África bate o pé e abertura emocionante reafirma força do FSM
Evento global comemora 25 anos em Cotonou, no Benin, com presença massiva de de ativistas da África Ocidental e representantes estrangeiros de 108 países.
POR TATIANA CARLOTTI
Enviada Especial do Fórum 21 a Cotonou
A abertura da 17ª edição do Fórum Social Mundial (FSM), na tarde desta quinta-feira (06), em Cotonou, no Benin, foi uma explosão de força, combatividade e resiliência.
Reunidos no anfiteatro Idriss Deby Itno, da Universidade de Abomey-Calavi, ativistas de todas as partes do mundo expressaram indignação contra as restrições iniciais à realização do evento pelo governo Wadagni, que impediu a entrada das caravanas da África Ocidental e o uso da universidade para os debates. O recuo foi negociado pela coordenação local do FSM e, nesta quinta-feira (6), finalmente, as dependências da universidade foram abertas.
Ovacionadas, as caravanas retornaram à cidade no fim da tarde, após mais de 24 horas de negociações, lotando o auditório com suas bandeiras e palavras de ordem. Desde meados de julho, elas vêm realizando uma marcha por vários países da África Ocidental, sob a coordenação da Convergência Global das Lutas pela Terra e pela Água na África Ocidental (CGLTE-OA).
“Nós somos um só e devemos avançar juntos, porque estamos ligados pela nossa história, nossa geografia e pelos mesmos problemas”, destacou Massa Koné, uma das grandes lideranças da CGLTE. Ele frisou a importância da denúncia, das reivindicações e, sobretudo, do engajamento de cada um dos camponeses africanos na luta pela terra, pela água e por direitos.

Koné destacou as dificuldades enfrentadas pelas comunidades locais, citando a contaminação das águas pelas grandes corporações e os riscos das mudanças climáticas. “Não há desenvolvimento se ele não for absorvido pela própria comunidade”, salientou, ao mencionar a forte desconfiança da população local e o papel das caravanas, que marcham “de um povo a outro”, promovendo diálogo e de soluções conjuntas.
Ele também lembrou que os problemas não têm fronteiras e são compartilhados por todos os países do Sul Global: “Sem desenvolvimento para todos, não haverá sucesso”, salientou.
Laços Benin-Brasil
Ao lado de representantes e lideranças africanos, ativistas de 108 países também participam do FSM. Na abertura do evento, a representação internacional contou com a participação de Netra Prasad, coordenador do FSM realizado no Nepal, e também das representantes do Brasil que integram a comissão internacional do evento: Anne Sena (Unisol) e Islândia Costa (Associação Vida Brasil), ambas do Coletivo Brasileiro e Baiano do FSM.
Elas saudaram os 25 anos do primeiro Fórum Social Mundial, realizado no Brasil. Sena frisou a importância de o evento ocorrer no Benin, destacando seu significado profundo para o Brasil e, especialmente, para a Bahia. “O Atlântico, que durante séculos foi marcado pela dor da escravidão, também foi atravessado pela resistência, pela cultura, pela espiritualidade e pela força dos povos africanos”, afirmou.
“Grande parte da identidade brasileira nasceu desse encontro, e a Bahia guarda, em sua história e em seu povo, uma das mais fortes expressões dessa herança”, acrescentou, destacando os laços históricos entre a África e a América Latina. Ela também frisou a importância de que o “compromisso do FSM com a construção de um futuro baseado na solidariedade entre os povos” seja renovado durante o evento.
“Hoje, Cotonou é, simbolicamente, o centro do mundo. É daqui que reafirmamos que um outro mundo possível continua sendo construído por mulheres, jovens, trabalhadores, povos tradicionais, agricultores, movimentos sociais e organizações populares que não desistem da justiça social, da democracia, da paz e da defesa da vida”, afirmou.

Free Palestine!
A luta social também foi representada na mesa de abertura pela fala de Sabrine Abellah (FSM Palestino). Ela destacou que “a África e a Palestina partilham histórias de colonialismo e resistência”, frisando que a luta palestina não é uma causa nacional, mas “uma luta comum pela humanidade, dignidade, solidariedade e liberdade”.
“Viemos aqui para partilhar o direito dos povos de determinarem o seu próprio futuro”, salientou, ao fazer um apelo pela renovação, a partir de Cotonou, da “solidariedade global para pôr fim à ocupação israelense da Palestina” e para “travar o genocídio que está ocorrendo em Gaza, garantir o respeito ao direito internacional, proteger os direitos humanos e apoiar o direito do povo palestino à autodeterminação e à liberdade”.
Membros da coordenação local do evento também participaram da mesa de abertura, entre eles Estelle, Françoise Sossou Agbaholou e Dada Zéhè d’Agonli, que salientaram a importância da realização do evento no país.
Novo Caminho
Além deles, também estiveram presentes autoridades tradicionais do Benim, como Sua Majestade Zoundjèwandji Ganmassizo, rei do Wémé-Tosso, que abriu oficialmente o evento.
“Em nome dos nossos antepassados, em nome do soberano de Daomé, Sua Majestade Béhanzin Onondaga, e do presidente do Alto Conselho dos Reis do Benim, Sua Eminência Majestade ‘O Rugido do Leão’, e em nome do povo africano, inauguramos solenemente o Fórum Social Mundial de 2026”, afirmou.
Ele fez votos de que o FSM dê início a um momento em que “nos reunamos a fim de identificar um novo caminho para a construção de uma vida serena para todos e em toda a Terra”. “Abençoamos hoje o Fórum de 2026 e desejamos a todos uma boa estadia no nosso país. Obrigado”, afirmou.
Na sequência, a plateia respondeu em peso: “Estamos prontos! Vamos lá! Benin!”.

Protesto!
As restrições do governo do Benin ao FSM não passaram incólumes na mesa de abertura.
Após ouvir todas as falas, o jovem estudante David Yandé tomou o microfone e foi direto ao ponto: “reconheço os esforços envidados pela comissão organizadora, pela majestade deste país, pelos reis e pelos sultões”, mas “é também muito importante que falemos sobre responsabilização”.
“Nós, os jovens deste continente, temos tanta esperança de que a África prospere. Temos tanta esperança de que este continente e os seus líderes estejam à altura do povo”, afirmou, ao cobrar uma “condenação clara do que aconteceu a este Fórum Social Mundial”.
“Era suposto ter começado há mais de dois dias, mas foi adiado pelo governo. E, por isso, quero enviar a minha condenação clara ao governo, não só deste país, o Benin, mas de toda a África. Não podemos aceitar o que aconteceu”, salientou, sendo fortemente aplaudido.


Tatiana Carlotti é repórter do Fórum 21 desde 2022, cobrindo política e cultura (confira aqui). Atua também em Opera Mundi, cobrindo política internacional. Tem passagem por Carta Maior e Blog Zé Dirceu. É doutora em Semiótica (USP-SP), mestre em Crítica Literária (PUC-SP) e graduada em História (USP-SP).
