Lula volta a criticar Trump: ‘governa o mundo pelas redes sociais’
Críticas de Lula a Trump, rumos do Mercosul, combate ao narcotráfico e o triste fim dos orelhões no Brasil são alguns dos destaques da imprensa internacional sobre o Brasil nesta terça-feira, 20 de janeiro de 2026.
POR TATIANA CARLOTTI
Nesta terça-feira (20/01), o presidente Lula voltou a criticar o mandatário dos Estados Unidos, Donald Trump, que após vem promovendo uma campanha pela anexação da Groenlândia, território há 300 anos pertencente à Dinamarca. “Vocês já perceberam que o presidente Trump quer governar o mundo pelo Twitter?”, questionou o líder brasileiro, durante um discurso no Rio Grande do Sul, onde entregou mais de 1.200 unidades do Minha Casa, Minha Vida.
“É fantástico: todo dia ele fala uma coisa, e todo dia o mundo fala dessa coisa que ele falou. Todo dia. Vocês acham que isso é possível?”, apontou Lula, que aproveitou o ensejo para alertar a população sobre o papel das redes sociais na disseminação de mentiras e na manipulação da opinião pública, conforme destaca a agência ANSA.
Um exemplo disso é a imagem publicada nesta terça-feira por Trump em sua Truth Social, em que ele finca uma bandeira norte-americana sobre a Groenlândia, em meio as ameaças aos países europeus, incluindo sanções tarifárias contra as nações que se opõem em sua intenção de controlar o território no Ártico.
Esta é a segunda crítica pública do presidente brasileiro a Trump nesta semana. No domingo (18/01), Lula publicou um artigo no The New York Times, condenando o ataque norte-americano à Venezuela, em 3 de janeiro, que culminou no sequestro e prisão do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama do país, Cilia Flores.
No artigo, o presidente brasileiro reitera o risco da normalização de ações militares como instrumento de política externa. “Quando o uso da força para resolver disputas deixa de ser exceção e passa a ser regra, a paz, a segurança e a estabilidade globais ficam ameaçadas”, diz. Lula adverte que as grandes potências vêm corroendo o sistema internacional, a começar pela autoridade da ONU e do seu Conselho de Segurança.
“Se as normas são seguidas apenas de forma seletiva, instala-se a anomia, que enfraquece não apenas os Estados individualmente, mas o sistema internacional como um todo”, afirmou. O artigo diz ser “particularmente preocupante” que práticas desse tipo estejam sendo aplicadas à América Latina e ao Caribe, destacando que “em mais de 200 anos de história independente, esta é a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos”.
Mercosul
Após o polêmico acordo Mercosul-União Europeia, que vem gerando protestos dos agricultores europeus e boas críticas da intelectualidade brasileira, o presidente Lula passou a defender um novo tratado de livre comércio do bloco regional com o Canadá. A informação é do jornal Valor Econômico que afirma que as expectativas estariam avançadas no Itamaraty, visando negociações ainda neste ano, destacando a agenda no próximo mês entre o presidente Lula e o premiê canadense Mark Carney.
La Política Online salienta, no entanto, que a proposta do governo brasileiro poderá gerar atritos entre o presidente argentino Javier Milei e Donald Trump, que vem pressionando o premiê canadense por conta de suas relações com a China. Nesta semana, Carney afirmou que a relação com o país asiático é “mais previsível” do que com os Estados Unidos de Trump, apostando suas fichas na redução da dependência canadense dos norte-americanos, em um discurso alinhado com a defesa do multilateralismo.
Enquanto isso, informa La Nación, Milei prometeu encaminhar com agilidade o acordo Mercosul–UE no Congresso argentino. O líder da extrema direita argentina encontra-se na presidência do bloco, desde a saída de Lula em dezembro do ano passado, e quer que a Argentina seja o primeiro país do bloco a aprovar o acordo, se possível, ainda este mês. No Brasil, a previsão é que a pauta seja votada em fevereiro.
A Casa Rosada e os blocos libertários demonstram otimismo com a aprovação pelo Congresso, onde Milei amargou perdas importantes em 2025, apesar de vencer as eleições de meio de mandato, garantindo a continuidade dos empréstimos de Washington que sustentam o seu mandato. Segundo os políticos argentinos alinhados ao governo, a aprovação ocorrerá “sem problemas”, afinal, trata-se de um acordo em “que trabalharam todos os governos” para além de disputas partidárias.
Turismo em alta
O turismo no Brasil está em alta. Dados divulgados pela ONU Turismo revelam um aumento global do turismo internacional em 4% no ano passado, atingindo 1,52 bilhão de viagens, o maior nível da história. O equatoriano El Mercurio informa que as receitas do setor subiram 5%, chegando a US$ 1,9 trilhão, com forte dinamismo na África e na Ásia. No recorte regional, o Brasil teve um desempenho especialmente relevante, com aumento de 37% nas chegadas, impulsionando a alta de 7% registrada pela América do Sul, com 39,2 milhões de chegadas internacionais.
Para 2026, a expectativa é de crescimento de 3% a 4% no turismo internacional, impulsionado por mercados emergentes e grandes eventos, apesar dos riscos geopolíticos, dos conflitos em curso e das mudanças climáticas.
PAUTA POLICIAL
Narcotráfico – A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (20/01) a Operação Expurgo voltada à desarticulação de uma rede de tráfico transnacional de drogas que atuava em São Paulo e no Mato Grosso do Sul. Reportagem da cubana Prensa Latina informa que hoje foram cumpridos 12 mandados de prisão e 24 ordens de busca e apreensão nas cidades paulistas de Piracicaba, Limeira, Americana, Santa Bárbara d’Oeste, Botucatu e São Paulo, e também em Corumbá no Mato Grosso do Sul.
A investigação começou em janeiro de 2025, após a apreensão de 17 quilos de cocaína em Limeira, que resultou na prisão de 15 pessoas. A droga vinha de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) e era transportada pelas chamadas “mulas”, pessoas que ingerem cápsulas com drogas, em viagens de ônibus até São Paulo. O Primeiro Comando da Capital (PCC) estaria envolvido no crime. Uma pessoa morreu baleada durante o confronto com policiais durante o cumprimento de ordem judicial em Limeira.
Bolsonaro – Em artigo no britânico The Conversation, a cientista política Tassiana Moura de Oliveira analisa a flexibilização das condições da prisão do golpista Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal. Em 15 de janeiro, ele foi transferido para uma cela maior, com sala de estar, cozinha e quarto. Para a pesquisadora, a decisão seria “emblemática” de uma abordagem do STF que busca, simultaneamente, administrar pressões públicas e reduzir margem de manobra da defesa de Bolsonaro. Ela sustenta que as queixas recorrentes do ex-presidente sobre o regime de detenção se conectariam ao objetivo central dos advogados: diminuir a pena ou obter prisão domiciliar.
Zambeli – A Agência Brasil informa que a Corte de Apelação de Roma adiou mais uma vez o julgamento sobre o pedido de extradição da ex-deputada Carla Zambelli para o Brasil. O tribunal italiano considerou que não houve tempo o bastante para analisar as informações enviadas pelo governo brasileiro. Ela deverá cumprir pena na Penitenciária Feminina do Distrito Federal. O caso deverá ser retomado na primeira quinzena de fevereiro.
Racismo – A advogada argentina Agostina Páez, acusada do crime de racismo após imitar um “macaco” ao se dirigir a um cidadão afrodescendente durante a saída de uma boate no Rio de Janeiro, deixou o hotel onde estava hospedada. Seu advogado alegou relatos de intimidação e temor por sua segurança. Segundo o uruguaio Ámbito, a defesa irá revisar as evidências do crime de racismo e apresentar habeas corpus para viabilizar o retorno da advogada ao seu país. A polícia determinou o uso de tornezeleira eletrônica com prazo de cinco dias e a apreensão do seu passaporte.
“Vamos solicitar o sequestro dos vídeos do incidente do 14 de janeiro, já que o contexto é diferente do que enfrentamos com nossa cliente”, afirmou o advogado de Páez, alegando que ela permanece “quase detida em circunstâncias adversas e confusas”. As imagens que circularam nas redes sociais, no entanto, não deixam dúvidas quanto ao crime de racismo praticado pela argentina.
COISA NOSSA
É o fim dos orelhões no Brasil. Reportagem da russa RT informa que os telefones públicos, os chamados “orelhões”, começarão a ser retirados de forma definitiva do país, a partir deste ano, num processo que deve se encerrar até 2028. Ainda existem cerca de 37 mil aparelhos nas ruas brasileiras: mais de 33 mil em operação e outros 4 mil em manutenção.
A retirada gradual marca o fim de um mobiliário urbano que se tornou símbolo brasileiro por décadas, afirma a reportagem que recupera a história do equipamento. Instalados a partir de 1971, o orelhão foi projetado pelo arquiteto sino-brasileiro Chu Ming Silveira, que desenhou uma cabine externa em forma de “grande orelha”, com objetivo de melhorar a acústica e evitar que o ruído externo atrapalhasse as chamadas. No ano passado, o governo brasileiro encerrou as concessões de telefonia fixa das cinco empresas que operavam os dispositivos: Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefônica.
Ainda dá tempo de tirar uma foto.

Imagem de capa: gerada por IA e postada por Trump em sua Truth Social

Tatiana Carlotti é repórter do Fórum 21 desde 2022. Cobre política e cultura, confira aqui.
