Anne Sena: ‘FSM precisa ser um processo permanente de mobilização social’

Anne Sena: ‘FSM precisa ser um processo permanente de mobilização social’

Coordenadora da Unisol Bahia avalia Fórum no Benin como ‘ponto de virada’; próxima edição poderá ser na América Latina. (Foto: Tatiana Carlotti/F21)

POR TATIANA CARLOTTI
Enviada especial a Cotonou pelo F21/Fatoflix

A edição do Fórum Social Mundial (FSM) realizada em Cotonou, no Benin, entre os dias 4 e 8 de agosto, pode representar um ponto de virada na trajetória do evento global.

A avaliação é da presidenta da Unisol Bahia e integrante do Comitê Bahia/Brasil do FSM, Anne Sena, que defende uma reorganização política e territorial capaz de transformar o Fórum em um processo permanente de mobilização social.

Em entrevista ao Fórum 21, Sena afirma que a experiência no país africano, além de reafirmar a força e a atualidade do FSM, expôs limites de seu atual modelo de organização. Para ela, é preciso fortalecer estruturas nacionais e locais, ampliar a participação das organizações de base e construir uma agenda de mobilização que conecte os movimentos sociais entre uma edição e outra do encontro mundial.

Essa perspectiva está presente na Carta-Compromisso construída pelas delegações da América Latina e do Caribe durante o Fórum (leia a íntegra aqui). O documento propõe, entre outras medidas, uma agenda permanente de articulação e mobilização dos movimentos sociais.

As delegações também apresentaram a possibilidade de a próxima edição do FSM acontecer na América Latina. Segundo Sena, a proposta foi acolhida pelo Conselho Internacional e deverá ser debatida nos próximos meses, com expectativa de definição do país-sede até janeiro de 2027.

Ao defender que o Fórum não se encerre em si mesmo, Sena lembra que articulações construídas ao longo de suas diferentes edições tiveram desdobramentos concretos. Um dos exemplos é a própria organização do movimento de economia solidária no Brasil, que ganhou corpo a partir do Fórum de Porto Alegre.

Acompanhe a entrevista.

Anne, qual sua avaliação do FSM no Benin?

O balanço é muito positivo e profundamente político. Não foi apenas mais uma edição do Fórum, mas um momento de inflexão e de aprendizado para o próprio processo do Fórum Social Mundial.

Primeiro, porque conseguimos reafirmar que o Fórum Social Mundial continua vivo, necessário e capaz de reunir diferentes povos, movimentos, organizações e territórios em torno da construção de alternativas para o mundo. Isso, por si só, é muito importante em um cenário internacional marcado por guerras, crises democráticas, desigualdades sociais, emergência climática e tantas formas de violência.

Benin também nos mostrou os limites da forma como o Fórum vem sendo organizado. As dificuldades enfrentadas pelas delegações, os problemas de mobilidade e todas as situações que ocorreram em torno da realização do Fórum nos obrigam a pensar em uma estrutura mais forte, mais descentralizada e, principalmente, mais enraizada nos territórios.

Essa é a principal lição de Benin: o Fórum Social Mundial não pode ser apenas um grande encontro que acontece de tempos em tempos. Ele precisa ser um processo permanente de mobilização social.

Precisamos voltar às cidades, às comunidades, aos territórios, às organizações de base. Precisamos criar condições para que novos movimentos, novas lideranças, juventudes, mulheres, povos tradicionais, organizações populares e coletivos que muitas vezes não chegam aos grandes espaços internacionais possam participar e construir o Fórum.

Por isso, vejo Benin como uma virada, justamente porque a experiência nos provocou a pensar o próximo passo. E esse próximo passo, na minha avaliação, precisa ser uma reorganização política e territorial do FSM, com maior autonomia dos países e territórios, comitês coordenadores nacionais e espaços locais de mobilização. Por isso, Benin para mim representa um legado de qual Fórum Social Mundial queremos.

Reunião das delegações latino-americanas no dia 5 de agosto, em Cotonou, no Benin. (Foto: Tatiana Carlotti/F21)

Outro ponto importante foi a discussão sobre o futuro do Fórum Social Mundial. Durante o encontro das entidades e organizações da América Latina, construímos uma Carta-Compromisso e aprofundamos uma reflexão sobre qual Fórum Social Mundial queremos construir daqui para frente.

Nesse processo, surgiu com força a possibilidade de o Fórum Social Mundial retornar à América Latina. Essa perspectiva foi apresentada e acolhida pelo Conselho Internacional do FSM, abrindo agora uma etapa de amadurecimento coletivo sobre qual país poderá sediar a próxima edição.

Isso já foi definido?

Ainda não se trata de uma decisão definitiva sobre a sede. O que existe é uma possibilidade política concreta, que será debatida e amadurecida pelas organizações e instâncias do Fórum ao longo dos próximos meses. A expectativa é que até janeiro de 2027 seja apresentado o país que poderá receber o próximo Fórum Social Mundial na América Latina.

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Para nós, esse debate é muito significativo. A América Latina tem uma trajetória histórica de mobilização dos movimentos sociais, de resistência democrática e de construção de alternativas ao modelo dominante. Pensar o retorno do FSM à região é também pensar que Fórum queremos, que agenda queremos colocar no centro e qual papel os movimentos sociais terão na construção desse novo ciclo.

Como você avalia o FSM hoje?

O FSM não pode ser um evento que se encerra em si mesmo, mas deve ser um processo de construção das lutas dos povos em todos os continentes. Nossa perspectiva é de unidade, de políticas mais claras e diretrizes. Não um Fórum de documentos não palpáveis, mas sim um espaço de contato, onde possamos construir uma rede com incidência global.

O FSM foi um passo muito importante para a luta e para diversas conexões democráticas que aconteceram nas últimas décadas. Nós somos um instrumento de incidência política. Não podemos perder isso de vista. A proposta das delegações da América Latina e do Caribe está nesse documento, apontando diretrizes. Agora é construir uma agenda estratégica nossa de mobilização permanente até o próximo Fórum.

Como você enxerga o FSM no contexto da incidência da extrema direita hoje?

O imperialismo e a extrema direita vêm tomando conta de tudo, visando silenciar principalmente os movimentos sociais, que são a base preponderante na discussão de qualquer governo, seja ele democrático ou não.

Não existe governabilidade sem que exista o tripé da construção política e a sociedade civil é um deles. O papel que ela deve desempenhar é fundamental para direcionar os governos para as lutas das classes trabalhadoras.

O princípio do FSM é não perder a esperança e a resistência. É sonhar com um mundo que já é possível, porque ele já faz parte de nós. Na Unisol, nós vivemos isso na prática, ao trabalharmos diariamente na constituição de uma economia solidária, justa, igualitária e equitativa.

Uma economia que respeita a diversidade, garante a autonomia financeira sem perder os princípios básicos do bem-viver, da humanidade, da economia das pessoas. O FSM é a reafirmação de todo esse processo.

Qual a relação da economia solidária e FSM?

A economia solidária no Brasil nasce no Fórum Social Mundial. Ela se organiza enquanto movimento no Fórum de Porto Alegre e, a partir daí, torna-se um eixo temático do Fórum.

Eu volto do Benin ainda mais convicta sobre esse compromisso global, porque ainda temos povos que carecem do apoio mútuo dessas organizações e o FSM precisa desempenhar um papel mais estratégico, não meramente pontual.

O FSM não pode se encerrar em si mesmo. Ele precisa ser instrumento de uma agenda estratégica global que consiga realmente olhar para essas realidades e contribuir com a soberania nacional, respeitando as peculiaridades de cada território e, sobretudo, garantindo que as pessoas tenham voz.

O FSM é um instrumento de comunicação, no sentido de dar voz a esses movimentos e a economia solidária é muito forte nisso.

E os próximos passos?

Encerrado mais um ciclo do Fórum Social Mundial, a Unisol Brasil assume o compromisso de transformar o diálogo construído em ação concreta até 2028. Para isso, terá como desafios ampliar a incidência política na construção de proposições para a economia popular e solidária, fortalecer a articulação nacional e internacional com as organizações que integram o FSM e promover eventos pré-Fórum capazes de ampliar a base social e popular da economia solidária nos territórios.

Nesse percurso, o GSEF 2027 – Fórum Global de Economia Social e Solidária – surge como um marco estratégico para projetar internacionalmente as experiências brasileiras e conectar lutas locais a agendas globais. A Unisol busca, assim, fortalecer sua atuação em rede e ampliar a capacidade de articulação dos empreendimentos e organizações da economia popular e solidária, reafirmando a defesa de um modelo de desenvolvimento comprometido com a redução das desigualdades, a justiça social, a sustentabilidade e o protagonismo dos setores historicamente excluídos dos grandes espaços de decisão.

O desafio, portanto, é manter viva a perspectiva de que “um outro mundo é possível”, transformando a articulação entre economia solidária, democracia participativa e sustentabilidade em força política capaz de fazer com que as proposições debatidas hoje se convertam em políticas públicas e transformações concretas amanhã.

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