Ceará aponta futuro, MG enfrenta tragédia e extrema direita tensiona democracia

Um país que avança em políticas públicas, enfrenta a emergência climática e resiste às investidas autoritárias — o Brasil que está em jogo diante do mundo. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
POR JOANNE MOTA
Entre o chamado “milagre educacional” do Ceará, a tragédia climática em Minas Gerais, a ofensiva da extrema direita norte-americana e os investimentos bilionários da indústria chinesa, o Brasil aparece, nesta sexta (27), como palco de disputas decisivas do nosso tempo.
Educação, clima, soberania, democracia e desenvolvimento: os temas que atravessam o noticiário global também atravessam o projeto de nação em disputa por aqui.
A seguir, o que a imprensa internacional publicou — e o que está em jogo por trás das linhas.
Vitrine para o Sul Global
O jornal La Nación destacou que “o Brasil aumentou drasticamente a alfabetização em um estado pobre e agora busca exportar sua receita”. O texto recupera a trajetória de Sobral, no Ceará, que “em apenas 10 anos passou da posição 1336 para a 1ª colocação no IDEB”, o principal indicador da educação básica.
Conhecido como “milagre educacional”, o modelo cearense ampliou a taxa de crianças alfabetizadas na idade adequada de 15% para 85%. Um salto histórico em um estado que representa 4% da população, mas apenas 2% do PIB nacional. A experiência virou política pública estadual e agora pauta a agenda nacional.
Segundo a reportagem, o plano se estrutura em três eixos: formação docente, fortalecimento da gestão escolar e avaliação permanente. Com incentivos financeiros atrelados a resultados e cooperação entre escolas, o Ceará criou uma dinâmica que combina responsabilidade pública e solidariedade institucional.
Hoje à frente do Ministério da Educação, Camilo Santana e Izolda Cela — ambos ex-governadores do Ceará — institucionalizaram o indicador “Criança Alfabetizada”, transformado em lei. Em 2024, o índice nacional atingiu 59,2%, ante 56% em 2023. Ainda distante do ideal, mas em curva ascendente.
No Encontro Internacional “Alfabetização, Equidade e Futuro”, realizado em Brasília, o secretário-executivo Leandro Barchini afirmou: “Estamos tentando criar uma rede onde a alfabetização esteja em um lugar central. O direito à alfabetização é um pilar estruturante de cada criança”. E completou: “A alfabetização poderosa é a forma de superar as diferenças”.
O debate também incluiu visões pedagógicas. A linguista Paola Ucceli alertou: “A decodificação e a fluidez são a ponta do iceberg. Debaixo há muito conhecimento ao qual devemos prestar atenção”. Já Beatriz Diuk, da proposta Dale!, enfatizou: “As propostas devem respeitar a autonomia docente”. Em meio à ausência do governo argentino no encontro, o Brasil tenta liderar uma articulação latino-americana em torno da alfabetização como motor de mobilidade social.
Dor: sobe para 64 o número de pessoas mortas em MG
O The Independent noticiou que as chuvas intensas em Minas Gerais já somam 64 mortes. Deslizamentos e enchentes atingiram cidades como Juiz de Fora e Ubá, obrigando mais de 5.500 pessoas a deixarem suas casas.
O Corpo de Bombeiros informou que cinco pessoas seguem desaparecidas. O Instituto Nacional de Meteorologia alertou para “grande perigo” de novas tempestades também no Rio de Janeiro e em São Paulo, com risco de transbordamentos e deslizamentos.
Segundo o Cemaden, quase um quarto da população de Juiz de Fora vive em áreas classificadas como de risco. Um dado que revela a face estrutural da tragédia: a desigualdade territorial que empurra os mais pobres para encostas e margens de rios.
O presidente Lula visitará a região afetada, e o governo federal autorizou a liberação de R$ 3,4 milhões para ações emergenciais e reconstrução. Medidas necessárias, mas que dialogam com um desafio maior: adaptar cidades a um clima cada vez mais extremo.
Cientistas ouvidos pela reportagem reforçam que eventos extremos estão mais frequentes devido às mudanças climáticas causadas pela ação humana. Em 2024, no Rio Grande do Sul, enchentes deixaram 185 mortos e prejuízos superiores a R$ 10 bilhões.
Extrema direita no Brasil…
A agência Reuters revelou que a administração Trump nomeou Darren Beattie, crítico ferrenho do governo brasileiro, como assessor sênior para a política dos EUA em relação ao Brasil.
Beattie já havia provocado incidente diplomático ao chamar o ministro Alexandre de Moraes de “principal arquiteto do complexo de censura e perseguição” contra Jair Bolsonaro. O Itamaraty chegou a convocar o diplomata norte-americano para explicações.
A Reuters lembra que Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe contra o resultado eleitoral de 2022. Ainda assim, o novo assessor norte-americano mantém alinhamento público com o bolsonarismo.
O movimento sinaliza que, apesar de aproximações recentes entre Washington e Brasília, a relação permanece “delicada”. A política externa dos EUA, ao que tudo indica, não abandona a tentação de interferir nas dinâmicas internas da maior democracia do hemisfério sul.
No mesmo contexto, a Prensa Latina revelou que aliados do senador Flávio Bolsonaro financiaram publicações contra Lula após desfile de Carnaval em sua homenagem.
Segundo o portal cubano, ao menos 55 apoiadores impulsionaram conteúdos críticos. O PT acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), argumentando uso de “conteúdos falsos com o objetivo de influenciar o cenário eleitoral”.
A batalha política migra para as redes — e para os tribunais.
GWM amplia investimentos no Brasil
O site La Política Online informou que a montadora chinesa GWM investirá US$ 2 bilhões na construção de uma nova fábrica no Espírito Santo, com capacidade de 200 mil veículos por ano e geração de até 10 mil empregos diretos e indiretos.
A planta será quatro vezes maior que a unidade de Iracemápolis (SP). O projeto integra a estratégia brasileira de reindustrialização, ancorada nos programas Nova Indústria Brasil e MOVER, voltados à inovação e sustentabilidade.
A empresa pretende atingir 35% de conteúdo local até 2026 e 60% em três anos. A escolha do Espírito Santo se deve à infraestrutura portuária estratégica.
Em tempos de disputa geopolítica, o Brasil se consolida como polo industrial relevante na transição para mobilidade sustentável — reforçando laços com a China e ampliando sua autonomia econômica.
Brasil de olho nos combustíveis fósseis
A France 24 noticiou que o Brasil solicitou que países apresentem “roteiros nacionais” para abandonar combustíveis fósseis e zerar o desmatamento.
A iniciativa ocorre após a COP30, em Belém, que não mencionou explicitamente os fósseis devido à oposição de Arábia Saudita e Rússia. Como alternativa, o presidente da conferência, André Corrêa do Lago, propôs uma agenda voluntária.
Na carta, Corrêa do Lago afirma estar “firmemente convencido de que estas folhas de rota podem ajudar a identificar opções práticas para aplicar os objetivos que já acordamos”.
Mais de 190 países se comprometeram na COP28 com a transição energética, mas os avanços têm sido lentos. O Brasil tenta recolocar o tema no centro do debate global.
O Brasil está nas manchetes — por seus avanços, suas dores e suas disputas. Em tempos de narrativas apressadas, vale ir às fontes e compreender as camadas de cada tema.
Boa leitura! Até a próxima!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
