Rio: Foi um massacre, não uma operação policial

Atuação policial no Rio, alegadamente contra o tráfico de drogas liderado pelo Comando Vermelho, mata pelo menos 132 pessoas e cadáveres se acumulam nas ruas. Tema repercutiu em toda mídia externa.
A operação policial mais mortal da história do Brasil matou pelo menos 132 pessoas, seguindo informaram defensores públicos nesta quarta-feira, enquanto moradores do Rio de Janeiro se aglomeravam em uma rua com dezenas de cadáveres encontrados durante a madrugada, uma semana antes dos eventos globais sobre o clima na cidade, a COP30.
A polícia do Rio informou que as batidas policiais contra uma grande quadrilha de traficantes no dia anterior foram planejadas exaustivamente por mais de dois meses, com o objetivo de levar os suspeitos para uma encosta de floresta onde uma unidade de operações especiais estava à espera em uma emboscada.
“A elevada letalidade da operação era esperada, mas não desejada”, disse Victor Santos, chefe de segurança do estado do Rio, em entrevista coletiva. Autoridades policiais do Rio confirmaram 119 mortes até o momento, incluindo quatro policiais.
Santos disse que não há conexão com os eventos globais que o Rio sediará na próxima semana relacionados à cúpula climática COP30, cúpula global C40 de prefeitos que lidam com as mudanças climáticas e o Prêmio Earthshot do príncipe britânico William.
O Rio sediou vários eventos globais na última década, incluindo as Olimpíadas de 2016, a cúpula do G20 de 2024 e a cúpula do BRICS em julho, sem violência na escala vista na terça-feira. A operação policial mais mortal da cidade antes da terça-feira foi em 2021 que deixou 28 mortos no bairro do Jacarezinho. Em 1992, 111 pessoas foram mortas quando a polícia de São Paulo invadiu a Penitenciária do Carandiru para reprimir uma rebelião prisional.
Moradores do bairro da Penha, no Rio, recolheram dezenas de cadáveres da floresta ao redor durante a noite e alinharam mais de 70 dos corpos no meio de uma rua principal.
“Só quero tirar meu filho daqui e enterrá-lo”, disse Tauá Brito, mãe de um dos mortos, cercada por enlutados e curiosos chorando dos dois lados da longa fileira de corpos, alguns dos quais cobertos com lençóis ou sacos.
Vários grupos da sociedade civil e especialistas em segurança pública criticaram o elevado número de vítimas mortais da operação militar. O Escritório das Nações Unidas para os Direitos Humanos afirmou que isso contribui para uma tendência de operações policiais extremamente letais nas comunidades marginalizadas do Brasil. Foi um ataque contra “narcoterroristas”, afirmou o governador do estado. (Reuters)
Seguem alguns títulos e trechos da mídia internacional, que repercutiu amplamente o massacre no Rio, ilustrada com fotos dos corpos enfileirados no chão da favela:
Guardian: “Isso foi um massacre, não uma operação”: a favela se recupera da operação policial mais mortal do Rio. Moradores da Vila Cruzeiro recolhem corpos após mais de 130 mortes em um ataque realizado antes do amanhecer
L´Humanité: “Todos estão aterrorizados”: no Rio de Janeiro, uma operação policial deixa 132 mortos no estado de um governador de direita, aliado de Bolsonaro. “A política de Cláudio Castro trata as favelas como territórios inimigos, onde impera a licença para matar”, acusa o deputado de esquerda Henrique Vieira sobre o homem à frente do Estado do Rio e aliado do ex-presidente de extrema direita Jair Bolsonaro. “Todos estão aterrorizados”, disse à AFP, sob condição de anonimato, por medo de represálias, a responsável por um projeto social que mantém contato remoto com moradores do Complexo da Penha.
Expresso: “O objetivo da polícia brasileira, na operação levada a cabo no Rio de Janeiro, era fazer cumprir cem mandados de prisão e impedir o avanço territorial do grupo criminoso Comando Vermelho. A ação culminou, porém, com a morte de pelo menos 121 pessoas, segundo os últimos números avançados esta quarta-feira pelo governo estadual do Rio de Janeiro.”
La Nación: “O presidente ficou horrorizado com o número de incidentes fatais. [Lula] mostrou-se surpreso com o fato de uma operação [dessa magnitude] ter sido lançada sem o conhecimento do governo federal”, afirmou Lewandowski.
Correio da Manhã: Banho de sangue no Rio de Janeiro em operação contra Comando Vermelho: o que se sabe até agora. Rio de Janeiro acordou esta quarta-feira num clima de tensão e medo. Números oficiais revelam pelo menos 119 mortos, mas dezenas de corpos continuam a ser encontrados.
La Nación: Como foi a maior operação antidrogas do Rio: uma “barreira” na selva e dois meses de planejamento. A “Operação Contenção” nos complexos da Penha e do Alemão deixou pelo menos 119 mortos, entre eles quatro policiais; segundo as autoridades estaduais, não houve vítimas civis.
Esquerda (Portugal): População e ONG denunciam massacre policial no Rio de Janeiro. Nos complexos do Penha e do Alemão, onde vivem mais de 150 mil habitantes, viveram-se esta terça-feira “cenas de guerra, execuções sumárias, violação de domicílios, impedimento de socorro a feridos e a total suspensão dos direitos mais básicos”, denuncia a Federação das Associações de Favelas do Rio de Janeiro.
Libération: Visto do Rio: O banho de sangue em uma operação antidrogas reacende as tensões entre Lula e a extrema direita. A operação policial realizada na terça-feira, 28 de outubro, em um conjunto de favelas do Rio causou pelo menos 132 mortes. A um ano das eleições presidenciais, a tragédia reacende as questões em torno da ação do governo em termos de segurança pública. Cadáveres e mais cadáveres. Em uma praça da Penha, um dos conjuntos de favelas do Rio de Janeiro alvo de uma megaoperação policial na terça-feira, 28 de outubro, dezenas de corpos foram alinhados pelos moradores desse complexo de favelas no norte da cidade; dezenas de pessoas mortas a tiros pela polícia durante a operação mais sangrenta já realizada no Rio contra a poderosa gangue de narcotraficantes Comando Vermelho.
Público: O Rio de luto: quando o espetáculo substitui a política.
* Um dos policiais mortos, foi Heber Carvalho da Fonseca, sargento terceiro do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), de 39 anos, enviou uma última mensagem à sua esposa antes de morrer: “Estou bem. Continue rezando”. Horas após a operação, a mulher publicou nas redes sociais a última conversa que tiveram. Ele fazia parte da operação que contou com 2.500 policiais.
(Washington Post / NYT / BBC / Independent/ Tass / La Política Online)
SENADO DOS EUA BARRA TARIFAÇO
Senado vota pelo fim das tarifas de Trump sobre o Brasil, com apoio de alguns republicanos. Vários republicanos cruzaram as linhas partidárias para se aliar aos democratas na primeira de várias votações realizadas esta semana com o objetivo de contestar a guerra comercial do presidente. Decisão tem que passar pela Câmara, onde há dificuldade para aprovação. (NYT / Guardian)
Na imagem, dezenas de corpos foram trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro na chamada Operação Contenção / Tomaz Silva /Agência Brasil

Jornalista, ex-Folha, Reuters e Valor Econômico. Participei da cobertura de posses presidenciais, votações no Congresso, reuniões ministeriais, além da cobertura de greves de trabalhadores e de pacotes econômicos. A maior parte do trabalho foi no noticiário em tempo real. No Fórum 21, produzo o Focus 21, escrevo e edito os textos dos analistas.
