Trump confirma tarifaço de 50%, impõe sanções a Moraes e Lula diz em entrevista ao NYT: “Quero ser tratado com respeito”

Nesta quarta-feira, a afronta do presidente Donald Trump ao Brasil foi ampliada por duas ações: confirmou o tarifaço de 50% aos produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, mesmo que com exceções, e aplicou fortes sanções ao ministro Alexandre de Moraes do STF, que atua no processo contra Bolsonaro pelo golpe contra Lula de 2022. Medidas praticamente uma na sequência do outra. A defesa de Trump quanto ao ex-presidente Bolsonaro e as articulações de seu filho Eduardo junto ao governo americano caminham juntos no ataque à soberania brasileira.
Do lado brasileiro do front, o presidente Lula concedeu uma rara entrevista ao The New York Times publicada nesta quarta-feira em que cobrou “respeito” por parte de Trump. O título da entrevista dado pelo jornal dos EUA foi enfático: “Ninguém desafia Trump como o presidente do Brasil”.
O jornalista Jack Nicas diz logo na abertura do texto: “No meu último dia como correspondente do The New York Times no Brasil, entrevistei o presidente do país. Não estava previsto que fosse assim; eu vinha solicitando uma entrevista havia quatro anos. Coincidentemente, enquanto me preparava para assumir um novo cargo no México, as relações diplomáticas entre os Estados Unidos e o Brasil foram rompidas.”
Após o anúncio das medidas, durante a tarde desta quarta-feira, Lula afirmou em discurso: “Hoje é o dia sagrado da soberania”.
“Vou me reunir ali para defender outra soberania. A soberania do povo brasileiro em função das medidas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos. Então hoje, para mim, é o dia sagrado da soberania, de uma soberania de coisas que eu gosto, dos animais e dos seres humanos”, afirmou Lula na presença de ministros e parlamentares no Palácio do Planalto. Lula convocou parte de seus ministros para uma reunião de emergência no Palácio do Planalto. Entre os auxiliares convocados, estão os ministros da Justiça, Ricardo Lewandowski, e da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias.
As principais notícias da imprensa internacional de hoje sobre essas questões:
LULA NO NYT
Ao New York Times, Lula reforça que Brasil quer ser tratado com respeito por Trump. Na entrevista, o presidente brasileiro é descrito como “indiscutivelmente o estadista latino-americano mais importante deste século”. Lula disse que “Brasil não quer negociar como país pequeno” e que disposição ao diálogo permanece. Lula disse que não se deixará intimidar por Trump diante das tarifas de 50%.
Algumas declarações de Lula ao NYT:
“Tenha certeza de que estamos tratando isso com a máxima seriedade. Mas seriedade não exige subserviência”
“Eu trato todos com grande respeito. Mas quero ser tratado com respeito.”
“O que impede é que ninguém quer conversar. Solicitei contato.”
“Em nenhum momento o Brasil vai negociar como se fosse um país pequeno diante de um país grande”
“Nós conhecemos o poder econômico dos Estados Unidos, reconhecemos o poder militar dos Estados Unidos, reconhecemos o tamanho tecnológico dos Estados Unidos. Mas isso não nos deixa com medo. Nos deixa preocupados.”
“Quero dizer a Trump que nem brasileiros nem americanos merecem ser vítimas da política se o motivo pelo qual o presidente Trump está impondo esse imposto ao Brasil for o caso contra o ex-presidente Bolsonaro. O povo brasileiro pagará mais por alguns produtos, e o povo americano pagará mais por outros. E acho que o caso não justifica isso. O Brasil tem uma Constituição, e o ex-presidente está sendo julgado com plenos direitos de defesa.”
No Clarín, é possível ler a entrevista de Lula na íntegra em espanhol ou em pportuguês.
(NYT / Guardian /La Politica Online / Clarín)
50% CONFIRMADOS
Nesta quarta-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, impôs uma tarifa de 50% sobre a maioria dos produtos brasileiros para combater o que chamou de “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas suavizou o golpe excluindo setores como aeronáutica, energia e suco de laranja. As ações da fabricante de aviões Embraer e da fabricante de celulose Suzano subiram. “Não estamos diante do pior cenário”, disse o secretário do Tesouro brasileiro, Rogério Ceron, a repórteres. “É um resultado mais benigno do que poderia ter sido.”
Em um informativo sobre o decreto presidencial de Trump divulgado na quarta-feira, a Casa Branca vinculou as tarifas ao processo movido pelo Brasil contra Bolsonaro, que está sendo julgado sob a acusação de planejar um golpe para reverter sua derrota eleitoral em 2022.
*A medida pode fornecer munição aos autores da ação que buscam derrubar a peça central da agenda tarifária da Casa Branca. Especialistas em direito comercial e autores de uma ação judicial federal contra as tarifas abrangentes de Trump, respaldadas pela Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) de 1977, afirmam que a explosão do presidente contra o Brasil é mais um exemplo claro de que ele excede em muito qualquer autoridade legal para cobrar tarifas.
O Financial Times resumiu no título e na linha fina”EUA adicionam tarifa de 40% ao Brasil (já tínhamos 10%) e impõem sanções a juiz que julga Bolsonaro. Movimento de Washington eleva impostos sobre o país para 50% por supostas práticas comerciais desleais e julgamento do ex-presidente”
*A revista New Yorker também dedicou reportagem sobre o tarifaço: “O presidente Donald Trump anunciou uma tarifa de cinquenta por cento sobre os produtos do país, como retaliação pela acusação judicial contra seu aliado político, Jair Bolsonaro. Até agora, o Brasil se recusou a ceder.” O texto cita o termo “vira-lata”.
O argentino La Nación reuniu em uma reportagem as três questões do dia: confirmação da tarifa de 50%, as sanções a Moraes e a entrevista d Lula ao NYT. “Trump assina o decreto que eleva para 50% as tarifas adicionais sobre o Brasil e sanciona o juiz que julga Bolsonaro. A Casa Branca criticou políticas de Lula que “constituem uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos EUA”.
(Financial Times / Reuters /Reuters /El Mercurio / Público / El Tiempo /)
TRUMP X MORAES
Os Estados Unidos impuseram nesta quarta-feira (30/7) novas sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, se utilizando para isso da Lei Global Magnitsky, uma das mais severas disponíveis para Washington punir estrangeiros que considera autores de graves violações de direitos humanos e práticas de corrupção. A decisão foi publicada no site do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros.
Esta é a primeira vez que uma autoridade brasileira é submetida a tal punição. Na lista, estão autoridades de países como China, Rússia, Bulgária, Camboja, Cuba, Libéria, Paraguai, dentre outros.
O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, comentou a decisão desta quarta-feira em sua conta no X (antigo Twitter). “Hoje, o @USTreasury está sancionando o Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que usou seu cargo para autorizar prisões preventivas arbitrárias e suprimir a liberdade de expressão”, escreveu Bessent.
“Alexandre de Moraes é responsável por uma campanha opressiva de censura, detenções arbitrárias que violam os direitos humanos e processos politizados — inclusive contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. O Tesouro continuará a responsabilizar aqueles que ameaçam os interesses dos EUA e aqueles que impõem limites às nossas liberdades”, completou o secretário.
A possibilidade de aplicação da Lei Magnitsky contra Moraes havia sido citada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, em maio, em resposta ao deputado republicano Cory Mills, da Flórida. Mills tem articulado com o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está nos EUA.
(BBC / Reuters /Washington Post/ Independent /NYT / Ambito)
FOME
O Brasil saiu do “mapa da fome” da ONU, para o qual havia retornado durante o governo de Bolsonaro. “Hoje dormirei com a consciência tranquila do dever cumprido com meu povo”, disse Lula ao receber a notícia. (La Diaria / Le Monde Diplomatique)

Jornalista, ex-Folha, Reuters e Valor Econômico. Participei da cobertura de posses presidenciais, votações no Congresso, reuniões ministeriais, além da cobertura de greves de trabalhadores e de pacotes econômicos. A maior parte do trabalho foi no noticiário em tempo real. No Fórum 21, produzo o Focus 21, escrevo e edito os textos dos analistas.
