Relatórios da CPI ignoram protagonistas e miram o topo das instituições

Por Basílio Carneiro
A sucessão recente de relatórios em comissões parlamentares de inquérito tem reforçado uma percepção preocupante: a de que esses instrumentos, concebidos para investigar com responsabilidade, vêm sendo capturados por políticos com interesses eleitorais.
No caso do relatório da CPI do Crime Organizado, comissão instaurada especialmente para investigar o confronto entre a PM do Rio de Janeiro e o Comando Vermelho, o senador Alessandro Vieira, conhecido desafeto de Alexandre de Moraes, esqueceu o fato que originou e, pasmem, pediu o indiciamento do ministro, de mais dois colegas do Supremo Tribunal Federal e do procurador-geral da República, sem qualquer base legal.
Chamou a atenção também, pelas ausências.
Ao direcionar acusações ao topo das instituições, o relatório deixa de fora exatamente os protagonistas do crime organizado, para surpresa geral.
Esse padrão não é isolado.
Na CPMI do INSS, o relator, ex-promotor de justiça Alfredo Gaspar, atuava de pé, como se ainda estivesse performando no tribunal do júri. A dinâmica foi bem semelhante: critério seletivo.
Por exemplo, Onyx Lorenzoni foi solenemente ignorado, mesmo tendo confessado ter recebido R$ 60 mil em doação de um investigado;
O invisível Sérgio Moro, foi alertado pelo Procon de SP, ainda em 2019, sobre irregularidades envolvendo o INSS e não adotou qualquer providência.
O senador Izalci Lucas foi flagrado por vídeo, servindo de chofer para um fraudador foragido, presidente da Conafer.
O pastor André Valadão aparece associado à criação de uma estrutura financeira “Clava Forte”, uma fintech da igreja Lagoinha, a mesma onde o presidente da Comissão, Carlos Viana, trabalhou.
Fabiano Zetel, operador financeiro cunhado de Daniel Vorcaro, responsável por doações milionárias, R$ 5 milhões, direcionadas às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.
Roberto Campos Neto, em 2019, habilitou no Banco Central o Master, e Ibaneis Rocha, além de um prejuízo de bilhões ao banco estatal do DF, está diretamente envolvido na compra do banco de Vorcaro pelo BRB.
Ciro Nogueira e Antônio Rueda fizeram lobby gigantesco para a compra do Master pelo BRB, no parlamento e fora dele.
Quando figuras com esse tipo de vínculo, relação ou suspeita aparecem no debate público, mas não nos relatórios finais, a credibilidade da apuração inevitavelmente vai para lata do lixo.
A desmoralização, portanto, não decorre apenas de excessos ou omissões pontuais. Recuperar a credibilidade dessas comissões passa, necessariamente, por recolocar a técnica, a imparcialidade e o interesse público no centro das investigações.
Apenas para não esquecer: Alessandro Vieira e Alfredo Gaspar concorrem, pelos seus Estados, ao cargo de senador.
Na imagem, o relator da CPI do Crime Organizado, Alessandro Vieira (dir.), e o presidente da comissão, Fabiano Contarato / Carlos Moura/Agência Senado
