Lula defende neutralidade do canal do Panamá, foco de Trump

Presidente alertou para o retrocesso na integração dos países da região ao discursar no Fórum Econômico da América Latina e do Caribe realizado no Panamá.
A defesa da integração foi um dos eixos nesta segunda edição do Fórum Econômico Internacional da América Latina e do Caribe, batizado como o “Davos latino-americano”, que começou nesta quarta-feira com apelos dos mandatários da Colômbia, Brasil e Bolívia para que se unam em trabalho conjunto. Participam os presidentes do Panamá, José Raúl Mulino; do Brasil, Lula; da Bolívia, Rodrigo Paz; da Colômbia, Gustavo Petro; do Equador, Daniel Noboa; da Guatemala, Bernardo Arévalo; o primeiro-ministro da Jamaica, Andrew Holness, e o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast.
Em um discurso de quase 30 minutos, o presidente Lula fez diversas indiretas ao governo dos Estados Unidos, que manifestou a intenção de retomar o controle do Canal do Panamá.
“A integração em infraestrutura não tem ideologia. Por isso o Brasil defende a neutralidade do Canal de Panamá, administrado de forma eficiente há quase três décadas”, destacou.
Como anfitrião, Mulino pediu aos países da América Latina que avancem na integração para consolidar a região como “um bloco único”, como forma de inseri-la na nova ordem mundial e garantir tanto sua defesa contra “possíveis ameaças” quanto seu papel de “contrapeso de paz, diálogo e equilíbrio global”.
Lula lamentou um dos “maiores retrocessos” na integração. Condenou a divisão do mundo em “zonas de influência”, o que, em sua opinião, é um “retrocesso histórico” revestido de “neocolonialismo”. O líder progressista lembrou que, em meio ao atual contexto de “ruptura” global, houve um momento na história em que os Estados Unidos foram “um parceiro” comprometido com o “desenvolvimento” da região. “O uso da força nunca pavimentará o caminho para superar os flagelos que afetam nossa região”, afirmou Lula. Dessa forma, o governante brasileiro, que tentará um quarto mandato nas eleições de outubro próximo, criticou indiretamente a estratégia de Donald Trump. Em contrapartida, ele lembrou a Política de Boa Vizinhança promovida por Franklin D. Roosevelt quando ocupava a Casa Branca, que “substituiu a intervenção militar pela diplomacia” para dialogar com a América Latina.
Ao falar diante de líderes da América Latina e do Caribe, no Panamá, o presidente Lula citou o modelo de integração da União Europeia como uma referência a ser considerada pelos países da região, em uma conjuntura mundial marcada pelo “protecionismo”.
“Devemos olhar para a União Europeia como uma referência positiva, mas sem ignorar todas as diferenças históricas, econômicas e culturais”, disse o petista, alertando que a região voltou a ficar “dividida”.
A Bloomberg também citou o evento como “Davos da América Latina” e informou que o encontro de líderes da América Latina “testa a influência regional de Lula”. Trata-se do 1º. encontro da região depois do sequestro de Maduro e com a presença de presidentes conservadores. Cabe a Lula garantir a presença de esquerda e atuar em defesa da integração.
LULA NOS EUA
Lula confirmou que deve se reunir com Donald Trump em março, na Casa Branca, e defendeu que a Venezuela resolverá sua crise por si só, sem a intervenção de outros países. Segundo Lula, “a solução para o povo da Venezuela será encontrada pelo próprio povo da Venezuela”. Antes do início do Fórum Econômico Internacional da América Latina e do Caribe, o presidente falou à imprensa e afirmou: “Estou convencido de que voltaremos à normalidade em breve, muito em breve; que vamos fortalecer o multilateralismo e que vamos fazer com que as economias voltem a crescer, porque é isso que o povo espera de nós”. (Nodal / Ambito / Ansa)
LULA E KAST
O chileno Kast se distanciou de Milei e se reuniu com Lula no Panamá. O presidente eleito do Chile aproveitou a cúpula da CAF para ter uma reunião com o líder do Brasil “além das diferenças ideológicas”. Lula e o chileno José Antonio Kast se reuniram no Panamá antes da cúpula do Fórum Econômico Internacional para a América Latina e o Caribe, organizada pela CAF. O presidente eleito do Chile disse após o encontro que “foi uma reunião bilateral muito boa, na qual o presidente Lula esteve presente com seus ministros”. (La Política Online / La Nación)
FLAVIO X LULA
Em Jerusalém, o senador candidato à Presidência Flávio Bolsonaro afirmou na terça-feira em Jerusalém que o presidente brasileiro Lula é “antissemita”, e acrescentou que se candidata às eleições porque “o Brasil precisa de um reajuste moral e estratégico”. Durante sua intervenção na segunda edição da Conferência Internacional sobre a Luta contra o Antissemitismo, Bolsonaro afirmou que “sob a presidência de Lula, a política brasileira sofreu um profundo fracasso moral”. “Sejamos claros: Lula é antissemita. Isso não é um slogan. Não é um exagero. Baseia-se em suas ideias, seus assessores, suas palavras e suas ações”, acrescentou. (EFE)
TRAFICANTE ITALIANO NO BRASIL
O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes suspendeu a extradição imediata do traficante italiano Marco Cadeddu na noite de segunda-feira (26/01). Apontado como membro de uma organização criminosa na Sardenha, Cadeddu foi preso no Brasil em junho de 2024 durante uma operação da Polícia Federal com apoio da Interpol. Na Itália, ele foi condenado a 14 anos e seis meses de detenção por tráfico de drogas, associação criminosa, receptação e lavagem de dinheiro.
As informações são da Carta Capital, que revelou que a decisão foi tomada poucas horas antes do embarque do criminoso ao país europeu, cujo voo deveria partir do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, às 20h20. (Ansa)
Foto: Na cidade do Panamá, Lula se reuniu com o presidente do país, José Raúl Mulino / Ricardo Stuckert/PR

Jornalista, ex-Folha, Reuters e Valor Econômico. Participei da cobertura de posses presidenciais, votações no Congresso, reuniões ministeriais, além da cobertura de greves de trabalhadores e de pacotes econômicos. A maior parte do trabalho foi no noticiário em tempo real. No Fórum 21, produzo o Focus 21, escrevo e edito os textos dos analistas.
