Misoginia trumpista escancara preconceito contra as brasileiras

Insulto misógino de conselheiro de Trump contra brasileiras expõe preconceitos estruturais, abuso de poder e o avanço do discurso de ódio. (Foto: Isac Nóbrega/PR)
POR JOANNE MOTA
Nesta sexta (24), o Brasil voltou a ocupar espaço relevante no noticiário internacional por razões que atravessam diplomacia, disputa de projetos econômicos, saúde presidencial e integração regional. De Washington a Havana, de Buenos Aires a Roma, os temas revelam um país pressionado por tensões externas, mas também central em debates sobre soberania, desenvolvimento e cooperação latino-americana.
Entre insultos misóginos de aliados trumpistas e gestos de reciprocidade do Planalto, desenha-se um retrato eloquente do momento brasileiro.
Discurso de ódio na órbita trumpista
A agência ANSA Brasil repercutiu declarações de Paolo Zampolli, enviado especial do governo Donald Trump para assuntos globais, que chamou mulheres brasileiras de “raça maldita” durante entrevista à emissora italiana Rai. A frase, por si só, dispensa adornos: carrega misoginia, xenofobia e o velho perfume rançoso do colonialismo.
Segundo a reportagem, Zampolli afirmou que as brasileiras “são programadas” para criar confusão. Em seguida, generalizou ataques pessoais à ex-esposa Amanda Ungaro, brasileira do Paraná, transformando ressentimento privado em preconceito público — expediente comum entre homens poderosos quando lhes falta argumento.
O conselheiro disse: “As mulheres brasileiras causam confusão com todo mundo, certo? Não é que essa foi a primeira”. O trecho sugere não apenas ofensa individual, mas uma tentativa de naturalizar estereótipos degradantes contra milhões de mulheres.
Ao ser questionado sobre uma amiga da ex-esposa, Zampolli agravou a agressão verbal: “Uma dessas putas brasileiras, essa raça maldita de brasileiras, são todas iguais”. Em qualquer democracia séria, declarações dessa natureza exigiriam retratação imediata e consequências políticas.
A ANSA também relembra que Amanda Ungaro acusa Zampolli de abuso sexual e violência doméstica. O contraste entre o cargo diplomático e o histórico denunciado pela ex-companheira lança sombra sobre os critérios éticos de nomeações na órbita trumpista.
Por fim, o texto cita informação do New York Times segundo a qual Zampolli teria solicitado ao ICE a deportação da ex-esposa após ela ser detida por fraude. A fronteira entre influência estatal e vendeta pessoal, nesse caso, parece perigosamente borrada.
Lula responde a Washington
O portal Nodal destacou o respaldo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à retirada de credenciais de um agente de segurança dos Estados Unidos que atuava no Brasil. A medida veio após Washington revogar as credenciais do delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho, em Miami.
Segundo a publicação, Lula elogiou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, por adotar postura soberana diante do gesto norte-americano. Em tempos de assimetrias diplomáticas, o governo brasileiro sinalizou que submissão automática não faz parte do protocolo.
O presidente afirmou, de acordo com o veículo, que o Brasil respondeu “da mesma maneira em que foi tratado”, acrescentando expectativa de retomada do diálogo em condições normais. A frase resume uma doutrina simples: respeito não se pede de joelhos.
O delegado Marcelo Ivo de Carvalho foi acusado por Washington de manipular o sistema migratório. O contexto citado pela reportagem, porém, envolve sua participação na prisão de Alexandre Ramagem, aliado bolsonarista condenado por envolvimento na tentativa de golpe de Estado de 2023.
Ainda segundo o Nodal, apesar de pedido formal de extradição feito pelo Brasil, Ramagem foi liberado pelo ICE em território norte-americano e pôde solicitar asilo. O caso acirrou tensões e levantou suspeitas sobre seletividade política da cooperação judicial.
Ao retirar as credenciais do agente estadunidense, o Brasil sinaliza defesa de sua autonomia jurídica e diplomática. Não se trata de hostilidade gratuita, mas de um lembrete elementar: parceria entre países pressupõe reciprocidade, não tutela.
Sucessão presidencial
Já o portal Pátria Latina publicou análise sobre a corrida presidencial de 2026 e os projetos econômicos em disputa. O texto sustenta que o país necessita de um “Projeto Brasil Nação Soberano”, capaz de combinar crescimento, distribuição de renda e horizonte estratégico.
A reportagem afirma que os pré-candidatos Lula, Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado ainda não apresentaram programas formais, mas já exibem linhas ideológicas reconhecíveis. Em outras palavras, antes mesmo das promessas oficiais, os interesses sociais em jogo já falam alto.
Sobre Flávio Bolsonaro, o artigo o associa ao ultraneoliberalismo e afirma que ele defende desvincular aposentadorias e salário mínimo de reajustes automáticos. Para o veículo, isso significaria arrocho permanente sobre trabalhadores e aposentados.
Em relação a Caiado, a análise o descreve como conservador nos costumes e liberal na economia, ligado ao receituário do Consenso de Washington. O texto ressalta defesa da propriedade privada e do ajuste fiscal rígido, criticando a permanência de fórmulas consideradas esgotadas.
Quanto a Lula, a publicação diz que o programa petista, coordenado politicamente por José Dirceu, pretende rever o tripé macroeconômico tradicional. O objetivo seria ampliar investimento público, flexibilizar metas de inflação e reduzir juros estruturalmente elevados.
O artigo conclui que “gastos sociais não são custos de produção, mas investimentos”. A tese recoloca no centro do debate uma pergunta antiga e atual: o Estado existe para tranquilizar planilhas ou para desenvolver a sociedade?
Procedimentos médicos de Lula
A ANSA Brasil informou que Lula deu entrada no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, para dois pequenos procedimentos médicos nesta sexta-feira. O presidente estava acompanhado da primeira-dama Janja.
Segundo a reportagem, o primeiro procedimento refere-se ao tratamento de uma queratose no couro cabeludo causada por pequena lesão. Trata-se, conforme o texto, de intervenção simples e rápida.
A segunda medida médica seria uma infiltração no punho direito para tratar tendinite no polegar. A saúde presidencial, naturalmente, segue tema de interesse político e institucional.
De acordo com a assessoria do Planalto, os procedimentos “não exigem preparo prévio nem repouso pós-operatório”. A previsão é de retorno a Brasília no domingo, para participação no Congresso Nacional do PT.
Integração regional
O jornal argentino Página/12 destacou a realização do Pre-DiSUR 2026, encontro preparatório que reunirá universidades públicas da América Latina nas cidades de Lanús e Avellaneda. O Brasil integra a rede com diversas instituições federais e estaduais.
A reportagem define a DiSUR como “a rede de cursos de design de universidades públicas mais importante da América Latina”. Mais de 70 cursos participam da articulação regional.
Um dos eixos centrais será o impacto da inteligência artificial no ensino do design e na formação profissional. O debate tecnológico aparece, portanto, vinculado à soberania do conhecimento.
Segundo o veículo, o tema chega como “uma agenda urgente” que as universidades públicas buscam processar “de maneira coletiva e com perspectiva latino-americana”. Em tempos de plataformas globais, pensar junto também é resistir.
Cuba e Brasil: cooperação científica
A agência Prensa Latina noticiou conversa entre o ministro cubano Walter Baluja e a ministra brasileira Luciana Santos sobre ampliação da cooperação em ciência, tecnologia e inovação.
Luciana afirmou que o Brasil permanece “ao lado de Cuba” e acrescentou: “Estive várias vezes em Cuba e estou pronta para mais”. O gesto político transcende cordialidade protocolar.
A ministra recordou que os vínculos bilaterais estavam desativados até 2023 e começaram a ser retomados depois disso. Programas conjuntos, como o Prosur, voltaram à agenda.
Baluja denunciou a “agressividade dos Estados Unidos contra o povo cubano” e disse que a ilha sairá vitoriosa “também graças à solidariedade internacional, e em particular do Brasil”. Cooperação científica, aqui, também é linguagem geopolítica.
Boa noite! Boa Sorte!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
