem está na expansão do programa Agora Tem Especialistas, iniciativa do Ministério da Saúde destinada a reduzir filas por consultas, exames e cirurgias especializadas no SUS. A cobertura também destaca a Carreta da Saúde da Mulher, unidade móvel que oferece gratuitamente mamografias, ultrassonografias, consultas ginecológicas e exames preventivos para pacientes da rede pública.

Em um cenário internacional marcado pelo avanço de políticas de austeridade em diversos países, a valorização do sistema público brasileiro aparece como contraponto importante na cobertura latino-americana.

Flávio Bolsonaro volta ao centro das investigações

A Prensa Latina também noticiou novo capítulo das investigações envolvendo o senador Flávio Bolsonaro. Segundo o veículo, o Supremo Tribunal Federal marcou o depoimento do parlamentar na investigação que apura suposta prática de calúnia contra o presidente Lula.

O processo teve origem após uma publicação feita por Flávio Bolsonaro na rede X, em janeiro deste ano, na qual associava Lula a organizações criminosas internacionais sem apresentar provas. Conforme lembra a reportagem, a Polícia Federal apontou a existência de indícios concretos da prática do delito, enquanto a Procuradoria-Geral da República considerou essencial ouvir o senador antes de decidir sobre eventual denúncia formal.

Um Brasil no centro da disputa global

O conjunto das reportagens revela uma mudança importante na forma como o Brasil vem sendo observado pela imprensa internacional. Mais do que acompanhar acontecimentos domésticos, os veículos enxergam o país como um ator relevante em disputas globais que envolvem comércio internacional, soberania tecnológica, financiamento do desenvolvimento, integração com a China e fortalecimento das políticas públicas.

Se durante anos o Brasil ocupou espaço no noticiário internacional principalmente por crises políticas e instabilidades institucionais, a cobertura recente mostra um país inserido nas grandes disputas geopolíticas do século XXI. A reação às tarifas norte-americanas, a defesa do Pix como infraestrutura pública estratégica, a busca por novos instrumentos financeiros junto à China e a valorização do SUS ilustram uma agenda que ultrapassa a política interna e dialoga diretamente com os novos contornos da ordem internacional.

Até a próxima!

Tagged: , , , , ,