Comitê Baiano/Brasileiro prepara-se o para Fórum Social Mundial no Benin
Seminário realizado em 9 de julho, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), destacou a necessidade de um novo olhar sobre o continente africano e discutiu propostas que serão apresentadas em Cotonou, durante o evento global que comemora 25 anos. (fotos: Comitê Baiano/Brasileiro do FSM)
POR TATIANA CARLOTTI
A próxima edição do Fórum Social Mundial (FSM) será realizada em Cotonou, no Benin, entre os dias 4 e 8 de agosto, marcando os 25 anos do encontro que reúne, desde 2001, vozes progressistas do mundo inteiro sob o lema “Um outro mundo é possível”.
Para preparar a participação do Brasil no encontro, o Coletivo Baiano/Brasileiro do FSM realizou, no último dia 9 de julho, o seminário “25 Anos do FSM Rumo ao Benin”, no Instituto de Geociências (IGEO) da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Participaram representantes de movimentos sociais, universidades, organizações e coletivos da sociedade civil, gestores públicos e lideranças políticas, como o cônsul honorário da República do Benin na Bahia, Marcelo Sacramento; o deputado estadual Marcelino Galo (PT); e o reitor da UFBA, Paulo Miguez.
A primeira mesa do evento apresentou um balanço histórico dos 25 anos do FSM, com exposições de Anne Sena (UNISOL) e Mauri Cruz (FSM). Na sequência, Maria do Carmo Rebouças (UFSB), Fábio Velame (UFBA) e Victor Martins de Souza (UNILAB) debateram o panorama sociopolítico da África contemporânea.
No período da tarde, Mirian Sumica (UNILAB), Jonas Paulo (CODES) e João Carlos Salles (UFBA) discutiram a conjuntura global, analisando os impactos das transformações geopolíticas na África e na América Latina, além da atuação dos movimentos sociais.
O seminário foi encerrado com discussões sobre encaminhamentos e propostas para a Carta de Salvador, que será levada ao encontro global no Benin.
Contribuições do Brasil
Durante o balanço dessas duas décadas e meia do FSM, os participantes salientaram a importância da ampliação da mobilização dos movimentos sociais brasileiros para a edição africana do evento. Também ressaltaram que as práticas sociais e institucionais devem ser levadas ao Benin, considerando que o Brasil é uma referência para a África e para o mundo.
Um dos pontos discutidos foi a necessidade de uma nova perspectiva em relação à África, capaz de superar visões estereotipadas e de romper com narrativas reducionistas sobre os países do continente.
Essa visão deve ser afrodiaspórica, reconhecendo o protagonismo dos países da região, que vivem um processo de substituição de relações de dependência por novas formas de influência global. Ao mesmo tempo, os participantes ressaltaram a necessidade de abordar os riscos atuais de recolonizações econômicas, em especial pela China.
Os debatedores defenderam a valorização da autonomia produtiva africana, o fortalecimento das economias locais e uma maior mobilização popular, destacando o papel da juventude como um dos principais vetores de transformação para o futuro africano. Também discutiram o fortalecimento do panafricanismo, da democracia e dos direitos humanos no continente.
Na abordagem das questões ambientais, salientaram que a crise climática na região deve ser compreendida como resultado de responsabilidades coletivas da comunidade internacional, evitando a culpabilização isolada de países ou regiões.
Em relação às migrações, o entendimento predominante foi o de que elas podem representar instrumentos de integração, intercâmbio e projeção internacional.
As discussões também abordaram a contribuição dos movimentos sociais brasileiros para os debates do Fórum. Os debatedores ressaltaram a urgente necessidade de uma maior incidência dos movimentos negros nas instituições públicas e do fortalecimento das ações afirmativas, centrais na garantia da diversidade e no combate ao racismo estrutural.
Eles defenderam ainda que a África seja recolocada no centro da história mundial, a partir do reconhecimento do conhecimento produzido pelos países do continente, com valorização de sua oralidade, de suas práticas culturais e de sua relação com a natureza.
O Benin, por sua vez, foi destacado como uma “encruzilhada histórica” e símbolo do reencontro entre os povos africanos e a diáspora negra.

Encaminhamentos
Organizadas em cinco grandes eixos — cultura, segurança alimentar, tecnologia, soberania e institucionalidade —, as proposições debatidas visam à ampliação do intercâmbio entre organizações sociais e parceiros internacionais, com o objetivo de consolidar uma agenda permanente de cooperação entre Brasil, África e diáspora africana.
Também foi destacada a necessidade de fortalecer a comunicação do FSM com diferentes setores da sociedade civil, ressaltando a importância do letramento racial e da revisão de conceitos considerados insuficientes para compreender os desafios atuais dos países africanos.
Os participantes defenderam o enfrentamento de temas como a violência contra as mulheres negras, o extermínio da juventude negra e as disparidades nas relações de trabalho, além da necessidade de novos modelos de desenvolvimento econômico que considerem as demandas das chamadas “minorias”.
Também foi ressaltada a importância do compartilhamento das práticas dos movimentos sociais brasileiros na construção de novas formas de democracia, incorporando experiências exitosas de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, agricultores familiares, povos da floresta e trabalhadores sem-terra.
Essas práticas, ressaltaram, não devem prescindir da atuação institucional do Estado, uma vez que é nos espaços formais de decisão que são definidas as políticas públicas e os marcos legais.
Na área da cultura, a orientação é pensar a arte como política e instrumento estratégico para o fortalecimento comunitário e a ampliação dos diálogos sociais. Já as universidades e instituições de ensino foram conclamadas a ampliar sua presença nos territórios, aproximando a pesquisa e a extensão das necessidades concretas das populações.
Os debatedores também ressaltaram a necessidade de apresentar as experiências institucionais, em particular as da Bahia e as do governo brasileiro, nas contribuições ao FSM, destacando, entre outros exemplos, o papel dos Institutos Federais de Educação na formação de quadros técnicos para o desenvolvimento regional.
Entre os encaminhamentos, também foi discutida a elaboração de uma moção de apoio ao processo democrático brasileiro, além do reconhecimento da Rota do Dendê como Patrimônio da Humanidade e da construção de uma comunicação efetivamente democrática.
Por fim, foi defendida a continuidade do Coletivo Baiano/Brasileiro do Fórum Social Mundial e proposto que o Brasil, a Bahia e a Universidade Federal da Bahia (UFBA) sediem outra edição futura do FSM.

Tatiana Carlotti é repórter do Fórum 21 desde 2022, cobrindo política e cultura (confira aqui). Atua também em Opera Mundi, cobrindo política internacional. Tem passagem por Carta Maior e Blog Zé Dirceu. É doutora em Semiótica (USP-SP), mestre em Crítica Literária (PUC-SP) e graduada em História (USP-SP).
