Eleições 2026: Lula amplia vantagem na corrida presidencial
Pesquisas eleitorais, pressões de Trump, disputa pelo Pix e retrocessos nos direitos das meninas vítimas de violência sexual colocam o Brasil no centro das atenções da imprensa internacional. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
POR JOANNE MOTA
O Brasil voltou a ocupar as manchetes internacionais nesta sexta (5), em um momento em que disputas eleitorais, soberania nacional, sistema financeiro e direitos humanos se entrelaçam em uma mesma encruzilhada histórica.
Enquanto pesquisas apontam a ampliação da vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro, cresce a pressão da administração Trump sobre o país, avançam os embates em torno do Pix e se aprofundam as críticas à atuação do Senado brasileiro após a revogação de normas de proteção a crianças vítimas de violência sexual.
Lula na frente…
Segundo levantamento divulgado pela revista Exame e repercutido pela agência italiana ANSA, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliou sua vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro na disputa presidencial de outubro. A pesquisa do instituto Vox Brasil mostra Lula com 42,1% das intenções de voto contra 33,6% do candidato do Partido Liberal. O dado mais significativo é a evolução dos números: Lula avançou 7,8 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior, enquanto Flávio Bolsonaro recuou 2,9 pontos.
O resultado surge poucos dias após a visita do senador brasileiro aos Estados Unidos, onde foi recebido por Donald Trump e pelo secretário de Estado Marco Rubio. O encontro foi interpretado por diversos analistas como uma tentativa de internacionalizar a campanha bolsonarista e fortalecer seus vínculos com setores da extrema direita norte-americana. A ANSA destaca que este foi justamente “o primeiro levantamento realizado após a viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos”, elemento que inevitavelmente passou a integrar a leitura política do cenário eleitoral brasileiro.
Embora os números favoreçam Lula, a pesquisa também revela um ambiente de forte polarização. Segundo o levantamento, 49,2% dos entrevistados afirmaram que não votariam no atual presidente em hipótese alguma, enquanto 48,3% rejeitam Flávio Bolsonaro. O quadro desenha uma eleição marcada por disputas de projetos nacionais antagônicos. De um lado, a defesa da soberania, da integração Sul Global e do fortalecimento do Estado; de outro, a retomada da agenda ultraliberal e do alinhamento automático aos interesses de Washington, marca registrada do bolsonarismo desde 2018.
Disputa geopolítica continental
A crescente intervenção dos Estados Unidos na conjuntura brasileira também chamou a atenção da imprensa internacional. Em reportagem da agência espanhola EFE, a administração Trump aparece como um ator cada vez mais presente na disputa política brasileira. A reportagem destaca que Washington ampliou as pressões sobre Brasília ao combinar ameaças tarifárias, questionamentos comerciais e novas medidas de segurança envolvendo organizações criminosas brasileiras. O movimento ocorre justamente durante o período eleitoral.
Para Benjamin Gedan, diretor do Programa para América Latina do Stimson Center, ouvido pela EFE, “é difícil entender a estratégia dos Estados Unidos para o Brasil, se é que ela existe”. O analista observa que Trump alterna gestos de aproximação com Lula e sinais de apoio à oposição conservadora. A agência recorda que o presidente norte-americano recebeu Lula na Casa Branca em maio, encontro considerado positivo por ambas as partes. Poucas semanas depois, porém, recebeu Flávio Bolsonaro em reunião amplamente explorada politicamente pela família Bolsonaro.
A EFE ressalta ainda que Trump já havia tentado interferir nos assuntos internos brasileiros ao pressionar contra os processos judiciais que culminaram na condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. A aproximação ideológica entre o ex-presidente brasileiro e Trump permanece como um eixo estruturante da extrema direita continental. Mais do que uma simples disputa eleitoral, o que emerge é uma batalha geopolítica. O Brasil tornou-se um espaço estratégico na disputa entre projetos de integração soberana do Sul Global e a tentativa norte-americana de preservar sua influência sobre a maior economia da América Latina.
Disputa silenciosa do financeiro…
Talvez nenhuma reportagem sintetize melhor os conflitos contemporâneos envolvendo o Brasil do que a análise publicada pela emissora russa RT, que relaciona a ofensiva de Washington contra organizações criminosas brasileiras a uma disputa mais ampla pelo controle do sistema financeiro. A matéria destaca a entrada em vigor da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras pelos Estados Unidos. Embora apresentada como medida de combate ao crime organizado, a decisão gera preocupações sobre possíveis impactos financeiros e comerciais sobre instituições brasileiras.
Segundo a RT, há receio de que a nova classificação abra caminho para sanções extraterritoriais e para uma ampliação da influência norte-americana sobre operações financeiras realizadas em território brasileiro.
A reportagem recorda que o sistema Pix já é alvo de investigação da Representação Comercial dos Estados Unidos (USTR). Empresas como Visa e Mastercard argumentam que o modelo brasileiro altera as condições de concorrência por ser administrado pelo Banco Central e oferecer custos significativamente menores.
O texto destaca que Lula respondeu diretamente aos ataques afirmando: “O Pix é nosso. É do Brasil e do povo brasileiro”. A declaração sintetiza uma disputa que vai muito além dos meios de pagamento e alcança o terreno da soberania tecnológica.
Especialistas ouvidos pela RT observam que “a disputa vai muito além das comissões”. O controle de dados, autenticação, serviços financeiros e infraestrutura digital tornou-se um dos principais campos de disputa do século XXI. Nesse contexto, a expansão internacional do Pix e os debates sobre alternativas ao dólar dentro do BRICS transformam o sistema brasileiro em um símbolo da busca por autonomia econômica frente à hegemonia financeira norte-americana.
Um Senado da vergonha
A decisão do Senado brasileiro de revogar a resolução do Conanda que regulamentava o atendimento humanizado a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual também ganhou repercussão internacional. O episódio ocorreu após uma tramitação extremamente acelerada do Projeto de Decreto Legislativo 3/2025, relatado pela senadora Damares Alves. Em poucos minutos, o plenário aprovou a suspensão da norma que orientava procedimentos já previstos pela legislação brasileira para casos de aborto legal decorrente de estupro.
Conforme destacou o próprio Conanda, a resolução não criava novos direitos. Segundo a nota do órgão, “a norma não inovou na ordem jurídica. Apenas disciplinava procedimentos e responsabilidades institucionais voltados à garantia de direitos já assegurados em lei”.
A reação de entidades de direitos humanos foi imediata. A campanha Criança Não é Mãe afirmou que “não se trata de corrigir uma resolução, mas de impedir que meninas vítimas de estupro tenham acesso a um atendimento organizado, seguro e sem constrangimentos”. O episódio expõe uma contradição profunda da atual composição do Senado. Enquanto o país debate desenvolvimento, soberania tecnológica e inserção internacional, parcela significativa do Parlamento atua para restringir direitos já consolidados, especialmente aqueles relacionados à proteção de meninas vítimas de violência sexual.
A controvérsia tende a permanecer no centro do debate público ao longo da campanha eleitoral, simbolizando a disputa entre projetos de sociedade que atravessa o Brasil contemporâneo: de um lado, a ampliação de direitos e a proteção integral da infância; de outro, o avanço de agendas conservadoras que encontram forte representação no Congresso Nacional.
Seguimos acompanhando o debate. Até a próxima!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
