FSM 2026: Carta de Salvador alerta para ‘crise civilizatória’ e defende cooperação Brasil-África
Confira propostas dos coletivos Baiano e Brasileiro do Fórum Social Mundial para a 17ª edição do evento global que acontece entre 4 e 8 de agosto, em Cotonou, no Benin.
Os coletivos Baiano e Brasileiro do Fórum Social Mundial (FSM) divulgaram a Carta de Salvador, com as propostas do Brasil para o evento global que acontece entre 4 e 8 de agosto, em Cotonou, no Benin.
O documento alerta para uma “crise civilizatória sem precedentes” e defende a articulação internacional dos movimentos populares em torno da construção de uma nova ordem mundial baseada na soberania dos povos, na justiça social, na democracia e na cooperação Sul-Sul.
Resultado do seminário “25 Anos do FSM Rumo ao Benin”, realizado em 9 de julho, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Carta de Salvador estabelece os eixos estratégicos para a contribuição brasileira ao FSM, destacando a importância da reconexão histórica entre Brasil, Bahia e o país africano.
“A realização do FSM2026 no Benin representa um momento crucial de conexão entre milhares de lutas antissistêmicas, anticapitalistas, antifascistas, antirracistas, antipatriarcais, anticoloniais e anti-imperialistas que se fortalecem em todo mundo”, afirma o documento.
Segundo os coletivos, “O FSM no Benin será mais do que um encontro. Será um chamado histórico à reorganização global das forças populares”.
A Carta de Salvador estabelece sete eixos para a colaboração brasileira nesta 17ª. edição do evento global, contemplando a construção de uma nova ordem internacional, com perspectiva afrodiaspórica e panafricanista e defesa da soberania dos povos e da cooperação Sul-Sul; a promoção dos direitos humanos e da justiça social, com enfrentamento ao racismo, às desigualdades e às diferentes formas de violência e exclusão; e a valorização da educação, da cultura, da arte e dos conhecimentos tradicionais.
Também são propostos o avanço da justiça climática e da sustentabilidade, por meio de políticas de adaptação, conservação ambiental, agroecologia e energias renováveis; o estímulo à inovação social e ao fortalecimento das políticas públicas e da participação popular; e a ampliação da cooperação entre Brasil e África, com intercâmbio de tecnologias sociais e experiências.
O último eixo contempla o fortalecimento do Fórum Social Mundial como espaço permanente de articulação internacional dos movimentos sociais e de construção de alternativas democráticas ao capitalismo.
‘O planeta à beira de um colapso’
O documento ressalta que “após séculos de exploração colonial e dominação econômica, a globalização capitalista consolidou-se como um modelo econômico desumano, que submete a vida aos interesses egoístas e excludentes do mercado”.
Contra esse modelo que “aprofunda desigualdades, destrói territórios, mercantiliza direitos e ameaça as bases da existência humana”, a Carta de Salvador clama por respostas urgentes diante de diferentes crises que se sobrepõem, como “o enfraquecimento das democracias, o avanço do autoritarismo, as guerras, a emergência climática e o aquecimento global revelam que a humanidade enfrenta uma crise civilizatória sem precedentes.”
Apesar do diagnóstico, os coletivos lembram que a resistência dos povos atravessa séculos e permanece presente em diferentes continentes, ressaltado a cidadania universal como caminho para enfrentar a crise global. “Nunca, na história humana, a ideia de cidadania universal esteve tão presente. A humanidade começa a compreender-se como parte de uma casa comum, onde tudo que acontece em qualquer lugar do planeta nos diz respeito”, afirma o texto.
Confira a íntegra da Carta:
CARTA DE SALVADOR
Coletivos Baiano e Brasileiro do FSM
SEMINÁRIO “25 ANOS DO FSM RUMO AO BENIN”
09/07/2026 – Congresso da UFBA 80 anos
O planeta à beira de um colapso
Após séculos de exploração colonial e dominação econômica, a globalização capitalista consolidou-se como um modelo econômico desumano, que submete a vida aos interesses egoístas e excludentes do mercado. Esse modelo aprofunda desigualdades, destrói territórios, mercantiliza direitos e ameaça as bases da existência humana. Apoia-se no poder de influência e controle das big tech.
Vivemos um momento decisivo. O enfraquecimento das democracias, o avanço do autoritarismo, as guerras, a emergência climática e o aquecimento global revelam que a humanidade enfrenta uma crise civilizatória sem precedentes. Diante desse cenário, torna-se urgente construir alternativas capazes de garantir justiça social, democracia, sustentabilidade e paz.
A cidadania universal como caminho para um outro mundo
Embora os desafios para superar esse modelo sejam imensos, os povos do mundo resistem há séculos. Em todos os continentes, constroem formas solidárias de organização da vida, defendem os bens comuns, protegem seus territórios, fortalecem economias populares e preservam cosmovisões baseadas no bem viver e na defesa da Mãe Terra.
Nunca, na história humana, a ideia de cidadania universal esteve tão presente. A humanidade começa a compreender-se como parte de uma casa comum, onde tudo que acontece em qualquer lugar do planeta nos diz respeito. Vivemos em um tempo de escolhas.
A ruptura e a mudança são leis universais, a harmonia e o equilíbrio também. O futuro da humanidade depende da capacidade de fortalecer vínculos reais de solidariedade entre os povos e promover uma transformação democrática, pacífica e global. Assim como de resistir ao rebaixamento fundamentalista e mercantilista das consciências.
A relevância do FSM 2026
Em 2026, os sonhos de liberdade, reparação e reconhecimento histórico dos povos reencontram-se com o sonho de um outro mundo possível que, desde 2001, mobiliza o Fórum Social Mundial em diversos continentes.
A realização do FSM2026 no Benin representa um momento crucial de conexão entre milhares de lutas antissistêmicas, anticapitalistas, antifascistas, antirracistas, antipatriarcais, anticoloniais e anti-imperialistas que se fortalecem em todo mundo. O FSM no Benin será mais do que um encontro. Será um chamado histórico à reorganização global das forças populares.
Brasil, Bahia e Benin: uma reconexão histórica
A Bahia e o Benin possuem laços históricos e ancestrais profundos, laços de identidade, de resistência politica e cultural e de construção do futuro. Somos territórios conectados pela diáspora africana, pela preservação cultural e pelas lutas contra a opressão. A Revolta dos Malês, na Bahia, protagonizada por africanos escravizados, muitos deles oriundos da região do antigo Reino do Benin, e a presença das comunidades Agudá naquele país simbolizam essa história comum e a permanência de laços de pertencimento entre os dois territórios.
Nesse contexto, a participação da Bahia e do Brasil no FSM 2026 representa uma oportunidade de reconstruir vínculos históricos atravessados pela escravidão, fortalecer identidades afrodiaspóricas e ampliar a cooperação Sul-Sul na construção de um mundo mais justo, democrático e plural.
Eixos estratégicos da contribuição brasileira ao FSM 2026
As organizações e movimentos sociais brasileiros pretendem contribuir para esse processo ouvindo, trocando e aprendendo no Benin, mas também compartilhando experiências, propostas e políticas públicas voltadas à justiça social, à democracia, à paz, aos direitos humanos, à sustentabilidade e à valorização da diversidade humana e cultural. Entre as principais propostas destacam-se:
- Construção de uma nova ordem internacional
Fortalecer uma perspectiva afrodiaspórica e panafricanista que reafirme a centralidade da África na história mundial, enfrentando visões estereotipadas e processos contemporâneos de recolonização. Defender a soberania dos povos, a cooperação Sul-Sul, a solidariedade latino-americana, a autonomia produtiva, a participação popular e formas democráticas de governança capazes de enfrentar o racismo, as desigualdades e os impactos da crise climática.
- Direitos humanos e justiça social
Promover políticas públicas voltadas para a igualdade racial, de gênero e de oportunidades, fortalecendo os movimentos sociais, a participação cidadã e o controle social e democrático das instituições. Priorizar o enfrentamento do racismo, da violência contra mulheres, população LGBTQIA+ e juventudes, da exclusão das pessoas com deficiência e das desigualdades territoriais, garantindo saneamento, segurança alimentar, acesso à água, moradia digna e segura, espaços públicos inclusivos e cidades sustentáveis.
- Educação, cultura e produção do conhecimento
Valorizar a educação, a cultura e a arte como instrumentos de transformação social. Incentivar a educação ambiental e climática, fortalecer as mídias comunitárias, ampliar o acesso de jovens aos espaços científicos e culturais e aproximar universidades, institutos de pesquisa e movimentos sociais. Reconhecer e valorizar os conhecimentos produzidos pelas comunidades tradicionais, pela oralidade, pela ancestralidade e pelas diferentes formas de organização popular.
- Justiça climática e sustentabilidade
Promover políticas integradas de adaptação às mudanças climáticas, recuperação ambiental e conservação da biodiversidade, articulando planejamento urbano, saneamento, mobilidade sustentável, energias limpas e renováveis, reciclagem, agroecologia e proteção dos ecossistemas. Estimular a participação das cooperativas de catadores, da agricultura familiar e das comunidades locais na construção de soluções para a crise climática.
- Inovação social e fortalecimento das políticas públicas
Estimular ecossistemas de inovação social comprometidos com o desenvolvimento sustentável, ampliando mecanismos de participação popular, transparência e controle social. Facilitar o acesso de organizações sociais e empreendimentos de impacto socioambiental a recursos públicos e privados. Fortalecer observatórios, conselhos e fóruns participativos e ampliar o acesso a financiamentos nacionais e internacionais destinados à justiça climática.
- Cooperação entre Brasil e África
Fortalecer relações horizontais entre Brasil e países africanos por meio do intercâmbio de tecnologias sociais, políticas públicas e experiências desenvolvidas por movimentos populares, universidades, cooperativas e comunidades tradicionais. Valorizar experiências brasileiras em educação, economia popular solidária, agricultura familiar, inovação social e organização comunitária como contribuições para a construção de alternativas comuns de desenvolvimento.
- Fortalecimento do Fórum Social Mundial
Consolidar o FSM como espaço permanente de articulação internacional entre movimentos sociais, produção de conhecimento, intercâmbio de experiências e construção de alternativas democráticas ao capitalismo. Ampliar sua comunicação com diferentes setores da sociedade. Fortalecer as redes internacionalistas no mundo e entre os povos da América Latina, e incentivar que Brasil e Bahia permaneçam protagonistas desse processo, colocando-se, inclusive, à disposição para construir futuros eventos ou edições do FSM.

Tatiana Carlotti é repórter do Fórum 21 desde 2022, cobrindo política e cultura (confira aqui). Atua também em Opera Mundi, cobrindo política internacional. Tem passagem por Carta Maior e Blog Zé Dirceu. É doutora em Semiótica (USP-SP), mestre em Crítica Literária (PUC-SP) e graduada em História (USP-SP).
