‘Lula pode falar comigo quando quiser’, diz Trump

Por Tatiana Carlotti
Nesta sexta-feira (01/08), ao ser questionado se estaria aberto a negociar com o presidente Lula para rever a imposição de tarifas comerciais de 50% sobre os produtos brasileiros, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou aos repórteres: “ele pode falar comigo quando quiser. Vamos ver o que acontece, mas eu amo o povo do Brasil”. Nesta quinta-feira (31/07), Trump anunciou novas tarifas que atingem a economia de mais de 90 nações.
A resposta do republicano chega após o New York Times publicar uma entrevista com Lula em que ele afirma que ninguém da Casa Branca até agora quis conversar. “Pedi para fazer contato. Designei meu vice-presidente, meu ministro da agricultura, meu ministro da economia, para que cada um possa conversar com seu homólogo para entender qual era a possibilidade de conversa. Até agora, não foi possível”, relatou Lula. Ele contou que o governo brasileiro já realizou 10 reuniões com o Departamento de Comércio dos EUA.
SUPREMO
Nesta manhã, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) também se manifestaram sobre as tarifas de 50%, apresentadas como uma represália pelo julgamento do ex-presidente e réu Jair Bolsonaro. “Ainda este semestre, nós julgaremos todos os responsáveis. Absolvendo aqueles onde não houver prova de responsabilidade, condenando aqueles onde houver prova. Mas julgando, exercendo nossa função jurisdicional. E não nos acovardando em virtude de ameaças, seja daqui ou de qualquer outro lugar”, respondeu o ministro Alexandre de Moraes (STF).
Suas palavras ecoaram na imprensa internacional nesta sexta-feira. O Financial Times destacou que “as medidas dos EUA não têm precedentes contra um governo estrangeiro democraticamente eleito” e que “foram rejeitadas por Lula como interferência inaceitável no sistema de justiça soberano do Brasil”. O jornal também apontou a “feroz campanha de lobby em Washington pelo filho de Bolsonaro, Eduardo, deputado federal, por medidas punitivas contra o Brasil para ajudar seu pai, condenado por Moraes na sexta-feira”. Assim que Trump anunciou as taxas, Eduardo agradeceu pela cobrança.
The Guardian também trouxe uma reportagem sobre o caso, intitulada “Juiz brasileiro rebate plano ‘covarde e traiçoeiro’ por trás das sanções dos EUA”. O texto destaca que Moraes foi sancionado na última quarta-feira pelos EUA e teve seu visto cassado, junto a outros membros da Corte. A reportagem termina com uma síntese do cientista político Steven Levitsky, de Harvard: “neste momento, o Brasil é mais democrático que os Estados Unidos”, aponta ao jornal britânico.
Já a cubana Prensa Latina destaca que o governo Lula “entra nessa nova ofensiva comercial com sinais de força política e econômica que amenizam o impacto inicial e traçam uma resposta estratégica ao desafio. Em meio ao crescente protecionismo dos EUA impulsionado pelos republicanos, o governo está reformulando sua posição internacional, demonstrando coesão e serenidade internas”.
Associated Press, por sua vez, divulgou um vídeo sobre os protestos que aconteceram ao longo desta sexta-feira, em São Paulo, contra o tarifaço de Trump. As imagens incluem bonecos de Trump e Bolsonaro, além da clássica queima da bandeira norte-americana.
Enquanto isso…
A imagem de Lula melhorou entre os brasileiros. Segundo a última pesquisa da Atlas Intel, o presidente obteve uma imagem 51% positiva e sai vitorioso em todos os cenários eleitorais para 2026, com ampla vantagem sobre Tarcísio, Bolsonaro, Zema, Caiado…
O presidente conquistou 50,2% de aprovação ante 49,7% de desaprovação. A última vez que isso ocorreu foi em outubro de 2024, informa La Politica Online. O avanço é de 4 pontos percentuais entre junho e julho e está diretamente vinculado à defesa da soberania frente aos ataques de Trump. A pesquisa também aponta que a corrupção é vista como o maior problema do país para 55% dos brasileiros, seguida de criminalidade e tráfico de drogas (42%), extremismo e polarização política (22,2%), enfraquecimento da democracia (22,2%) e economia e inflação (21%).
Queda dos homicídios
Le Monde traz uma reportagem sobre a queda no número de homicídios no Brasil, que registrou o menor nível desde 2012. “Esse resultado pode ser atribuído às iniciativas de segurança pública tomadas pelo governo do presidente Lula, mas também à calmaria entre as principais facções criminosas do país, bem como ao envelhecimento da população”, afirma a reportagem. Os dados foram divulgados no último dia 24/07 pela ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Em 2024, foram registrados 44.127 homicídios no país, uma queda de 5,4% em relação a 2023 e de 25% em relação a 2012. Apesar disso, 52% dos brasileiros têm a impressão de que a segurança piorou no atual governo em comparação com o governo anterior.
Venezuela
Nodal reporta o encontro entre a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, com a embaixadora do Brasil, Glivânia María de Oliveira, para revisar a agenda entre as duas nações. Na última semana, um erro no sistema operacional fez com que a Venezuela voltasse a tributar produtos brasileiros que contam com isenção no país.
Cubanos
Cuban News Agency informa que cubanos residentes no Brasil doaram medicamentos para a Ilha. Segundo o Ministério das Relações Exteriores de Cuba, a doação foi um “ato cheio de amor”.
Em tempo:
A RT traz uma análise de Kanwal Sibal, secretário de Relações Exteriores aposentado da Índia e ex-embaixador na Rússia entre 2004 e 2007, sobre a taxação e o revide dos BRICS. O artigo intitulado “Os velhos truques de Trump encontram o novo mundo” aponta que a postura agressiva de Washington revela uma interpretação errada do mundo multipolar.
O cientista político Sebastião Velasco e Cruz vem publicando uma série de artigos imperdíveis sobre as relações transatlânticas no Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU).

Foto de capa: Casa Branca/ Flickr

Tatiana Carlotti é repórter do Fórum 21 desde 2022. Também trabalha em Ópera Mundi e atuou por oito anos nos veículos progressistas Carta Maior (2014-2021) e Blog Zé Dirceu (2006-2013). Tem doutorado em Semiótica (USP) e mestrado em Crítica Literária (PUC-SP).
