Lula deve usar cúpula em defesa da democracia no Chile para condenar investida de Trump

O Brasil avalia formas de contra-atacar a guerra comercial declarada por Trump. O presidente Lula iniciou uma rodada de consultas com ministros e assessores assim que se soube que o presidente norte-americano aumentou em 50% as tarifas impostas às exportações brasileiras em retaliação ao julgamento realizado no Supremo Tribunal Federal contra Jair Bolsonaro, acusado de ser o líder de uma rebelião golpista. As reuniões foram realizadas desde a tarde de quarta-feira até a noite de domingo no Palácio do Planalto e na residência oficial do Alvorada. Ao mesmo tempo, o encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos foi convocado ao Ministério das Relações Exteriores, onde foi transmitido o repúdio oficial à chantagem de Washington em favor da impunidade de Bolsonaro, o líder sedicioso.
Um dos fóruns internacionais em que Lula repudiará a investida trumpista será a cúpula em defesa da democracia e contra o extremismo, a ser realizada em 21 de julho no Chile, convocada pelo presidente Gabriel Boric. Outra área, que está sendo avaliada atualmente, é a Assembleia Geral da ONU, em setembro, à margem da qual Lula poderia se reunir com líderes do Brics, cujo principal membro, a China, questionou a interferência dos EUA na política interna brasileira por meio de pressão tarifária. O pronunciamento de Pequim merece ser analisado com cuidado, e considerando que o mau humor do milionário republicano não começou com o julgamento de Bolsonaro, mas com a 17ª Reunião de Presidentes dos Brics, que terminou na última segunda-feira no Rio de Janeiro, onde foi acordado avançar no comércio baseado em moedas locais, e substituir gradualmente o uso do dólar. Uma proposta inaceitável para Trump. (Página 12)
KRUGMAN x TRUMP
A ameaça do presidente Trump de impor tarifas mais altas ao Brasil é “grotescamente ilegal”, diz o economista ganhador do Prêmio Nobel Paul Krugman. A carta ao Brasil citava a política brasileira e dizia que havia uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente de extrema direita do Brasil, Jair Bolsonaro, que atualmente está sendo julgado por tentar anular as eleições de 2022 no país. Trump exigiu que o caso fosse arquivado ou os EUA imporão uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras.
Krugman disse ao Morning Edition que “não gostar do sistema judiciário de um país” não é uma exigência típica feita em acordos comerciais ou um motivo estabelecido pela legislação dos EUA para impor tarifas.
“Desta vez, ele está propondo tarifas mais altas do que as originais. Isso não soa como uma pessoa que está prestes a voltar à política comercial normal”, disse Krugman. A entrevista com Krugman é longa, no estilo “ping pong”. (NPR – National Public Radio, rede de rádio pública americana)
MOTIVO DO TARIFAÇO
Houve muita especulação sobre os motivos por trás da decisão e do momento da decisão de Trump, com alguns observadores afirmando a proximidade com a recente reunião dos países do BRICS, que já havia atraído a ira de Trump. Outros argumentaram que se tratava de uma medida protetora para defender os principais setores dos EUA, como o aço, que têm enfrentado dificuldades contínuas contra produtos mais baratos do Brasil. A resposta mais clara, no entanto, veio do próprio Trump.
Em uma carta a Lula, o presidente dos EUA indicou que sua principal queixa com o Brasil é, na verdade, o julgamento que o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro enfrenta na mais alta corte do país. O ex-mandachuva da extrema direita é acusado de se recusar a reconhecer o resultado da última eleição presidencial em outubro de 2022 e por supostamente ter liderado uma tentativa de golpe contra as instituições democráticas e o estado de direito em janeiro de 2023. Se condenados, Bolsonaro e alguns de seus colaboradores mais próximos poderão enfrentar longas penas de prisão. E Steve Bannon, ex-conselheiro de Trump, líder de torcida ativo e principal canal entre o campo de Trump e Bolsonaro, foi ainda mais contundente do que o presidente dos EUA. Em uma entrevista a um dos principais sites de notícias do Brasil, ele declarou: “Parem o julgamento e nós reverteremos as tarifas”. (The Conversation)
CONSELHEIRO DE TRUMP
O conselheiro econômico de Donald Trump, Kevin Hassett, teve dificuldades para justificar a lógica das novas tarifas “punitivas” sobre as importações do Brasil durante uma aparição no programa This Week da ABC. O apresentador Jonathan Karl questionou a justificativa por trás do novo imposto de 50% sobre os produtos brasileiros, destacando o superávit comercial de US$ 6,8 bilhões com o Brasil no ano passado e observando que os EUA não têm um déficit comercial com o Brasil desde 2007. “Então, por que, por que, por que estamos impondo uma tarifa punitiva de 50% ao Brasil?”, perguntou Karl.
Hassett, falando do gramado norte da Casa Branca, começou: “Bem, o ponto principal é que o presidente ficou muito frustrado com as negociações com o Brasil e também com as ações do Brasil. No final das contas, porém, estamos tentando colocar os Estados Unidos em primeiro lugar. Acho que muitas pessoas, quando estou conversando com negociadores de outros países, em algum momento eles perguntarão: ‘O que fizemos de errado?
“A mensagem que estamos tentando transmitir é que os Estados Unidos estão se preparando para a era de ouro, colocando nossa casa em ordem, nossa política tarifária, comercial e tributária exatamente onde precisa estar para uma era de ouro”, continuou. “E, normalmente, não se trata necessariamente de um país específico, mas no caso do Brasil, trata-se. Suas ações chocaram o presidente em alguns momentos, e ele (…) foi claro sobre isso.” Karl atacou, observando que o presidente foi explícito quanto ao motivo pelo qual está impondo um imposto tão alto ao Brasil. (Independent)
Outra reportagem sobre a entrevista de Jonathan Karl, da ABC, no programa “This Week”, Kevin Hassett argumentou que as tarifas sobre o Brasil são necessárias não por causa de um déficit comercial, mas sim para enviar uma mensagem sobre o descontentamento de Trump com o tratamento dado pelo país ao ex-presidente Jair Bolsonaro. (Político)
BARROSO REAGE
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, disse que “as sanções” anunciadas por Donald Trump se baseiam em uma “compreensão imprecisa” dos fatos, porque no Brasil não há censura e o julgamento de Jair Bolsonaro está ocorrendo com “absoluta transparência”. Em uma carta aberta, publicada na segunda-feira no site do tribunal, o magistrado refutou a tarifa adicional de 50% que Trump pretende aplicar a partir de 1º de agosto às importações brasileiras por razões principalmente políticas. “Diferentes visões de mundo em sociedades abertas e democráticas fazem parte da vida, e isso é uma coisa boa. Mas elas não dão a ninguém o direito de distorcer a verdade ou negar fatos concretos que todos viram e vivenciaram”, disse. (Clarín)
GOLPISTAS NA MIRA
O Ministério Público brasileiro entra na fase final do julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe
A Procuradoria Geral da República (PGR) do Brasil marcou o início da fase final do processo criminal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete réus na segunda-feira, por uma suposta tentativa de golpe para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva após as eleições de 2022. (Nodal)
MILEI DIZ QUE LEVA A MELHOR
Milei se desvincula da briga entre Trump e Lula e está confiante em chegar a um acordo tarifário com os Estados Unidos. O governo argentino diz que a disputa “não afeta” as negociações com a administração republicana; eles temem uma “cunha” no Mercosul. Além disso, as autoridades dizem que a disputa pode impulsionar ainda mais as negociações entre os EUA e a Argentina, que já obteve permissão de seus pares do Mercosul para negociar 50 isenções adicionais à Tarifa Externa Comum (CET), uma barreira comum à entrada de produtos importados no bloco regional.(La Nación)
ANÁLISE SOBRE O BRICS
“Brasil: o desafio de sustentar seu próprio projeto para a região e o mundo” é o título da análise publicada pelo Centro Latino Americano de Análise Estratégica, que trata sobre a recente reunião do Brics.

Jornalista, ex-Folha, Reuters e Valor Econômico. Participei da cobertura de posses presidenciais, votações no Congresso, reuniões ministeriais, além da cobertura de greves de trabalhadores e de pacotes econômicos. A maior parte do trabalho foi no noticiário em tempo real. No Fórum 21, produzo o Focus 21, escrevo e edito os textos dos analistas.
