Itamaraty responde aos EUA: ‘ameaças ignoram os fatos’

Itamaraty responde aos EUA: ‘ameaças ignoram os fatos’

As reações dos EUA e o futuro de Jair Bolsonaro após ser condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado continuam em alta nos principais jornais internacionais.

POR TATIANA CARLOTTI

Enquanto o presidente colombiano Gustavo Petro exaltava a democracia brasileira, afinal, “todo golpista deve ser condenado; são as regras da democracia”; e o líder chileno Gabriel Boric lembrava que a democracia brasileira “resistiu a uma tentativa de golpe e hoje julga e condena os seus responsáveis”, o alto escalão dos Estados Unidos abriu seu “fogo verbal” contra a decisão da nossa Suprema Corte.

Na noite de ontem (11), o chefe do Departamento de Estado norte-americano, Marco Rubio, personagem à frente das investidas dos EUA contra a soberania da Venezuela, afirmou que o Judiciário brasileiro promove uma “caça às bruxas” contra Bolsonaro e prometeu responder “em conformidade” com a decisão dos magistrados, destaca a BBC e Página 12.

A vice-presidência dos EUA, por meio de Darren Beattie, também afirmou nesta sexta-feira (12/09) que a condenação representa “um novo marco fatídico no complexo de censura e perseguição do juiz Moraes, violador de direitos humanos, que tem como alvo Bolsonaro e seus apoiadores”. E o vice-secretário de Estado Christopher Landau também condenou, afirmando que, enquanto o Brasil deixar “o destino dessa relação nas mãos do ministro Moraes”, não vê “saída para esta crise”, aponta a BBC.

O presidente dos EUA, Donald Trump, lamentou a sentença e fez um paralelo com as acusações que enfrenta em seu próprio país. “Eu assisti a esse julgamento. Eu o conheço (Bolsonaro) razoavelmente bem. Líder estrangeiro que, na minha opinião, foi um bom presidente do Brasil, e é muito surpreendente que isso possa acontecer. Isso é muito parecido com o que tentaram fazer comigo, mas não conseguiram de forma alguma. Só posso dizer o seguinte: eu o conheci como presidente do Brasil. Ele era um homem bom e não vejo isso acontecendo”, informa o Washington Post.

Hoje cedo, o Itamaraty respondeu às críticas em uma nota. “O Poder Judiciário brasileiro julgou, com a independência que lhe assegura a Constituição de 1988, os primeiros acusados pela frustrada tentativa de golpe de Estado, que tiveram amplo direito de defesa”. A chancelaria também rechaçou “ameaças como a feita hoje pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, em manifestação que ataca autoridade brasileira e ignora os fatos e as contundentes provas dos autos”, diz o texto.

Lula também reagiu, aponta a russa Tass. Em entrevista à Band, antes do julgamento, o presidente afirmou: “não há preocupações. Não tenho medo (…) O presidente de um país não pode interferir nas decisões de outro Estado soberano. Se ele decidir tomar alguma atitude, isso será problema exclusivamente seu”.

Repercussão na imprensa

A condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe continua repercutindo nos jornais internacionais. O jornal francês Le Monde afirma que Bolsonaro aposta no apoio de seus seguidores e em manobras parlamentares para aprovar uma lei de anistia após a sentença de 27 anos. Embora o ex-presidente mantenha aliados na Câmara, o Executivo confia no Senado e no Supremo Tribunal Federal para barrar a medida, destaca a reportagem.

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Le Parisien traça um perfil do ministro Alexandre de Moraes, destacando que ele é chamado de “ditador” por uns e “xerife da democracia” por outros. Analistas franceses ouvidos pela matéria ressaltam que a tentativa de anistia enfrenta obstáculos significativos, pois o STF e parte do Senado indicaram que não aceitariam uma medida que possa enfraquecer a democracia. A cobertura também ressalta o isolamento político de Bolsonaro, agora banido das redes sociais, com tornozeleira eletrônica e em prisão domiciliar.

O argentino La Nacion traz uma reportagem sobre a reação dos filhos de Bolsonaro. O espanhol El Diario, o português Expresso e o britânico Independent informam os argumentos e próximos passos da defesa do ex-presidente, que promete recorrer, inclusive a instâncias internacionais, apesar das poucas chances de reversão.

A agência chinesa Xinhua também comenta a condenação, ressaltando a reação de Donald Trump, que criticou o processo e impôs tarifas de 40% às exportações brasileiras. O francês Libération lembra que, pela primeira vez, culpados por tentativa de golpe são presos no Brasil. Já o mexicano La Jornada detalha o julgamento em artigo de Eric Nepomuceno.

A britânica BBC também revisita a trajetória de Bolsonaro, de outsider a presidente, destacando a incredulidade inicial da elite política brasileira diante de sua ascensão em 2018.

Reação popular

Os veículos internacionais também destacam a festa popular e a tristeza dos bolsonaristas no país. The Guardian relata as comemorações em Brasília, apontando que para muitos brasileiros, o 11 de setembro ganhou novo significado com a sentença. Já o Público destaca a polarização no país, enquanto a AFP traz imagens imperdíveis de ambos grupos políticos.

O uruguaio Ámbito lembra que, por enquanto, o ex-presidente segue em prisão domiciliar, enquanto o STF pode levar mais de um mês para publicar a decisão final, abrindo espaço para recursos. O português Correio da Manhã também noticia o apoio da Igreja Católica à decisão.

Por fim, o Democracy Now traz um especial com a diretora da Rede de Justiça Social e Direitos Humanos no Brasil, Maria Luísa Mendonça. Ela enfatizou a necessidade de união entre os países latino-americanos para defender a democracia e a soberania regional.


Foto de capa: Lula Marques/Agência Brasil

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