Massacre no RJ: Comissão de DH pede prisão de Castro; Macaé Evaristo promete perícia independente

Massacre no RJ: Comissão de DH pede prisão de Castro; Macaé Evaristo promete perícia independente

“FOI UM GENOCÍDIO”

A Comissão de Direitos Humanos da Câmara pediu nesta quinta-feira (30) à Procuradoria-Geral da República a prisão preventiva do governador Cláudio Castro e a abertura de investigação criminal por suspeita de crimes na operação que matou 121 pessoas nos complexos do Alemão e da Penha. O deputado Reimont (PT-RJ), presidente do colegiado, relatou que ouviu depoimentos de familiares sobre execuções brutais, incluindo dois irmãos que foram mortos abraçados com tiros na nuca e um jovem que foi decapitado. O pedido foi assinado por nove parlamentares do PT, PSOL e PCdoB.

A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, classificou a operação como um fracasso e uma tragédia, prometendo que haverá perícia independente com apoio da Polícia Federal — em contraste direto com Castro, que na véspera chamou a ação de sucesso e afirmou que as únicas vítimas foram os quatro policiais mortos. A ministra defendeu que o combate ao crime organizado deve começar pelo topo da organização criminosa, e não expondo comunidades inteiras ao terror. Macaé também destacou que a operação vitimou desproporcionalmente pessoas negras nas favelas.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, determinou na quarta-feira (29) a instalação da CPI do Crime Organizado para terça-feira (4), após quatro meses de espera desde sua criação em junho. A decisão ocorreu um dia após a operação policial mais letal da história do Brasil.

A ação realizada na terça-feira (28) nos complexos do Alemão e da Penha deixou 121 mortos segundo a Polícia Civil — número que foi contestado pela Defensoria Pública, que contabilizou 132 vítimas. A operação ocorreu poucos dias antes de o Rio sediar eventos ligados à COP30, como a cúpula global de prefeitos C40 e o Prêmio Earthshot, que contará com a presença do príncipe William.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, também determinou que Castro preste 18 esclarecimentos sobre a operação e marcou uma audiência para segunda-feira (3). O Ministério Público do Rio instaurou investigação independente e solicitou acesso às câmeras corporais dos policiais.

Ainda na quarta-feira, em coletiva de imprensa, o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, anunciou que vai investigar os moradores que retiraram dezenas de corpos de uma área de mata na madrugada e os levaram até a Praça São Lucas por suposta “fraude processual”. Segundo ele, os moradores teriam retirado roupas camufladas e armas dos corpos. “É um milagre que se operou. Parece que eles entraram num portal e trocaram de roupa”, ironizou.

Curi também afirmou que a polícia “fez o que nem FBI, CIA ou até a Nasa fariam” e classificou todos os mortos — com exceção dos quatro policiais — como “narcoterroristas”. A declaração gerou indignação massiva. O governo federal e o estadual anunciaram hoje a criação de um grupo de trabalho conjunto para coordenar ações contra o crime organizado no Rio.

Em protesto realizado na quarta-feira em frente ao Palácio Guanabara, moradores dos complexos exibiram cartazes onde se lia “Castro assassino” e “favela não é alvo de guerra”. “O que aconteceu foi um genocídio”, afirmou Rute Sales, moradora e ativista. Familiares denunciaram execuções, com corpos que apresentavam tiros na cabeça e mutilações.

A ONU declarou-se “horrorizada” com o massacre e o secretário-geral António Guterres cobrou investigação imediata. O alto comissário Volker Türk pediu reforma do policiamento no Brasil e o fim do ciclo de brutalidade extrema contra pessoas negras.

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O presidente Lula ficou “estarrecido” com o número de mortos, segundo revelou o ministro Ricardo Lewandowski, que classificou a operação como “extremamente cruenta e violenta” e questionou sua compatibilidade com o Estado Democrático de Direito.

Veículos internacionais como Guardian, Financial Times, Le Monde, El País, Reuters e Associated Press classificaram o episódio como “massacre”, “chacina” e “cena de guerra”. A Associated Press descreveu a cena na Praça São Lucas como “dezenas de corpos enfileirados no chão, cobertos por lençóis ensanguentados, enquanto familiares choravam ao reconhecer seus parentes”. O jornal francês L’Humanité afirmou que “a política de Castro trata as favelas como territórios inimigos, onde impera a licença para matar”. Analistas observam que operações de alta letalidade tendem a ocorrer antes de grandes eventos internacionais no Rio — como as Olimpíadas de 2016, o G20 de 2024 e a cúpula do Brics em julho.

A operação mobilizou 2.500 agentes das forças de segurança contra o Comando Vermelho, que reagiu bloqueando vias com ônibus sequestrados e atacando com drones. Ao todo, foram presas 113 pessoas e apreendidos 93 fuzis.

E MAIS…

🔹 A Polícia Federal deflagrou hoje a segunda fase da Operação Papyrus em São Paulo e Minas Gerais, cumprindo 14 mandados de busca contra organização criminosa especializada em tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro.

🔹 A investigação resultou na apreensão de 2,1 toneladas de cocaína escondida em contêineres de papel destinados à Europa — 533 quilos foram interceptados no Porto de Londres. Diferentemente da operação nas favelas do Rio, ninguém foi morto na ação.

🔹 O Ministério Público e a Polícia Militar de São Paulo lançaram hoje operação contra lavagem de dinheiro do PCC em Campinas, cumprindo 9 mandados de prisão e 11 de busca e apreensão contra empresários e traficantes ligados à facção.

🔹 Foram bloqueados imóveis de alto padrão e contas bancárias usados para lavar recursos do tráfico de cocaína e de outros crimes praticados pela organização criminosa. A operação também não registrou mortes.

🔹 Lula sancionou hoje lei que endurece o combate ao crime organizado, tipificando novos crimes de obstrução e conspiração contra investigações de organizações criminosas, com pena de 4 a 12 anos de reclusão.

🔹 A legislação pune com 1 a 3 anos quem contratar ou solicitar crimes a integrantes de associações criminosas, mesmo que o delito não seja concretizado, somando-se à pena do crime eventual.

🔹 A lei amplia a proteção pessoal a policiais, juízes, membros do Ministério Público e seus familiares — incluindo aposentados — quando estiverem sob risco em razão do exercício de suas funções no combate ao crime organizado.

Com informações de Reuters, Associated Press, France 24, Le Monde, The Guardian, Financial Times, Corriere della Sera, El País, La Nación, Página/12, Democracy Now!, Nodal e Agência Brasil.

(+) Imagem em destaque: Rio de Janeiro (RJ), 29 de outubro de 2025 — Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, após ação policial da Operação Contenção. Foto: Eusebio Gomes/TV Brasil

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