FMI reconhece solidez do Brasil diante da pressão tarifária de Trump

FMI reconhece solidez do Brasil diante da pressão tarifária de Trump

Enquanto o FMI reconhece a resiliência da economia brasileira, a ofensiva comercial de Washington eleva a tensão e empurra o governo Lula para uma resposta que combina negociação, reciprocidade e defesa do interesse nacional. No campo político, Javier Milei desembarca no país para estreitar laços com a direita brasileira e evitar Lula. (Foto – Tânia Rêgo/Agência Brasil)

POR JOANNE MOTA

O Brasil atravessa uma semana em que economia, comércio internacional e disputa política se encontram no mesmo tabuleiro. De um lado, o Fundo Monetário Internacional (FMI), instituição historicamente associada à defesa de políticas de austeridade, reconhece a capacidade de resistência da economia brasileira diante de sucessivos choques. De outro, o governo de Donald Trump amplia a pressão comercial sobre Brasília com novas tarifas. Ao mesmo tempo, o presidente argentino Javier Milei chega ao país para participar de uma articulação política com setores da direita brasileira, em uma movimentação que evidencia a dimensão internacional da disputa eleitoral de 2026.

A avaliação do FMI representa um dado relevante. Segundo a cobertura do Telesur, o organismo classificou a economia brasileira como de “notável resiliência diante de múltiplos choques” e projeta crescimento de 2,4% do PIB em 2026. O relatório também aponta a solidez do sistema bancário, com elevada liquidez e riscos sistêmicos sob controle. A instituição relaciona parte do desempenho a fatores como a melhora dos termos de troca, o apoio fiscal, a reforma do IVA e o aumento da produção de hidrocarbonetos. A inflação, contudo, permanece como ponto de atenção, com projeção de 5,6% no fim do ano e convergência gradual para a meta de 3% apenas em 2028. (IMF)

A contradição é politicamente interessante. O mesmo FMI que durante décadas pressionou países latino-americanos por cortes de gastos e redução do papel do Estado agora reconhece que o Brasil atravessou uma sequência de choques sem sucumbir à instabilidade. O reconhecimento não significa uma mudança de natureza da instituição, tampouco absolve suas recomendações de seus efeitos históricos sobre as economias periféricas. Mas revela que a realidade brasileira é mais complexa do que a caricatura de um país condenado ao desequilíbrio fiscal. O governo Lula enfrenta restrições, juros elevados e pressões inflacionárias, mas também administra uma economia que mantém capacidade de crescimento e instrumentos para responder a crises externas.

É justamente nesse cenário que a ofensiva tarifária de Washington ganha peso. O governo Trump impôs uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos de 60 economias, incluindo o Brasil, sob a justificativa de que esses países não adotam ou não fiscalizam adequadamente a proibição da entrada de bens produzidos com trabalho forçado. A medida foi tomada com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana. No caso brasileiro, ela se soma à tarifa de 25% anunciada anteriormente sobre determinados produtos, embora as duas medidas tenham bases jurídicas distintas e existam exceções específicas. A própria documentação oficial norte-americana confirma que a nova tarifa de 12,5% integra uma ação mais ampla contra dezenas de parceiros comerciais. (United States Trade Representative)

A justificativa apresentada pela Casa Branca, porém, é contestada pelo governo brasileiro. Brasília afirma que o país possui uma política robusta de combate ao trabalho escravo contemporâneo e que sua atuação é reconhecida internacionalmente. A reação do Planalto foi imediata: o governo classificou a decisão como arbitrária e informou que iniciará os procedimentos para aplicar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade, além de levar a questão à Organização Mundial do Comércio. A mensagem política é clara: o Brasil não pretende aceitar que uma pauta legítima — a defesa dos direitos humanos e dos trabalhadores — seja convertida em instrumento unilateral de coerção comercial.

A disputa, portanto, ultrapassa a discussão sobre tarifas. Ela coloca em questão quem define as regras do comércio internacional e quais países têm o poder de impor unilateralmente suas próprias condições. A política de Trump, apresentada sob o lema de proteção dos interesses norte-americanos, tem ampliado o uso de tarifas como instrumento de pressão diplomática e econômica. Para países como o Brasil, a resposta não pode ser simplesmente aceitar a lógica de uma relação assimétrica na qual Washington estabelece as regras e os demais apenas calculam os prejuízos. A possibilidade de reciprocidade recoloca sobre a mesa um princípio básico das relações internacionais: soberania também significa capacidade de responder.

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No front fiscal, a fotografia apresentada pela Reuters é menos dramática do que parte do discurso econômico costuma sugerir. O governo brasileiro reduziu em R$ 5,7 bilhões o bloqueio de despesas necessário para cumprir as regras do arcabouço fiscal, levando o total para R$ 17,9 bilhões. Ao mesmo tempo, revisou para baixo a previsão de déficit primário de 2026, de R$ 60,3 bilhões para R$ 52 bilhões. Consideradas determinadas exclusões previstas nas regras fiscais, a projeção passou de um superávit de R$ 4,1 bilhões para R$ 10,8 bilhões. O quadro não elimina os desafios das contas públicas, mas mostra um governo operando dentro das restrições fiscais e ajustando suas projeções sem recorrer ao receituário automático de cortes sociais.

Enquanto o governo enfrenta a pressão econômica externa, a disputa política brasileira também ganha uma dimensão regional. O argentino Javier Milei desembarca no Brasil para uma agenda que, segundo o Página/12, inclui encontros com Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes. Milei não se reunirá com Lula e participa de um evento político do Partido Liberal, em uma demonstração explícita de proximidade com a direita brasileira. A viagem integra ainda uma agenda regional do presidente argentino junto a governos e forças políticas de direita. A mensagem é inequívoca: a extrema direita latino-americana procura construir pontes transnacionais e transformar afinidades ideológicas em capital político.

O movimento de Milei também revela uma característica da conjuntura latino-americana: a disputa política deixou de ser estritamente nacional. As direitas da região articulam discursos, estratégias e lideranças que atravessam fronteiras, enquanto a relação com os Estados Unidos permanece um dos principais eixos de alinhamento geopolítico. No caso brasileiro, a aproximação de Milei com setores da oposição ocorre justamente quando o governo Lula enfrenta uma ofensiva comercial de Washington e busca preservar espaços de autonomia na política externa. A coincidência temporal não é um detalhe menor. A batalha pelo futuro do Brasil também é, cada vez mais, uma batalha sobre qual lugar o país ocupará no mundo.

É nesse ponto que os diferentes movimentos desta semana se conectam. A economia brasileira demonstra resiliência, o governo enfrenta uma ofensiva tarifária que considera injustificada, prepara instrumentos de reciprocidade e mantém aberta a via diplomática. Paralelamente, setores da direita internacional procuram influenciar o ambiente político brasileiro por meio de alianças que ultrapassam as fronteiras nacionais. O que está em jogo, portanto, não é apenas o resultado de uma disputa comercial ou eleitoral isolada. É a capacidade de o Brasil defender seus interesses em um mundo marcado pela competição entre grandes potências, pelo retorno do protecionismo e pela reorganização das forças políticas. Se a pressão externa pretende testar os limites da soberania brasileira, a resposta de Brasília será medida não apenas pelos números da balança comercial, mas pela capacidade de transformar resistência em projeto nacional.

Até a próxima!

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