Lula e Trump conversam por três horas na Casa Branca

Lula e Trump conversam por três horas na Casa Branca

Presidente brasileiro propôs grupo de trabalho para resolução de impasses comerciais; tarifas, big techs e terras raras foram pauta do encontro. (Ricardo Stuckert/PR)

POR TATIANA CARLOTTI

O encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu homólogo nos Estados Unidos, Donald Trump, foi noticiado pelos principais jornais internacionais nesta quinta (07). Lula deixou a Casa Branca após três horas de conversa com o mandatário norte-americano, iniciada às onze horas (horário local). Depois, eles almoçaram com ministros e integrantes das equipes econômicas e diplomáticas.

“Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o muito dinâmico presidente do Brasil. Discutimos diversos temas, incluindo comércio e, especificamente, tarifas”, publicou Trump nas redes sociais.”A reunião foi muito produtiva. Nossos representantes têm reuniões agendadas para discutir alguns pontos-chave. Outras reuniões serão agendadas nos próximos meses, conforme necessário”, acrescentou.

Não houve coletiva conjunta entre os presidentes, mas Lula conversou com a imprensa após o encontro. Disse ter proposto um grupo de trabalho entre os ministérios do Comércio de ambos os países para que eles apresentem uma proposta sobre os impasses comerciais entre os dois países, em 30 dias. “Quem estiver errado vai ceder. Se a gente tiver que ceder, nós vamos ceder”, afirmou.

Ele negou ter proibido a entrada das gigantes tecnológicas no país. “O que nós queremos é o seguinte: entra qualquer plataforma de qualquer país do mundo no Brasil se houver a regulamentação soberana do Brasil. Era necessário vir aqui para dizer isso”, afirmou. Sobre terras raras, ele defendeu “que o Brasil seja o grande ganhador dessa riqueza que a natureza nos deu”. Lula disse que pix e eleições não entraram em discussão. Sobre Cuba, disse a Trump estar inteiramente à disposição para discutir. “Ele disse, pelo que ouvi da intérprete, que ele não pensa em invadir Cuba. Isso foi dito pela intérprete. Isso é um grande sinal, até porque Cuba quer dialogar”, afirmou.

“Acho que foi uma reunião importante para o Brasil e importante para os Estados Unidos”, afirmou, ao brincar com os jornalistas: ” o presidente brasileiro. “a fotografia é importante. Perceberam que o presidente Trump rindo é melhor do que ele de cara feia?”. De acordo com a Bloomberg, participaram do encontro o secretário do Tesouro, Scott Bessent, o secretário de Comércio, Howard Lutnick, e o representante comercial Jamieson Greer. Pelo lado brasileiro, esteve presente o ministro da Fazenda, Darío Durigan, entre outros integrantes do governo Lula.

A Reuters também cobriu o evento, mas o destaque é para reportagem publicada pela agência sobre o papel do empresário brasileiro Joesley Batista, um dos controladores da JBS, para a articulação do encontro.

BRASIL, PRINCIPAL DESTINO DE INVESTIMENTOS CHINESES

No mesmo dia em que Lula e Trump se encontraram, o jornal de Hong Kong, South China Morning Post, traz os dados de um relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CBBC) que aponta o Brasil como principal destino dos investimentos chineses em 2025. Eles tiveram alta de 45% em relação ao ano anterior. Ao todo, US$ 6,1 bilhões foram injetados pela China em 52 projetos no país. Ao longo desse período, o Brasil absorveu 10,9% do capital externo chinês, superando os Estados Unidos. Esses investimentos estão espalhados em 20 estados brasileiros e abrangem setores como mineração, energia, tecnologia e indústria automotiva.

Os recursos para mineração, responsável por 28% do investimento chinês no país, mais que triplicaram com a presença de empresas como CMOC, MMG e Baiyin Nonferrous que adquiriram minas de ouro, cobre e níquel. No setor automotivo, o destaque é a montadora BYD, que dominou 72% das vendas de veículos eletrificados no ano passado. Na área de tecnologia, houve expansão com empresas como a plataforma de entregas Keeta, ligada à Meituan, e DiDi no setor de delivery.

CONTROLE SOBRE AS TERRAS RARAS

A Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (06/04) um projeto de lei sobre o setor de terras raras e minerais críticos, considerados estratégicos para a indústria tecnológica e militar. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China. France 24 destaca que o projeto foi aprovado com apoio de parlamentares do governo e da oposição e que ainda precisará passar pelo Senado.

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Lula levou o tema a Trump na conversa desta tarde na Casa Branca. “Disse ao presidente [Donald] Trump que não só fizemos uma coisa extraordinária aprovando na Câmara ontem a lei sobre a questão dos minerais críticos, como a aprovação de um Conselho sob a coordenação da Presidência da República, tratando a questão dos minerais críticos como uma questão de soberania nacional”, relatou.

A proposta estabelece a criação de um Fundo Garantidor da Atividade Mineral (FGAM), que pode girar em torno de R$ 5 bilhões; e um Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (Cimce) responsável pela atualização da lista das substâncias e indicação dos projetos que devem receber investimentos.

Reações

Como informa a Agência Câmara de Notícias, o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) apontou avanços no texto, como o prazo máximo para autorização de pesquisa em áreas com minerais críticos ou estratégicos. O líder do PT, deputado Pedro Uczai (SC), reforçou posição da legenda em defesa da criação de uma empresa pública para gerir essa política. “Queremos Terrabras que efetivamente produza ciência e inovação”, declarou.

O deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) também defendeu a criação da estatal: “hoje estamos dando um passo importante, mas insuficiente. Em um Congresso mais progressista, vamos ter a convicção da necessidade de defender o interesse nacional de criação da Terrabras, uma empresa que possa efetivamente fazer o que a Petrobras fez com o petróleo e a Embrapa com a agricultura”. A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) criticou a falta de limites da atuação do capital estrangeiro na exploração desses minerais. “O mundo quer botar a mão aqui. Quer tirar a nossa riqueza em benefício da sua tecnologia e da sua soberania, não a nossa. Estamos falando de transição digital, energética, defesa nacional, ambiental. São questões definidoras da geopolítica mundial”, alertou.

Em nota, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) criticou a proposta. A entidade afirma que “sob o discurso do desenvolvimento econômico e da transição energética, estruturam políticas públicas com potencial de impactar significativamente territórios indígenas, sem incorporar de forma adequada mecanismos de proteção e participação”. Segundo a Apib, o projeto poderá “enfraquecer regras de proteção socioambiental, causar violações de direitos humanos, ampliar conflitos territoriais e disputas judiciais e reforçar um modelo de exploração com baixo valor agregado”, dificultando “o alinhamento da política mineral com as metas climáticas do país”.

As terras raras são usadas na fabricação de turbinas eólicas, veículos elétricos, baterias, equipamentos eletrônicos e armamentos. A votação ocorre dias após a venda da mineradora brasileira Serra Verde para a empresa norte-americana USA Rare Earth por cerca de US$ 2,8 bilhões. A negociação criticada por Lula teve consentimento do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que disputa a Presidência da República.

BUSCA E APREENSÃO EM ENDEREÇOS LIGADOS A CIRO NOGUEIRA

A Polícia Federal realizou nesta manhã mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao senador Ciro Nogueira no âmbito da investigação que realiza sobre o extinto Banco Master. Nogueira é presidente do partido Progressistas (PP) e foi ministro da Casa Civil durante o governo Bolsonaro. Como destaca a Reuters, a PF investiga a atuação do senador em benefício do banqueiro Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, “em troca de vantagens econômicas indevidas”. O ex-ministro de Bolsonaro teria recebido pagamentos mensais, inicialmente de R$ 300 mil e posteriormente, R$ 500 mil. São citados empréstimo de imóvel de luxo, viagens internacionais, hospedagens, restaurantes e voos privados, acrescenta a Bloomberg. Os advogados de Nogueira afirmam que ele irá colaborar com as autoridades e que não participou de atividades ilícitas.

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