Lula: ‘assessor do governo Trump só entrará se Padilha entrar nos EUA’

Lula: ‘assessor do governo Trump só entrará se Padilha entrar nos EUA’

A interdição de entrada a Darren Beattie, o Brasil na lista das 60 nações investigadas pelos EUA e a viagem de Lula à África do Sul são destaques sobre o país na imprensa internacional nesta sexta (13). (Imagem: Departamento de Estado dos EUA)

POR TATIANA CARLOTTI

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva proibiu a entrada de Darren Beattie, assessor do governo Trump, que pretendia visitar Jair Bolsonaro na prisão. A medida, destacou o presidente, é uma retaliação à revogação do visto do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pelos Estados Unidos.

“Aquele cara americano que disse que vinha pra cá, para visitar Jair Bolsonaro, foi proibido de visitar. E eu o proibi de vir ao Brasil enquanto não liberar os vistos do meu ministro da Saúde, que estão bloqueados”, disse Lula nesta sexta-feira (13), exigindo reciprocidade nas relações entre os dois países.

A reportar o caso, o britânico The Guardian destaca que, no ano passado, os Estados Unidos cancelaram os vistos da esposa e da filha de 10 anos de Padilha e não renovaram a permissão de entrada do próprio ministro, cujo visto estava vencido. O episódio foi lido pelo Palácio do Planalto como agressão diplomática inaceitável contra um integrante do primeiro escalão do governo brasileiro. “Padilha, esteja certo que você está sendo protegido”, disse Lula.

Nesta quinta (12), o ministro Alexandre de Moraes havia negado o pedido de Jair Bolsonaro para receber Beattie, entendendo que a visita não foi comunicada à diplomacia brasileira, tampouco fazia parte da agenda oficial do representante norte-americano no país. O chanceler Mauro Vieira alertou o Supremo de que a visita “pode configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro”.

Brasil integra lista norte-americana sobre trabalho forçado

Os Estados Unidos divulgaram nesta sexta (13) uma lista de 59 nações e países da União Europeia que serão investigados sobre a presença de trabalho forçado e outras irregularidades em sua cadeia produtiva. O Brasil é citado na lista que também abrange potências alinhadas à Casa Branca, como Israel, Arábia Saudita e Argentina.

A ideia de Washington é encontrar outra forma de impor suas tarifas após o bloqueio do tarifaço pela Corte Suprema no último dia 20 de fevereiro. Caso um país seja considerado culpado por violar a normativa norte-americana, suas exportações poderão sofrer taxas. A medida foi anunciada pela USTR, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA. “Durante muito tempo, os trabalhadores e as empresas dos Estados Unidos foram obrigados a competir com produtores estrangeiros que podem ter uma vantagem de custo obtida por meio do flagelo do trabalho forçado”, afirma o órgão.

Reportagem da ANSA lembra que Trump já havia elevado em 50% as tarifas sobre vendas brasileiras em julho do ano passado. Esse “tarifaço” foi parcialmente revertido em setembro, depois da abertura de conversas entre Trump e Lula.

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Lula na África do Sul

Em coletiva de imprensa, durante sua visita oficial à África do Sul, o presidente Lula abordou, ao lado do mandatário do país, Cyril Ramaphosa, a necessidade de os países se prepararem contra ameaças externas. “Se não nos prepararmos em matéria de Defesa, um dia alguém nos invadirá”, disse, ao frisar que a América do Sul é uma “região de paz” e que “ninguém tem bomba nuclear”. O presidente brasileiro observou que, em sua região, os drones são utilizados para tarefas agrícolas, científicas e tecnológicas, e não para fins bélicos. Mesmo assim, enfatizou a importância do preparo da defesa.

Como destaca a russa RT, desde o início da agressão militar dos EUA e de Israel contra o Irã, a postura de Lula tem se concentrado em criticar a inação das organizações internacionais e em defender uma solução diplomática. Já a reportagem do Le Monde sobre o encontro entre Lula e Ramaphosa recupera que os países buscam avançar na produção conjunta de armas, inserindo o contexto do intervencionismo norte-americano na América Latina e a escalada do conflito no Oriente Médio.

O jornal menciona a preocupação concreta do governo brasileiro frente à possibilidade de que Washington classifique o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas. Para David Marques, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, citado pela reportagem, “essa categorização daria margem aos Estados Unidos para conduzir ações unilaterais contra o Brasil”, o que abriria perigoso precedente contra a soberania nacional.

O jornal frances também destaca que o Brasil destina em média apenas 1,1% do PIB à defesa, cerca de metade da média mundial e que a fatia dos gastos militares voltada a equipamentos é muito baixa, enquanto grande parte do orçamento é absorvida por salários e pensões, revelando uma estrutura pouco preparada para responder a pressões externas. Nesse contexto, a aproximação com a África do Sul surge como tentativa de recompor capacidade industrial e autonomia estratégica entre países emergentes.

Biografia de Lula

Financial Times traz uma resenha da biografia Lula! The Man, the Myth and a Dream of Latin America, de Richard Lapper, que busca responder como um migrante pobre do Nordeste se tornou presidente por três mandatos e figura definidora da política latino-americana. A resposta sugerida é dialética: o Brasil fez Lula, e Lula, por sua vez, refez o Brasil.

A resenha valoriza o olhar de Lapper por situar a trajetória individual dentro da economia política brasileira, mostrando que Lula nunca foi um purista ideológico, mas sua formação vem da experiência concreta da classe trabalhadora sob industrialização dependente, choques do petróleo, corrosão salarial e violência da ditadura. Como dirigente sindical, ele combinou militância com flexibilidade tática, traço que mais tarde se tornaria a marca de seu pragmatismo presidencial.