Como discutir quando a mentira não precisa provar nada e a verdade precisa provar tudo

Como discutir quando a mentira não precisa provar nada e a verdade precisa provar tudo

Discutir com um bolsonarista que acredita em absolutamente tudo é uma modalidade avançada de debate. E o mais curioso é que você já começa perdendo. (Foto: Bruno Peres/Agência Brasil)

POR BASÍLIO CARNEIRO
Folha da PB

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A informação chega para ele em uma mensagem de WhatsApp, geralmente sem fonte, sem documento e escrita em letras maiúsculas:
 
“URGENTE! COMPARTILHE! A VERDADE QUE O SISTEMA NÃO QUER QUE VOCÊ SAIBA!”
 
Ele, pasmem, acredita.
 
Agora começa o seu trabalho.

Você precisa provar que é mentira.
 
Esse é o maior problema: a mentira entra sem pagar ingresso. 
 
A verdade precisa apresentar identidade, CPF, certidão de nascimento, testemunhas e, se possível, reconhecimento de firma.
 
Para acreditar na notícia falsa, basta confirmar o que o bolsonarista já queria acreditar.
 
Porém, para acreditar na verdade, ele exige investigação.
 
A informação que contraria precisa passar por perícia, auditoria e, dependendo do caso, talvez até por uma comissão da ONU e do Vaticano.
 
E existe uma lógica ainda mais curiosa.

Você pergunta:
 
— “De onde você tirou isso?”
 
Resposta:
 
— “Recebi num grupo.”
 
— “Quem mandou?”
 
— “Um cara que conhece muita gente.”
 
— “Mas tem alguma fonte?”
 
— “Tem. Está circulando muito.”
 
Ou seja: a quantidade de pessoas repetindo uma mentira virou prova da verdade.
 
E há algo ainda mais difícil: admitir que uma informação era falsa significa reconhecer que ele compartilhou uma mentira.
 
Então surge uma saída estratégica:
 
“Tá, pode até não ser verdade, mas também não provaram que é mentira.”
 
A obrigação de provar mudou de lado.
Quem inventou não precisa provar.
Quem desmentiu é que precisa provar que não aconteceu.
 
E assim você acaba diante de uma situação quase surreal: para fazer um bolsonarista acreditar em algo óbvio, você precisa gastar uma energia gigantesca desmontando uma bizarrice que ele acreditou em cinco segundos.
 
A mentira diz: “Compartilhe!”
A verdade diz: “Calma. Vamos verificar.”
 
E, no final, você percebe que não estava discutindo uma notícia.
 
Estava tentando convencer alguém de que nem tudo que chega no WhatsApp é verdade só porque veio acompanhado de uma bandeira do Brasil, três pontos de exclamação e a frase “URGENTE”.