Contra o muro tarifário, Brasil articula novas pontes globais

ELEIÇÕES NO PT
O Partido dos Trabalhadores (PT) elegerá uma nova direção em 6 de junho, encerrando os oito anos de mandato de Gleisi Hoffmann na presidência. Entre os nomes cotados para sucedê-la estão Edinho Silva, ex-prefeito de Araraquara e ex-chefe de campanha de Lula; o atual vice-presidente do partido, Washington Quaquá; o deputado federal Rui Falcão; e Valter Pomar, historiador e dirigente do diretório nacional.
Pomar representa uma corrente interna que defende maior autonomia do PT em relação ao governo federal e um reposicionamento mais nítido à esquerda. Ele propõe que o partido atue como força de mobilização social com capacidade de crítica e proposição, buscando pressionar por mudanças estruturais e ampliando a organização da base trabalhadora. Segundo ele, o risco de subordinação do partido à lógica da governabilidade pode comprometer sua identidade e seu papel estratégico. A disputa interna ocorre em um momento de debates sobre a política econômica, alianças no Congresso e o papel do partido diante da conjuntura global e regional (La Política Online).
ABIN PARALELA
Luiz Fernando Corrêa, diretor-geral da ABIN, e o ex-subdiretor Alessandro Moretti prestaram depoimento à Polícia Federal nesta quinta-feira sobre o esquema de espionagem ilegal conhecido como “ABIN Paralela”, que teria monitorado opositores políticos durante o governo Bolsonaro. As investigações também apuram denúncias de que operações irregulares de invasão a sistemas paraguaios, com foco em informações sobre negociações tarifárias de Itaipu, teriam continuado no governo Lula — o que é negado pelo governo brasileiro, que afirma ter encerrado tais ações em março de 2023 e reafirma seu compromisso com o respeito diplomático nas relações com parceiros regionais (Prensa Latina).
TAXAR MILIONÁRIOS
O Brasil anunciou que liderará a articulação de uma coalizão internacional em defesa de um imposto global sobre bilionários, afirmou o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello, durante conferência em Paris nos dias 8 e 9 de abril. A proposta, baseada em estudo do economista Gabriel Zucman, prevê uma alíquota de 2% sobre a renda de cerca de 3 mil pessoas com patrimônio superior a US$ 1 bilhão, com potencial de arrecadação de até US$ 250 bilhões por ano. A iniciativa já consta da declaração final da cúpula do G20 de 2024 e é apontada pelo governo brasileiro como passo decisivo para a promoção da justiça fiscal global (La Diaria).
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Apesar das tensões internacionais provocadas pelo protecionismo tarifário dos EUA sob Trump, o Brasil reforça suas alianças estratégicas e busca ampliar acordos comerciais com parceiros emergentes.
BRASIL E CHILE | O presidente do Chile, Gabriel Boric, fará visita de Estado ao Brasil no dia 22 de abril, quando se celebram 189 anos das relações diplomáticas entre os dois países. Recebido por Lula em Brasília, Boric virá acompanhado por ministros, parlamentares e empresários, com foco na ampliação da cooperação econômica e na construção do Corredor Bioceânico, rota que ligará o Atlântico ao Pacífico via Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. O Brasil é o terceiro maior parceiro comercial do Chile, destino de 190 produtos chilenos, e a visita busca fortalecer parcerias em áreas como agroindústria, energia e inovação (Prensa Latina).
BRASIL E CHINA | Uma delegação da China esteve no Brasil para discutir a construção de uma ferrovia ligando o país ao porto de Chancay, no Peru, projeto que integra os acordos firmados entre Lula e Xi Jinping em 2023. O objetivo é fortalecer a conexão logística entre América do Sul e Ásia, reduzindo custos e tempo de transporte para as exportações brasileiras, especialmente de grãos e carnes. O porto de Chancay, ao norte de Lima, foi inaugurado em 2024 com investimento de US$ 3,5 bilhões da China e se posiciona como alternativa estratégica ao Canal do Panamá. A delegação contou com técnicos da China State Railway Group e do Ministério dos Transportes chinês. O Brasil, que já responde por mais de 20% das importações agropecuárias da China, pode se beneficiar diretamente da nova rota. A ferrovia integra o plano brasileiro de Rotas de Integração da América do Sul, que visa conectar o país aos principais mercados da região (Correio da Manhã).
BRASIL E RÚSSIA | O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou que as relações entre Brasil e Rússia seguem sólidas e com diálogo construtivo. Em entrevista ao O Globo, ele destacou que Lula será recebido por Vladimir Putin em maio, durante as celebrações do Dia da Vitória em Moscou, ocasião em que também deve tratar de possíveis caminhos para a paz na Ucrânia. Amorim ressaltou ainda que os países do BRICS têm peso crescente na economia mundial e atuam conjuntamente para transformar a ordem internacional em um sistema verdadeiramente multipolar (TASS).
BRICS | O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou nesta quinta-feira (17), durante reunião de ministros da Agricultura do BRICS em Brasília, que o tarifaço de Trump está acelerando a busca por novos acordos comerciais dentro do bloco. Segundo ele, embora a guerra tarifária não tenha sido o foco do encontro, seu impacto influencia diretamente as decisões dos países-membros. Fávaro avaliou que o atual cenário de instabilidade global e inflação nos alimentos não deve ser comemorado, mas pode abrir espaço para ampliar a cooperação entre as economias emergentes (Agência EFE).
AGENDA AMBIENTAL E COP30
O embaixador Mauricio Lyrio, representante da presidência brasileira do BRICS, afirmou durante o simpósio “Conectando Clima e Natureza”, realizado esta semana em Brasília, que o Brasil lidera os esforços do bloco por uma agenda ambiental mais justa. Ele destacou que o país tem articulado políticas que conciliam soberania nacional e redução de emissões, contrastando com a inação das potências industrializadas. Nos preparativos para a COP30, que ocorrerá em Belém do Pará, o Brasil pretende alcançar resultados concretos em justiça climática para o Sul Global. Segundo Lyrio, a cooperação com a China tem gerado soluções práticas, como tecnologias limpas acessíveis, reforçando o protagonismo do BRICS na reconfiguração da ordem internacional (Telesur).
Ainda durante a reunião de ministros da Agricultura do BRICS, o ministro Carlos Fávaro defendeu o fortalecimento da integração entre as economias emergentes diante da COP30. Segundo ele, a crise climática exige respostas articuladas, com protagonismo do Sul Global. Ao fim do encontro, foi firmado um documento com diretrizes para um plano de ação conjunto a ser apresentado na cúpula de chefes de Estado do BRICS em julho, no Rio de Janeiro. Entre os eixos da proposta estão a recuperação de terras degradadas e a ampliação da Aliança contra a Fome e a Pobreza, liderada pelo Brasil no âmbito do G20 (Agência EFE).
Enquanto o Brasil busca liderar globalmente a agenda climática, persistem desafios domésticos significativos. A poucos meses de um prazo autoimposto, a JBS corre o risco de descumprir novamente sua promessa de zerar o desmatamento na cadeia produtiva da Amazônia até o fim de 2025. Segundo investigação do The Guardian, Unearthed e Repórter Brasil, há forte ceticismo entre pecuaristas e sindicatos quanto à viabilidade do plano de rastreamento total do gado, travado por informalidade fundiária, barreiras técnicas e falta de apoio aos pequenos criadores. Mesmo com 80% das compras anuais supostamente cadastradas em sua plataforma, a empresa enfrenta denúncias de práticas como o “cattle laundering”, além de críticas por repassar custos e exigências desproporcionais aos produtores. A pressão internacional cresce: senadores dos EUA pedem o bloqueio da abertura de capital da JBS, que responde a ações por propaganda enganosa e se defende dizendo enfrentar um desafio estrutural (The Guardian).
Às vésperas da COP30, outra reportagem do The Guardian revela uma crise profunda na pecuária amazônica, marcada por seca extrema, degradação ambiental e pressões por rastreabilidade e fim do desmatamento. Produtores enfrentam dificuldades econômicas, depressão e insegurança jurídica, especialmente em áreas ocupadas sem regularização. Embora alguns, como o pecuarista Mauro Lúcio Costa, adotem práticas sustentáveis e tecnologias de rastreamento, há ceticismo sobre a promessa da JBS de rastrear todo o gado amazônico até o fim de 2025. Líderes rurais, como Cristina Malcher, criticam as exigências como medidas simbólicas para atender o mercado externo, mas admitem que a pauta ambiental é irreversível. O setor vive um impasse: sem conciliar produção e conservação, corre o risco de ser isolado globalmente (The Guardian).
*Imagem em destaque: Ministério dos Transportes

