Cooperação Brasil–EUA: combate ao crime e disputa por soberania

Acordos com os EUA, disputa por terras raras e articulação progressista colocam o Brasil no centro das tensões globais. (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil).
POR JOANNE MOTA
O Brasil volta a ocupar posição de destaque no cenário internacional nesta sexta (10), em meio a uma combinação de agendas que revelam tanto disputas geopolíticas quanto articulações políticas.
Entre propostas de acordos com os Estados Unidos, negociações sobre recursos estratégicos e a construção de uma frente progressista global, o país se movimenta em múltiplas frentes. Ao mesmo tempo, tensões diplomáticas e disputas internas expõem os limites e contradições desse protagonismo. O conjunto dos fatos revela um Brasil que negocia, resiste e projeta influência.
Acordo para enfrentar crime transnacional
Segundo a agência Prensa Latina, o governo brasileiro anunciou um acordo de cooperação com os Estados Unidos voltado ao combate ao tráfico internacional de armas e drogas. A iniciativa, denominada Projeto MIT (Equipe de Interdição Mútua), articula inteligência, tecnologia e operações conjuntas, conectando a Receita Federal brasileira à Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA.
O acordo prevê a troca de dados em tempo real e a coordenação de ações em pontos estratégicos, como a tríplice fronteira. Trata-se de uma resposta ao avanço do crime organizado transnacional, cuja sofisticação exige, cada vez mais, mecanismos integrados entre Estados nacionais. O governo brasileiro aposta na tecnologia como eixo estruturante dessa política.
Um dos pilares da iniciativa é o programa DESARMA, que permitirá o rastreamento internacional de armamentos. De acordo com o Executivo, a ferramenta ampliará a capacidade de identificar rotas e fluxos ilegais, fortalecendo o controle sobre cadeias ilícitas. A promessa é de maior eficiência na interceptação de cargas ilegais.
Dados oficiais indicam que, nos últimos 12 meses, foram detectados 35 casos de tráfico de armas, resultando na apreensão de mais de mil peças. Muitas dessas armas teriam origem no estado da Flórida, nos Estados Unidos, evidenciando a dimensão internacional do problema.
Além disso, o combate ao narcotráfico também ganha reforço. No Aeroporto de Guarulhos, por exemplo, as apreensões saltaram de 89 quilos em 2024 para 1.562 quilos apenas nos primeiros meses de 2026. O crescimento expõe tanto a intensificação do fluxo quanto o aumento da capacidade de repressão.
No entanto, o acordo surge em meio a tensões diplomáticas. A possibilidade de Washington classificar facções brasileiras como organizações terroristas foi rechaçada pelo governo Lula, que considera a medida uma interferência inaceitável. Como destacou o ministro Dario Durigan, o tema “não fez parte das discussões”, indicando que a cooperação ocorre sob vigilância política e defesa da soberania nacional.
Terras raras: o novo ouro e a disputa entre potências
De acordo com o portal La Política Online, o governo de Donald Trump busca firmar um acordo com o Brasil para exploração conjunta de terras raras — insumos estratégicos para tecnologia e indústria de ponta. O interesse não é casual: o Brasil detém a segunda maior reserva mundial desses minerais.
A proposta norte-americana inclui garantias de preço mínimo para exportações brasileiras e investimentos em refino e tecnologia. Em tese, trata-se de uma parceria vantajosa, com potencial de agregar valor à cadeia produtiva nacional. Washington tenta replicar modelos já adotados com outros países, como a Austrália.
No entanto, o pano de fundo é explícito: conter a influência da China, que hoje domina cerca de 70% do setor global. A disputa por terras raras é, na prática, uma disputa pela hegemonia tecnológica do século XXI.
Internamente, o governo brasileiro enfrenta divergências. Setores alertam que cláusulas do acordo poderiam, na prática, criar uma dependência estratégica em relação aos Estados Unidos. Negociadores norte-americanos negam qualquer exclusividade, afirmando que “a proposta não prevê exploração exclusiva”.
O debate ganha contornos geopolíticos mais amplos quando se considera que a China é o principal parceiro comercial do Brasil e um aliado central no BRICS. Um alinhamento automático aos EUA poderia tensionar essa relação, contrariando a estratégia de autonomia defendida pelo governo Lula.
Nesse contexto, a possível criação da estatal TerraBras surge como carta na mesa. A iniciativa permitiria ao Brasil negociar de forma mais soberana seus recursos estratégicos, evitando que o “novo ouro” seja explorado sob lógica subordinada. A metáfora é inevitável: quem controla as terras raras hoje, controla o futuro tecnológico — e o Brasil sabe disso.
Barcelona: a articulação de um bloco progressista global
A presidente mexicana Claudia Sheinbaum participará de uma reunião de governos progressistas em Barcelona no próximo dia 18, informa o jornal El Diario. O encontro reunirá líderes como Lula, Gustavo Petro e Pedro Sánchez.
A iniciativa, originalmente proposta pelo presidente chileno Gabriel Boric, busca fortalecer a cooperação entre governos progressistas em um cenário global marcado pelo avanço de forças conservadoras. Trata-se de um esforço de articulação política internacional, com foco em democracia e justiça social.
Sheinbaum confirmou sua presença ao afirmar: “Fui convidada e decidi que vamos ir”. A visita marca sua primeira ida à Espanha como presidente, consolidando sua inserção no cenário internacional.
O encontro ocorre em um momento de distensão entre México e Espanha, após tensões relacionadas à cobrança histórica sobre os abusos da colonização. O rei Felipe VI reconheceu que houve “muito abuso”, gesto considerado por Sheinbaum como um “aproximação”, embora insuficiente.
A reunião também simboliza uma tentativa de reequilibrar o debate global, criando um contraponto às agendas neoliberais e militaristas. A presença de líderes latino-americanos reforça o papel da região como polo de resistência e formulação política.
Mais do que diplomacia, o encontro representa a construção de um campo político internacional. Em tempos de fragmentação, a articulação progressista busca transformar afinidades ideológicas em ação coordenada — um desafio tão necessário quanto complexo.
Argentina leva denúncia contra Milei à cúpula progressista
A ex-presidente Cristina Kirchner enviará uma delegação do Partido Justicialista à cúpula em Barcelona, liderada por Wado de Pedro, destaca o La Política Online. A missão é clara: denunciar a situação econômica e institucional da Argentina sob Javier Milei.
Segundo o partido, o governo atual promove um modelo que “bate recordes de fechamento de fábricas, crescimento do desemprego e endividamento familiar”. A crítica aponta para uma economia sustentada por dívida externa e fragilidade estrutural.
Além do aspecto econômico, a delegação denunciará práticas de lawfare e perseguição política. O documento afirma que há “restrições impostas à principal dirigente opositora”, em referência a Cristina Kirchner.
A comitiva também levará uma posição internacional, criticando a “escalada belicista” de Estados Unidos e Israel e defendendo soluções pacíficas. A participação argentina reforça o caráter político do encontro.
A cúpula, assim, não será apenas um espaço de diálogo, mas também de disputa narrativa. Em meio à crise argentina, o peronismo busca internacionalizar sua denúncia — uma estratégia que combina política interna e diplomacia.
Caso Zambelli: Justiça italiana rejeita narrativa de perseguição
A agência ANSA Brasil traz como destaque o caso Zambelli. Segundo a reportagem, a defesa da ex-deputada Carla Zambelli recorreu à Suprema Corte italiana contra sua extradição ao Brasil. A estratégia insiste na tese de “perseguição política”, já rejeitada anteriormente pela Justiça italiana.
A Corte de Apelação de Roma foi categórica ao afirmar que a alegação é “infundada” e carece de “provas objetivas e verificáveis”. A decisão reforça a legitimidade do sistema judicial brasileiro.
O tribunal destacou ainda que “a estrutura geral do processo brasileiro assegura as garantias fundamentais de um julgamento justo”. A declaração desmonta a narrativa recorrente de setores bolsonaristas.
Zambelli foi condenada por invasão de sistemas do Judiciário e outros crimes, incluindo porte ilegal de arma. Atualmente, está detida em Roma, aguardando decisão final.
O caso expõe, mais uma vez, o contraste entre discursos políticos e decisões judiciais. Fora do ambiente polarizado brasileiro, a retórica de perseguição encontra menos eco — e mais exigência de provas.
Entre acordos estratégicos, disputas por recursos e articulações políticas internacionais, o Brasil reafirma seu papel como ator central em um mundo em transformação. Se por um lado negocia com grandes potências, por outro busca fortalecer alianças progressistas e defender sua soberania. Em tempos de tensões globais, o país parece caminhar sobre uma corda bamba — equilibrando interesses, pressões e projetos de futuro.
Até a próxima!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
