Lula defende paz na América Latina e palestinos no Conselho de Trump

Lula defende paz na América Latina e palestinos no Conselho de Trump

As declarações de Lula ao UOL, as negociações entre Brasil e Rússia, os bancos salvos pelo governo e os protestos indígenas em Santarém (PA) são alguns dos destaques da imprensa internacional sobre o Brasil nesta quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026 (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

POR TATIANA CARLOTTI

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu uma entrevisa ao UOL nesta quinta-feira (05/01) com forte repercussão nos veículos internacionais. O destaque foi a pauta geopolítica, em particular, a fala de Lula sobre o “Conselho de Paz” e a situação na Venezuela.

O líder brasileiro afirmou ter pedido diretamente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que “cabe aos venezuelanos resolver os problemas da Venezuela”. Ele acrescentou que o papel do Brasil é defender a democracia e a estabilidade regional, e não interferir nos assuntos internos do país vizinho, informa a francesa EFE. “Essa [volta de Maduro ao país] não é a preocupação principal. A preocupação principal é a seguinte: há possibilidade de a gente fortalecer a democracia na Venezuela e as 8 milhões de pessoas que estão fora de lá, voltarem à Venezuela? Há condições de a democracia ser efetivamente respeitada na Venezuela e a população possa participar ativamente?”, afirmou ao UOL.

Lula reforçou que a América do Sul não pode ser palco de um conflito armado. “O que estamos dizendo ao [presidente dos Estados Unidos, Donald] Trump é que a América do Sul é uma zona de paz. A gente não tem bomba atômica, a gente não tem armas nucleares. O que a gente quer é crescer economicamente, fortalecer o processo democrático e melhorar a vida de milhões de latino-americanos. Porque a América Latina não pode continuar a ser uma parte do mundo pobre.”

Para ele, a ausência de uma resposta unificada da América Latina diante da intervenção evidencia fragilidades políticas na região. Sobre o Conselho para a reconstrução de Gaza, proposto por Trump, Lula foi categórico: “estamos dispostos a entrar no Conselho de Paz, mas os palestinos devem participar”. Ele disse ter estranhado a criação do conselho sem nenhum palestino na direção. “É muito estranho que a proposta que foi apresentada de reconstrução de Gaza seja mais um resort do que a reconstrução de Gaza. Eu quero saber quem é que vai reconstruir as casas, os hospitais, as padarias, os bairros que foram detonados. Porque a vida de 75 mil de mulheres e crianças não retornará mais”, afirmou.

A Reuters destaca que Lula deve viajar a Washington no início de março para se encontrar com Trump. A entrevista também foi reportada pela ANSA Brasil, que destacou a defesa do líder brasileiro por um diálogo “olho no olho” com Trump: “não tem tema proibido. A única coisa que eu não discuto é a soberania do meu país”, disse Lula, citando possíveis conversas sobre investimentos, indústria, exportações e cooperação econômica.

Combinando com os russos

O primeiro-ministro da Rússia, Mikhail Mishustin, chegou a Brasília nesta quinta-feira (05/01) para uma visita oficial centrada no fortalecimento das relações bilaterais com o Brasil. É a primeira vez, em onze anos, que Brasil e Rússia realizam uma reunião de alta cúpula para aprofundar relações em setores estratégicos. O premiê russo e oito ministros de estado estão em Brasília, onde se encontraram com o presidente Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin.

Segundo noticiaram RT e TASS, Mishustin participou da 8ª reunião da Comissão de Alto Nível Russo-Brasileira para a Cooperação, onde se reuniu com o presidente brasileiro no Palácio do Itamaraty. Após o evento, foi assinada uma declaração conjunta que delineia as principais áreas de cooperação russo-brasileira para os próximos anos. Segundo a nota do Planalto, “Lula insistiu na importância de manter mecanismo de acompanhamento das iniciativas acordadas para que possam produzir resultados mais rápidos e benefícios concretos para os dois países”.

A TASS destaca que, durante o encontro, os países “manifestaram interesse em ampliar o leque de fornecimentos de radioisótopos medicinais para atender às necessidades da área da saúde” e “afirmaram seu interesse em promover projetos conjuntos na área de geração de energia nuclear” e na atualização de acordos sobre o tema. Rússia e Brasil “avaliaram positivamente o trabalho conjunto em diversas áreas do setor energético”.

A Tass também destaca o “ritmo acelerado de interação na esfera da exploração espacial pacífica” e a “cooperação frutífera na área de navegação por satélite e monitoramento espacial”. Outro compromisso foi dar continuidade às negociações da Convenção-Quadro da ONU sobre Cooperação Tributária Internacional. Segundo a agência russa, a iniciativa é “fundamental para fortalecer um sistema tributário internacional inclusivo, equilibrado e eficaz”.

Em Brasília, Alckmin classificou a relação bilateral como “estratégica”, destaca a italiana ANSA. O vice-presidente brasileiro afirmou que “parcerias sólidas não dependem das conjunturas, mas de interesses estruturais bem compreendidos”, ressaltando que o comércio bilateral, que chegou a cerca de US$ 11 bilhões em 2025, ainda tem amplo espaço para crescer. O Brasil é o principal parceiro comercial da Rússia na América Latina e um importante fornecedor de produtos agrícolas.

E o tal do ‘laissez-faire‘?

O Ministério da Fazenda anunciou acordos com grandes bancos para regularizar dívidas fiscais que somavam R$ 3,3 bilhões, encerrando disputas judiciais que se arrastavam havia quase duas décadas. A EFE informou que os litígios envolviam, entre outros temas, impostos sobre movimentações financeiras e contribuições previdenciárias, e que os termos foram conduzidos pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN).

No detalhamento, o Santander Brasil regularizou a maior dívida, enquanto Itaú e Citibank obtiveram reduções relevantes. O Itaú obteve abatimento superior a R$ 1 bilhão e o Citibank, redução próxima de R$ 500 milhões, dentro de um modelo em que o Estado aplica descontos para acelerar a recuperação de valores e evitar custos prolongados de litígio. A PGFN publicou nota oficial sobre os acordos: as instituições reconhecem os débitos, pagam o saldo à vista após descontos e se comprometem a manter regularidade fiscal.

A Reuters informa que os pagamentos somaram cerca de R$ 2,4 bilhões de reais (valor líquido após descontos médios), com abatimentos sobre multas, juros e encargos variando conforme risco de recuperação e perspectiva de duração do processo. O movimento reforça a estratégia do governo Lula de elevar arrecadação e combater evasão, com pressão política para que o sistema financeiro contribua mais para financiar políticas públicas, diz a reportagem.

Escala 6×1 na mira de Lula

O presidente Lula deve se reunir na próxima semana com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, para discutir o fim da chamada escala 6×1 no Brasil, informa Prensa Latina. Motta teria sinalizado apoio político à mudança, afirmando que há condições para aprovação ainda no primeiro semestre de 2026, antes das eleições municipais. Os ministros Gleisi Hoffmann e Guilherme Boulos participarão do encontro.

O regime de trabalho prevê seis dias consecutivos de trabalho e apenas um de descanso e é amplamente utilizado em setores como comércio, serviços, limpeza e segurança privada, comprometendo o descanso, a convivência familiar e a qualidade de vida dos trabalhadores. Na contramão da escala, Lula tem defendido como ideal um regime máximo de 5×2, com dois dias de descanso semanal, e propostas em debate de redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, com possibilidade de diminuição gradual para 36 horas. O projeto enfrenta resistência de setores empresariais. “Quando um grande empresário esteve a favor dos direitos dos trabalhadores? Nunca vi isso na história”, disse Boulos.

Veja Também:  Cidades inseguras para elas: 7 em cada 10 mulheres já sofreram assédio no Brasil

Indígenas contra a dragagem no Tapajós

Continuam, com toda força, os protestos há mais de duas semanas, reunindo pelo menos 700 indígenas em Santarém (PA), contra a expansão portuária e projetos de dragagem associados ao escoamento de grãos. A disputa coloca, de um lado, a infraestrutura do agronegócio e, de outro, a sobrevivência de territórios e modos de vida. A France 24 relata que a mobilização dura semanas e ocorre em frente ao terminal da multinacional Cargill, alvo por sua centralidade logística na exportação. A liderança indígena Auricelia Arapiuns disse à AFP/France 24 que “o governo está abrindo nossos territórios a muitos projetos (…) para impulsionar o agronegócio” e afirmou que a ocupação busca “chamar a atenção para que o governo venha com uma proposta”. Cerca de 700 indígenas de 14 comunidades participaram em um dos atos.

A Reuters informa que eles são contra o decreto assinado por Lula em agosto que define rios amazônicos como prioritários para navegação de carga e abre caminho para expansão de portos privados; além de uma licitação federal de 74,8 milhões de reais para gestão e dragagem de trechos do rio Tapajós. A líder munduruku Alessandra Korap classificou o plano como “um projeto de morte para matar nosso rio e nossos lugares sagrados”, enquanto o Ministério dos Portos defendeu a dragagem como necessária para “aumentar a segurança” e previsibilidade da navegação. Já o Ministério dos Povos Indígenas afirmou reconhecer a “legitimidade das preocupações” e que não pode haver dragagem sem consentimento; e o Ministério Público apontou “sérios riscos ambientais”, incluindo possibilidade de metais pesados (como mercúrio) e danos a habitats sensíveis.

‘Todos juntos para Todas’

A notícia é de ontem, mas dada a gravidade do tema, vale reforçar: o governo Lula lançou o Pacto Nacional contra o Feminicídio, apresentado como uma iniciativa “sem precedentes” para articular Executivo, Congresso e Judiciário num esforço permanente de prevenção e resposta à violência de gênero. A ANSA Latina descreve o pacto como um marco institucional que parte do diagnóstico de que a violência contra mulheres é uma crise estrutural e exige ação interinstitucional continuada.

No discurso, Lula usou um dado de forte impacto e fez um apelo político à sociedade: “cada seis horas uma mulher é assassinada em Brasil simplesmente por ser mulher”, e classificou como “inaceitável” a passividade social diante do problema. A agência também registra que o pacto combina medidas de proteção, reforço de redes locais de atendimento e responsabilização de agressores para reduzir impunidade.

O pacote visa acelerar a proteção (com redes territoriais mais robustas), ampliar iniciativas educativas e sustentar mecanismos de cobrança institucional — isto é, não tratar feminicídio como “caso isolado”, mas como resultado de padrões estruturais de violência. O slogan anunciado para a mobilização pública — “Todos juntos para Todas” — explicita que o governo quer ampliar o foco para além do aparato policial/judicial e puxar a responsabilidade social, com ênfase “especialmente nos homens”

Brasil–Cabo Verde

Brasil e Cabo Verde assinaram ontem, no Itamaraty, um novo Acordo de Previdência Social para proteger trabalhadores migrantes. A principal mudança, aponta Público Brasil, é a soma dos períodos de contribuição nos dois países — isto é, a pessoa poderá contabilizar tempo contribuído no Brasil e em Cabo Verde para acessar benefícios. Conforme o Ministério da Previdência do Brasil, isso vale para benefícios como aposentadoria por idade, aposentadoria por incapacidade e pensão por morte, incluindo proteção a dependentes. O chanceler cabo-verdiano José Luís Livramento afirmou que “proteção é fundamental para os trabalhadores dos dois países” e “é um avanço que o tempo de contribuição de um país seja somado ao de outro”. O texto agora seguirá para aprovação do Congresso Nacional e posterior promulgação, etapa necessária para entrar em vigor.

Cuba e a ordem genocida de Trump

Em entrevista ao Brasil 247, replicada pela Prensa Latina, o embaixador de Cuba no Brasil, Adolfo Curbelo, afirmou que a ordem executiva assinada por Donald Trump em 29 de janeiro — com foco em sufocar o abastecimento energético da ilha via sanções a países que forneçam petróleo — equivale a um “ato de genocídio”. Curbelo sustenta que impedir combustível significa atingir diretamente a vida cotidiana e serviços essenciais.

“Privar um país de energia elétrica significa afetar hospitais, alimentos e serviços essenciais, não há outro nome para isso que genocídio”, afirmou, apontando que Cuba depende fortemente da importação de hidrocarbonetos para geração de eletricidade, transporte, produção de alimentos e funcionamento hospitalar. Trump declarou “emergência nacional” em relação a Cuba e anunciou tarifas contra países que vendam petróleo à ilha, num contexto de escassez grave e apagões, enquanto Havana rejeita as justificativas de “ameaça” à segurança dos EUA. O presidente cubano Miguel Díaz-Canel disse que Cuba está disposta a dialogar com os EUA, desde que “sem pressões”, em condições de igualdade e respeito à soberania.

Camarões mortos em São Paulo

Um alto indíce de mortandade de camarões de água doce foi registrada às margens do rio Tietê, no município de Igaraçu do Tietê (SP), em área turística próxima à Hidrelétrica de Barra Bonita. Segundo a russa RT, os animais começaram a se acumular desde a segunda-feira e que equipes locais iniciaram a retirada dos crustáceos para reduzir impactos sanitários e ambientais. A empresa Auren Energia — responsável pela hidrelétrica — informou que não há conexão entre a usina (cuja eclusa estaria em manutenção preventiva) e o aparecimento dos animais mortos, e que notificou a Cetesb, órgão ambiental paulista, para apuração. A Cetesb recolheu amostras para identificar a causa da mortandade.

A hipótese inicial apontada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente é a redução do oxigênio dissolvido na água, condição que pode ser provocada por combinação de fatores climáticos e ambientais e também por interferência humana. O caso permanece sem causa confirmada publicamente. Análises laboratoriais estão em processo.

Tenta golpe e quer prisão domiciliar

A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro informou ao STF que o estado de saúde do réu piorou nos últimos dias e pediu que a Polícia Federal seja intimada a anexar, “com a máxima urgência”, o laudo de uma perícia médica realizada por equipe técnico-científica da corporação, informa La Nación.

Os advogados afirmam que Bolsonaro teve “episódios eméticos” (vômitos) e “uma crise de hipo acentuada”, sustentando que seu quadro está “fragilizado”, enquanto pressionam pela prisão domiciliar do ex-presidente. A perícia foi feita em 20 de janeiro, após determinação do relator, o ministro Alexandre de Moraes, e o documento ainda não havia sido incorporado aos autos mesmo após vencer o prazo de dez dias fixado.

Bolsonaro está preso desde 15 de janeiro no 19º Batalhão da Polícia Militar do DF (“Papudinha”), após condenação a 27 anos por tentativa de golpe de Estado.

Tagged: , , ,