Soberania em construção: Brasil retoma indústria ferroviária nacional

Soberania em construção: Brasil retoma indústria ferroviária nacional

Da fábrica dos trilhos ao comprimido — o país reivindica protagonismo tecnológico enquanto a esquerda global se une em Porto Alegre contra a maré neofascista. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

POR JOANNE MOTA

O Brasil marcou presença em todas as latitudes do noticiário internacional nesta sexta (27). De São Paulo a Porto Alegre, o país exibiu ao mundo a face de um projeto nacional em curso: depois de sermos brindados com aviões de combate saindo de fábricas brasileiras, agora vemos trens chineses sendo montados no interior paulista, remédios que produzidos aqui em vez de importados — e, ao sul, uma conferência antifascista histórica reunindo delegados de mais de 70 países dispostos a barrar a onda reacionária que varre o planeta.

No centro de todas essas histórias, a mesma tensão estrutural: um país que aposta na soberania como projeto político diante de um mundo em que o imperialismo voltou a falar abertamente pela boca do canhão.

Brasil nos trilhos da soberania

Conforme noticiou o Global Times, o presidente Lula visitava a unidade brasileira da CRRC, gigante chinesa de material ferroviário, em fase de instalação no município. O evento marcou o lançamento de um projeto de fabricação de trens no Brasil e a assinatura de contratos com o BNDES num total de 5,6 bilhões de reais (aproximadamente US$ 1,1 bilhão) destinados a projetos de transporte público no estado de São Paulo. A ferrovia, que tanto falta ao país, começa a voltar.

Os recursos anunciados se dividem entre duas grandes obras: 3,2 bilhões de reais correspondem à segunda fase do Trem Intercidades do Eixo Norte (TIC), que ligará São Paulo a Campinas, enquanto outros 2,4 bilhões serão destinados à extensão da Linha 2-Verde do Metrô. A expansão do metrô alongará o atual trajeto entre Vila Madalena e Vila Prudente até o bairro da Penha, acrescentando oito novas estações ao longo de 8,3 quilômetros — infraestrutura que deverá atender mais de 320 mil passageiros em dias úteis.

A futura estação Penha será um nó de integração com a Linha 3-Vermelha e a Linha 11-Coral da CPTM, facilitando a vida de quem vem de municípios como Suzano e Mogi das Cruzes em direção à Avenida Paulista. Já o Trem Intercidades percorrerá 101 quilômetros, atravessando oito municípios entre Jundiaí e Campinas, e se conectará à Linha 7-Rubi da CPTM. São projetos que, somados, redesenham a mobilidade metropolitana de uma das regiões mais densas do planeta — e que deveriam ter sido concluídos há décadas, não fosse a opção histórica do Estado brasileiro pelo asfalto e pelo automóvel.

Há uma ironia geográfica e histórica nessa escolha: a fábrica da CRRC ocupa o espaço deixado por uma montadora automobilística que fechou as portas — como se o capitalismo fosse finalmente dando lugar a uma lógica de mobilidade coletiva. Dez bilhões de reais já foram aprovados no âmbito do novo PAC para mobilidade no estado paulista, dos quais 6,4 bilhões vão para o trem intercidades e 3,6 bilhões para a aquisição de 44 composições para o metrô de São Paulo. A parceria com a China, que tanto incomoda Washington, rende, literalmente, dividendos em aço e trilhos.

O relançamento da indústria ferroviária brasileira não se resume às obras de São Paulo. O governo enquadra os projetos dentro do novo PAC, sinalizando uma aposta estrutural no transporte coletivo de massa como vetor de desenvolvimento — algo que os governos neoliberais do intervalo 2016–2022 trataram como despesa supérflua. Com a CRRC produzindo em solo brasileiro, o país dá mais um passo na direção de uma indústria nacional capaz de suprir a demanda por material ferroviário sem depender exclusivamente de importação. O trem voltou ao vocabulário da política pública. E desta vez, parece vir para ficar.

  • R$ 5,6 bilhões  em contratos BNDES
  • 44  trens para o metrô de SP
  • 320 mil  passageiros/dia estimados

Produção nacional de medicamentos

O governo brasileiro foi ainda mais longe nesta semana ao visitar a planta da Brainfarma em Anápolis (GO), onde a empresa iniciará neste ano a produção da escopolamina — princípio ativo da buscopana, um dos analgésicos mais usados no Brasil. Em um país que importa cerca de 60% dos insumos da sua indústria da saúde, a notícia tem sabor de política pública e de alerta: a Alemanha, que responde por 70% da oferta global desse produto, ameaça suspender sua fabricação ainda em 2026. O Brasil não quer ser pego de calças curtas.

A iniciativa vai além de um produto. O presidente Lula deixou claro, segundo o Página 12, que seu governo “seguirá buscando acordos com outros países que contam com uma indústria farmacêutica forte” — entre os quais citou Índia, China e Coreia do Sul — para ter acesso à tecnologia e produzir no país o que hoje se importa. A estratégia é clara: transferência de tecnologia, produção local, independência sanitária. Os mesmos princípios que guiam o Gripen e os trens da CRRC agora se aplicam ao comprimido.

“Vamos viajar para onde for preciso para acordar a transferência de tecnologia e produzir os medicamentos aqui como forma de garantir a soberania nacional.” — Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil

O projeto da Brainfarma — financiado em parte com crédito público, num investimento total de 250 milhões de reais (US$ 47,7 milhões) — é ambicioso: pretende tornar o Brasil o primeiro fabricante de escopolamina na América Latina e o maior produtor mundial do insumo. Para isso, a empresa introduziu no país o cultivo da planta Duboisia, da qual se extrai o princípio ativo. A fábrica de Anápolis terá capacidade para produzir 30 toneladas anuais — o equivalente a 150 milhões de comprimidos —, com exportações previstas para Europa, México, Oriente Médio e Ásia. Outrora importador, o Brasil quer se tornar fornecedor global.

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“O Brasil continua comprando muitos dos insumos da indústria da saúde em outros países, isso significa depender da importação, do câmbio e das crises internacionais. Por isso lançamos uma política para incentivar a produção no país de todos esses medicamentos.” — Alexandre Padilha, ministro da Saúde

É sintomático que o governo escolha a saúde — ao lado da defesa e do transporte — como eixo central de seu projeto de soberania industrial. Não se trata de autarquia nem de fechamento; trata-se de reconhecer que um país do porte do Brasil não pode depender integralmente do exterior para produzir o que seus cidadãos precisam para viver. A escopolamina pode parecer um detalhe técnico. Mas no vocabulário político de Lula, ela tem o mesmo peso simbólico do Gripen: a afirmação de que o Brasil não quer ser apenas consumidor da modernidade — quer produzi-la.

  • 60%  dos insumos de saúde são importados
  • 30 toneladas  de escopolamina/ano em Anápolis
  • R$ 250 milhões  investidos pela Brainfarma

Porto Alegre antifascista

Enquanto o governo federal exibia suas apostas de soberania industrial, Porto Alegre se torna, neste fim de semana, o epicentro de outra disputa — menos visível nos mercados, porém fundamental para o rumo do século. A 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos reúne delegados de mais de 70 países entre os dias 26 e 29 de março, com uma pauta clara: construir uma frente ampla global contra a ascensão da extrema-direita e as guerras imperialistas. Mais de 1.800 personalidades assinaram o chamado internacional lançado pelo CADTM — entre elas o Nobel de Literatura Annie Ernaux, o ex-líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn e Jean-Luc Mélenchon, além de lideranças do MST, da DSA americana e parlamentares de toda a Europa.

O evento foi inaugurado com uma grande manifestação pelas ruas da capital gaúcha — cidade que em 2001 foi o berço do Fórum Social Mundial e que, nas décadas anteriores, viu nascer o MST. Três dias de conferências plenárias e 150 atividades autogestionadas cobrem temas que vão da solidariedade com Gaza às lutas ecofeministas, do negacionismo climático à reforma agrária. Segundo o Página 12, a conferência analisa também “as possibilidades e os limites da ação institucional” — reconhecendo que governar não é suficiente e que os movimentos sociais seguem sendo indispensáveis.

O contexto que motivou o encontro é sombrio: uma “internacional neofascista” impulsionada pelos EUA de Trump, extrema-direita avançando na Europa, Modi na Índia, Netanyahu perpetuando o genocídio em Gaza. Na América Latina, após Milei na Argentina e Kast no Chile, a direita já mira as eleições brasileiras de outubro, quando Flávio Bolsonaro tentará barrar um quarto mandato de Lula. A conferência de Porto Alegre não ignora esse calendário: a derrota de Bolsonaro em 2022 é citada como prova de que é possível travar o avanço neofascista quando PT, PSOL, PC e movimentos populares superam suas diferenças.

A conferência pretende dar “um primeiro passo” para unificar respostas antifascistas e antiimperialistas em cada grande região do mundo — Europa, América do Norte, América Latina, África e Ásia. O objetivo não é apagar diferenças, mas construir convergências em torno da defesa da classe trabalhadora, do campesinado, das mulheres, das populações LGBTQIA+, dos povos indígenas e da natureza. Num mundo em que Trump tratou a Doutrina Monroe como ordem de missão e mandou destruir embarcações em águas internacionais sem qualquer processo judicial, a urgência dessa convergência é difícil de contestar.

A Cuba que o bloqueio não apaga

Em meio às notícias de trens e comprimidos, a Prensa Latina publicou nesta sexta um relato de outra natureza — mais íntimo, mas igualmente político. A pesquisadora brasileira Beatriz Gomes Cornachin, mestre em Ciências Humanas e Sociais, passou dez meses na província oriental de Guantânamo como parte de seu doutorado em Economia Política Mundial, investigando soberania agroalimentária. O que ela encontrou lá, segundo suas próprias palavras, foi algo que os números do PIB cubano não capturam:

“Em algum momento de minha vida fui extremamente feliz e realizada, e foi em Cuba.” — Beatriz Gomes Cornachin, pesquisadora brasileira

A pesquisadora descreveu a solidariedade cubana não como política de Estado, mas como prática cotidiana que o Estado potencializa. Relatou com espanto a naturalidade com que a arte irrompe nas ruas — música tocada com panelas, apresentações espontâneas do repertório do Buena Vista Social Club em esquinas — e a ampla disponibilidade de livros a preços acessíveis como um dos pilares do modelo cultural da ilha. Mas Cornachin não separou esse retrato da realidade política: “Não se pode dizer nada sem levar em conta este bloqueio criminoso, que impede que o povo cubano exporte ainda mais suas qualidades e potencialidades.”

O bloqueio norte-americano — que Trump radicalizou desde janeiro de 2026, buscando asfixiar o fornecimento de combustíveis essenciais à geração de energia na ilha — é, para a pesquisadora, a lente sem a qual Cuba simplesmente não se entende. Desde agosto de 2025, o exército americano destruiu dezenas de embarcações em águas internacionais, matando mais de 130 pessoas sem acusação formal, sem processo judicial — bastou a ordem de Trump. Contra esse pano de fundo, a permanência de Cuba como experiência de resistência adquire um peso que vai além da nostalgia ou do dogma.

“Desde que cheguei ao Brasil, não voltei de verdade; acho que fiquei em Cuba.” — Beatriz Gomes Cornachin

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