Cidades inseguras para elas: 7 em cada 10 mulheres já sofreram assédio no Brasil

Cidades inseguras para elas: 7 em cada 10 mulheres já sofreram assédio no Brasil

Entre denúncias de violência contra as mulheres, tensões geopolíticas e escândalos financeiros, o noticiário internacional traça um retrato complexo do Brasil. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

POR JOANNE MOTA

Nesta sexta (6), o Brasil aparece em destaque na imprensa internacional por motivos que revelam as múltiplas camadas da vida política e social do país. Entre denúncias persistentes de violência contra as mulheres, tensões geopolíticas que reposicionam o país no cenário global e escândalos financeiros que expõem as entranhas do poder econômico, o noticiário estrangeiro desenha um retrato complexo da maior nação da América Latina.

Há ainda espaço para temas que vão da cultura política da diáspora latino-americana até os limites éticos do entretenimento televisivo.

Em comum, todos os episódios ajudam a compreender as contradições de um país em disputa — social, política e simbolicamente. Confira!

Assédio nas cidades brasileiras

Um estudo recente sobre segurança urbana revela um dado alarmante: sete em cada dez mulheres brasileiras afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio moral ou sexual ao menos uma vez na vida. A informação foi divulgada pela agência internacional Prensa Latina na reportagem “Siete de cada 10 mujeres en Brasil reportan acoso, según estudio”, baseada em uma pesquisa nacional conduzida pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a consultoria Ipsos-Ipec. O levantamento entrevistou 3.500 pessoas em dez capitais brasileiras e expõe um retrato persistente de violência cotidiana.

Segundo o estudo Viver nas Cidades: Mulheres, 71% das entrevistadas relataram ter sofrido assédio em ao menos um dos ambientes analisados. Entre os espaços investigados estão ruas, transporte público, ambientes de trabalho, bares, espaços domésticos e transporte privado por aplicativos. A pesquisa foi realizada em capitais como São Paulo, Salvador, Recife e Porto Alegre, abrangendo diferentes realidades urbanas do país.

A rua permanece como o principal palco dessa violência. Cerca de 54% das mulheres afirmaram ter sido assediadas em vias públicas, como praças, parques e praias. Em seguida aparece o transporte público, citado por 50% das entrevistadas. O ambiente de trabalho surge em terceiro lugar, com 36%, demonstrando que a violência de gênero atravessa tanto os espaços privados quanto os coletivos.

Durante a apresentação do relatório em São Paulo, a diretora de opinião pública da Ipsos-Ipec, Patrícia Pavanelli, resumiu a gravidade do cenário: “A insegurança é uma regra em nossas vidas, não uma exceção”, afirmou. A frase sintetiza uma realidade estrutural: para milhões de mulheres brasileiras, circular pela cidade significa calcular riscos permanentemente.

Embora os índices tenham registrado uma leve queda em comparação com 2014 — quando 74% das mulheres relataram experiências semelhantes — os pesquisadores destacam que a redução ainda é insuficiente diante da dimensão do problema. A persistência do assédio em múltiplos ambientes revela que políticas públicas e mudanças culturais caminham mais lentamente do que a urgência da realidade.

Para a promotora Fabíola Sucasas, do Ministério Público de São Paulo, aumentar penas não resolve sozinho o problema. “Confiar apenas no endurecimento das punições não basta”, alertou. A coordenadora municipal de políticas para mulheres, Naiza Bezerra, reforçou que os dados devem orientar novas estratégias de proteção e prevenção. Em outras palavras, combater o assédio exige muito mais do que leis duras: requer uma transformação profunda nas relações sociais.

Guerra x diplomacia

O conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã também colocou o Brasil no radar da imprensa internacional. Em reportagem do portal argentino La Política Online, analistas destacam que o governo brasileiro adotou uma postura diplomática considerada mais autônoma do que a maioria dos países latino-americanos.

Logo após os ataques contra alvos iranianos, o Itamaraty divulgou duas notas oficiais. No primeiro comunicado, o governo expressou “condenação e profunda preocupação pelos ataques perpetrados por Estados Unidos e Israel contra objetivos no Irã”, ressaltando que a ofensiva ocorreu enquanto ainda havia negociações em curso entre as partes.

O segundo comunicado reforçou a defesa do direito internacional e pediu “cessação das ações militares ofensivas”, além de convocar todas as partes a respeitarem a soberania dos Estados. Um diplomata ouvido pela reportagem explicou que, para o Brasil, o uso da força sem autorização do Conselho de Segurança da ONU é problemático, posição historicamente defendida pela diplomacia brasileira.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve inicialmente uma postura cautelosa, evitando declarações imediatas. Dias depois, contudo, manifestou apoio ao presidente espanhol Pedro Sánchez e reafirmou o compromisso do Brasil com o multilateralismo. Em declaração sobre o diálogo com o líder espanhol, Lula afirmou: “Compartilhamos a esperança de que a guerra termine o quanto antes e que possam iniciar-se negociações de paz sob os auspícios do direito internacional.”

A prudência do governo também responde a cálculos políticos internos. Assessores de política externa — entre eles o experiente diplomata Celso Amorim — recomendaram evitar uma exposição excessiva em um ano eleitoral, no qual setores da extrema direita tentam associar o governo brasileiro a regimes estrangeiros adversários de Washington.

Ainda assim, analistas consideram a posição brasileira relativamente singular na região. O jornalista e cientista político Leo Sobreira afirmou ao portal que “Brasil se comportou de uma forma bastante única na América Latina”, pois mencionou explicitamente os responsáveis pelos ataques. Para ele, a postura reforça a tradição diplomática do país de buscar desescalada e mediação.

Há também possíveis impactos econômicos. Segundo Sobreira, a instabilidade internacional pode provocar fuga de capitais de regiões em conflito para economias emergentes consideradas mais estáveis. Nesse cenário, “a guerra poderia beneficiar a economia brasileira ao atrair investimentos”, embora o aumento do preço do petróleo e da incerteza global funcione como contrapeso. Em síntese: no tabuleiro geopolítico, o Brasil tenta jogar com autonomia — ainda que sob a vigilância constante de Washington.

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Escândalo financeiro expõe bastidores do poder

O sistema financeiro brasileiro também ganhou manchetes internacionais após novas revelações sobre o caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do extinto Banco Master. A investigação, relatada pela agência italiana ANSA, aponta um esquema de fraude milionária com possíveis conexões no mundo político e judicial.

Vorcaro foi preso novamente em uma operação autorizada pelo Supremo Tribunal Federal. A Polícia Federal reuniu mensagens privadas do banqueiro que ajudam a ilustrar o clima de informalidade — ou promiscuidade — que muitas vezes caracteriza as relações entre poder econômico e poder político.

Em um dos diálogos obtidos pela investigação, Vorcaro comparou o sistema bancário a organizações criminosas. “Sempre disse que este mundo dos bancos é igual à máfia. Uma vez que você entra, não consegue sair. Ninguém sai bem desse mundo”, afirmou em conversa com sua companheira, a influenciadora Martha Graeff.

As mensagens também sugerem proximidade com figuras influentes da política brasileira. O banqueiro mencionou reuniões com autoridades do alto escalão e afirmou frequentar gabinetes de líderes do Congresso. Embora não haja evidências de irregularidades dessas autoridades, as revelações alimentam suspeitas sobre a permeabilidade entre finanças e política.

Outro ponto sensível envolve trocas de mensagens entre Vorcaro e o ministro do STF Alexandre de Moraes. Em comunicações enviadas pouco antes de sua primeira prisão, o empresário parecia solicitar ajuda diante do avanço das investigações. O conteúdo foi divulgado por diversos veículos brasileiros e citado pela reportagem internacional.

A investigação também menciona um contrato milionário firmado entre o banco e um escritório de advocacia ligado à esposa do magistrado. O documento teria valor superior a 100 milhões de reais, fato que intensificou o debate público sobre conflitos de interesse e transparência no sistema judicial.

Embora o caso ainda esteja em andamento, o episódio expõe as tensões entre capital financeiro, política institucional e sistema de justiça no Brasil. Se a metáfora da “máfia” usada pelo próprio banqueiro soa exagerada, ela também revela algo perturbador: quando o dinheiro fala alto demais, as fronteiras entre poder legítimo e influência privada tornam-se perigosamente borradas.

Cubanos no Brasil

A comunidade cubana residente no Brasil também apareceu no noticiário internacional. Segundo reportagem da agência Prensa Latina, a Associação Nacional de Cubanos Residentes no Brasil – José Martí (Ancreb-JM) celebra em 2026 os 20 anos de sua fundação.

Em comunicado divulgado nesta sexta-feira, a organização destacou que sua trajetória foi marcada pelo compromisso com os valores defendidos pelo líder independentista cubano José Martí. Ao longo de duas décadas, a associação promoveu iniciativas culturais, sociais e solidárias voltadas à comunidade cubana no país.

O texto também recorda membros falecidos que participaram da construção da entidade e afirma que suas trajetórias seguem inspirando o trabalho coletivo. Entre os marcos históricos da organização está o Primeiro Encontro de Associações de Cubanos Residentes no Caribe e na América Latina, realizado no Rio de Janeiro em 2013.

A entidade informou ainda que as celebrações ocorrerão ao longo de todo o ano de 2026. O objetivo é reafirmar laços de solidariedade entre os cubanos no exterior e reforçar o compromisso com a soberania da ilha caribenha.

“Big Brother” da tortura?

Um dos programas mais populares da televisão brasileira também entrou na mira das autoridades. De acordo com reportagem da agência AFP, o Ministério Público Federal abriu investigação sobre o reality show “Big Brother Brasil” por suspeitas de práticas degradantes contra participantes.

A investigação começou após relatos de que um competidor teria sofrido episódios convulsivos durante uma prova de resistência. Segundo o procurador responsável pelo caso, Julio Araujo, as condições impostas pela produção podem colocar a saúde dos participantes em risco.

Outro elemento analisado é o chamado “quarto branco”, espaço onde concorrentes permanecem isolados sobre um pedestal extremamente pequeno durante longos períodos. Para a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, essa prática “guarda semelhança com métodos de tortura utilizados durante a ditadura militar”.

A emissora responsável pelo programa afirmou que os participantes contam com acompanhamento médico permanente e que o competidor citado foi atendido em hospital. Ainda assim, o Ministério Público alerta que “a normalização do sofrimento alheio como forma de espetáculo é incompatível com os objetivos fundamentais da República.”

Entre tensões sociais e disputas globais…

Da violência estrutural contra as mulheres à diplomacia em meio a conflitos internacionais; do poder subterrâneo do sistema financeiro aos limites éticos do entretenimento televisivo: o Brasil que aparece na imprensa estrangeira nesta sexta-feira é um país plural, contraditório e em permanente disputa.

É justamente nesse terreno de conflitos — sociais, políticos e culturais — que se constrói o debate público. E compreender essas narrativas, muitas vezes filtradas pelo olhar externo, ajuda a enxergar o lugar do Brasil no mundo e as batalhas internas que moldam seu futuro.

Para acompanhar análises críticas e aprofundadas sobre esses e outros temas, siga navegando pelo Portal Fórum21. Aqui, a realidade brasileira e internacional é debatida sem filtros — e sempre com o compromisso de olhar o mundo a partir das lutas e esperanças do nosso tempo.

Até a próxima!

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