Tempo de escolhas: ‘FSM precisa ampliar conexão com movimentos, partidos e governos progressistas’, afirma Damien Hazard

Tempo de escolhas: ‘FSM precisa ampliar conexão com movimentos, partidos e governos progressistas’, afirma Damien Hazard

Coordenador da Associação Vida Brasil e membro do Conselho Internacional do FSM, Damien Hazard, traz balanço do evento realizado em Cotonou e defende expressão mais política para futuras edições. (Na foto, em primeiro plano, Hazard e Gilberto Leal durante debate no FSM)

POR TATIANA CARLOTTI

O Fórum Social Mundial (FSM) atravessa um momento de escolhas e precisa ampliar sua articulação com movimentos sociais, partidos e governos progressistas para responder aos desafios da atual conjuntura internacional. A avaliação é de Damien Hazard, coordenador da Associação Vida Brasil e membro do Conselho Internacional do FSM.

Em entrevista ao Fórum 21, Hazard traz um balanço da edição realizada em Cotonou, no Benin, entre 4 e 8 de agosto, e defende uma expressão mais política do FSM, sem que ele perca sua autonomia como espaço da sociedade civil organizada.

O ativista relata as dificuldades políticas e organizativas que atrasaram o começo do evento e impediram a marcha dos movimentos pelas ruas da cidade beninense. E enfatiza a vitória da sociedade civil organizada e sua pressão pela realização do encontro, que contou com cerca de 3 mil participantes e representantes de 108 países.

Hazard avalia a edição do fórum no Benin como “extremamente popular”, enfatizando a alta participação internacional e a forte presença dos movimentos populares de mulheres e das caravanas da África Ocidental. O integrante do Conselho Internacional também aponta desafios e caminhos para o futuro do FSM. Acompanhe a entrevista:

Damien, qual seu balanço do Fórum Social Mundial no Benin?

É um balanço de contrastes. Esta edição no Benin marca tanto a transição do próprio FSM, quanto da humanidade, empurrada pela geopolítica mundial. A carta dos movimentos da América Latina menciona esse novo tempo, apontando que o FSM ocorreu em meio à repressão e cerceamento do espaço da sociedade civil.

Isso já ocorreu em edições anteriores, principalmente na do Senegal, em 2011, mas nunca desta forma. Houve realmente uma repressão aos ativistas na entrada da cidade, levando ao atraso na abertura do evento. Nós sentimos isso de perto.

Quinze dias antes do evento, praticamente, é que percebemos a possibilidade de o Fórum não acontecer, o que foi uma grande decepção e surpresa. A comunidade internacional e o Conselho Internacional do FSM – e digo isso enquanto membro do Conselho – não conseguiram enxergar e prever esse risco.

Isso mostra que a estrutura de funcionamento e a organicidade do FSM não estiveram à altura dos desafios, do ponto de vista organizativo. No entanto, apesar desses problemas, dos conflitos entre as instâncias beninenses, não há dúvidas de que a questão política do Benin foi a grande responsável pelo atraso no evento.

Agora, mesmo com tudo isso, e daí o contraste, o Fórum conseguiu se reerguer. O rei de Wémé-Tosso, inclusive, observou que o episódio revelou que alma do FSM, que parecia derrotado, é muito forte. Na cosmovisão vodu, profundamente ligada à ecologia, as forças favoráveis e contrárias estão sempre interagindo. Então, ao vencer as energias contrárias, você se torna ainda mais forte. “Ao permanecer vivo, ele se tornou mais forte ainda”, disse ele.

Essa é a minha avaliação, todos esses problemas fortaleceram o FSM. Sua realização foi uma vitória da sociedade civil organizada diante das pressões e do autoritarismo de Estado. Os próprios beninenses foram desmobilizados dias antes, mas as delegações internacionais decidiram manter a ida, e tivemos uma representação alta, de 108 países. Foi um Fórum Social Mundial de fato, com uma participação internacional muito grande.

O que você destaca de diferente nesta edição do Fórum?

Foi um Fórum extremamente popular. Mesmo com 3.000 pessoas, um número aquém das 50 mil que pensamos, foi um fórum popular de mulheres, de movimentos populares, principalmente do oeste africano, e de movimentos internacionais.

Ele traz a lição de todo um processo das caravanas do oeste africano, que foram extraordinárias. Não foi apenas um ônibus que veio de uma região para outra. As caravanas cruzaram países e, por onde passaram, fizeram sensibilizações, levando as pessoas e intercambiando experiências.

Isso permitiu um transbordamento das fronteiras do FSM para além do seu perímetro geográfico e, também, temporal. As caravanas ocorreram muito além dos dias 4 a 8 e do perímetro da Universidade de Abomey-Calavi, em Cotonou. Ele começou muito antes em vários lugares. No Brasil também, nós fizemos vários eventos, o último seminário no dia 9 de julho na Universidade Federal da Bahia (UFBA), e tivemos reuniões há mais de um ano. Foi um processo muito interessante.

Foi também um Fórum muito ligado à questão da ancestralidade, com a participação dos reis e chefes tradicionais da África Ocidental e Central. Isso pode surpreender os olhares ocidentais, levantando questões sobre patriarcado etc., mas, quando um rei participa, ele traz o reino. É o reino que está se encontrando e eles estavam ali, os reinos ancestrais africanos na primeira fileira do evento.

Um desses reis disse que a terra pertence aos mortos, aos vivos e aos que vão nascer. A presença deles traz esse tempo, essa terra de um outro mundo possível que estamos construindo. Ele também é feito dessa conexão entre a ancestralidade e o futuro. Entre os mortos, os que estão vivos e os que ainda virão. O Fórum no Benin trouxe, com força, essa dimensão.

Foi, portanto, um Fórum que trouxe essa cosmovisão de um mundo mais justo e que respeita o passado. Um contraponto com o Ocidente que, muitas vezes, passa por cima das suas raízes, esquece o que vem da espiritualidade ancestral. A presença dos reis foi, neste sentido, muito positiva.

No caso do Brasil, também teve uma forte conexão com as raízes. Foi uma reconexão Brasil-Benin, com a história do país. Nós tivemos a oportunidade de ver, tanto em Uidá quanto em Ganvié, esse encontro, não só do povo afrodescendente, mas do povo brasileiro como um todo, porque a escravidão é também a história do Brasil.

E não é apenas uma conexão com o passado, mas com o futuro. Já se apresentam possibilidades de projetos com o grupo dos agudás, quem sabe a revitalização da Casa Brasil. Estabelecemos relações com o rei do Wémé-Tosso, que poderá vir à Bahia e isso levará a algum evento.

Aconteceu alguma coisa nessa viagem para além do encanto pelo Benin. Algo que remete à identidade, à espiritualidade e à ancestralidade. Não sabemos até que ponto, mas sentimos isso.

“É tempo de pensarmos em um próximo patamar e reinventar a forma de se fazer política dentro do próprio Fórum Social Mundial. Como escrevemos no manifesto de Salvador, lançado em março pelo Comitê Rumo ao Benin, nós temos que fazer escolhas”, Damien Hazard.

Você falou em um novo tempo para o FSM. O que seria essa transformação?

Na reunião do Conselho Internacional, falou-se muito da necessidade de o Fórum Social Mundial não ser apenas um evento, mas um processo contínuo. Foi levantada, com força, a necessidade de mantermos uma continuidade entre os intervalos do FSM. Na edição que fizemos na Bahia, nós tivemos esse processo, e essa edição do Fórum mostrou essa necessidade de conexão permanente.

Também há uma reflexão sobre a necessidade de o Conselho Internacional compreender melhor as dinâmicas dos países. Nós descobrimos, no dia 4, quando ocorreria a marcha, que o governo beninense não estava autorizando manifestações no país. Isso revela um distanciamento das instâncias do evento. Ninguém pensou que o FSM pudesse ser cancelado.

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Faltou entendimento, inclusive, sobre a questão política do Benin. Aliás, nós deveríamos ter discutido o sentido da democracia na África. Quando chegamos no país, sob regime dito democrático, porque é eletivo, nós percebemos que não era bem assim.

A defesa da democracia no contexto da América Latina, diante do enfrentamento ao autoritarismo e ao fascismo, é óbvia e uma das bases da nossa luta. Nós precisamos, inclusive, radicalizá-la. No entanto, temos de repensar o que é a democracia fora do modelo ocidental que tentamos exportar.

Recentemente, o Ibrahim Traoré, um grande líder de Burkina Faso, declarou em uma entrevista que a noção de democracia “é boa para o Ocidente, mas não é um caminho que escolhemos”. É uma declaração é preocupante, mas não podemos jogar o bebê junto com a água do banho.

Temos inclusive o exemplo da Tunísia, o primeiro país que recebeu o Fórum após a Primavera Árabe. Ali foi muito positivo, obviamente, eles conseguiram derrotar um ditador, mas o país agora está sob uma ditadura, justamente porque foi importado esse modelo eletivo de democracia, com apoio e olhar europeus.

Não estou dizendo que a democracia não vale nada, pelo contrário, mas a democracia apenas das urnas permite que os mesmos grupos cheguem ao poder e não muda nada. Ela acaba não respondendo às aspirações dos povos. Isso aconteceu na Tunísia e parece que acontece também no Benin. Não é um país realmente democrático, de liberdade de expressão e de atuação da sociedade civil organizada, embora lá tenham eleições.

A questão é que tivemos de chegar no Benin para perceber isso, o que prova que estávamos totalmente descontextualizados e que precisamos, de fato, estar mais próximos da realidade. O Conselho Internacional foi muito técnico nos assuntos e pouco político neste sentido.

A estrutura organizativa precisa ser repensada e, na minha avaliação, valorizar muito mais as próprias bases. É preciso envolver mais os movimentos e os participantes do Fórum no próprio processo de construção e desde o início.

Como você vê o futuro do FSM?

É um novo tempo. Há duas visões: uma de que o Fórum deva continuar sendo um espaço em que as pessoas possam se encontrar e aí elas vão fazer política; e outra, mais da América Latina, de que ele deve ter mais expressão política e se colocar mais, inclusive, com uma declaração final. Uma é mais processo e expressão política; a outra é mais espaço de encontro e neutralidade.

A questão posta é que a partir do momento em que você tem essa declaração final, corre-se o risco de gerar exclusões e de não abranger a totalidade dos movimentos participantes do Fórum. Eu acredito que seja melhor perder um pouquinho em quantidade, mas ganhar em qualidade, apresentando uma orientação para esse outro mundo que, efetivamente, queremos construir.

Além disso, não dá para fazer um evento que seja apenas um evento. Precisamos pensar de forma mais estratégica em termos de planejamento, riscos e dialogar mais com os companheiros da África e de outros lugares, inclusive, para entender essa visão deles de democracia. Não para aderir a ela, mas para compreendê-la.

Também precisamos ressignificar o Fórum. Reinventá-lo, fazer política com criatividade. Muitas das questões, até da cultura de participação que existe nas instâncias internacionais, inclusive oficiais e multilaterais, como as Nações Unidas, são um legado do Fórum Social Mundial. Essa cultura já se propagou dentro da arquitetura mundial.

É tempo de pensarmos em um próximo patamar e reinventar a forma de se fazer política dentro do próprio Fórum Social Mundial. Como escrevemos no manifesto de Salvador, lançado em março pelo Comitê Rumo ao Benin, nós temos que fazer escolhas.

Pensando nesse caminho mais político, que escolhas seriam essas?

O Fórum é um espaço de encontro, de construção e convergência de movimentos e organizações de atores coletivos em torno da construção de um mundo de justiça social e ambiental. Pensando neste contexto atual, ele precisa ser antirracista, antipatriarcal, antissistêmico, anti-imperialista, anticolonial e a favor da justiça social e ambiental.

Seu lema, que nasceu em 2001, é que “um outro mundo é possível”. Isso fez com que as pessoas aderissem a ele. Agora, falta saber qual é esse outro mundo. O Fórum surgiu como um contraponto ao Fórum Econômico de Davos. Na minha avaliação, ele se perdeu um pouco, não por sua vontade, mas por ter deixado essa expressão política e não ter um posicionamento claro.

Evidentemente que, enquanto iniciativa da sociedade civil organizada, o Fórum Social Mundial nunca será dos partidos políticos ou dos governos, mas ele tem todas as condições de se articular com essas instâncias.

Precisamos ter relações com outras forças progressistas como, por exemplo, a Alba, criada por Hugo Chávez e Fidel Castro, que reúne governos progressistas, partidos e sociedade civil. Em março, nós vimos a Conferência Antifascista em Porto Alegre, uma iniciativa muito importante dos partidos progressistas, principalmente PSOL, PCdoB e PT, entre outros. Tivemos a iniciativa dos governos progressistas, puxada pelo governo Sánchez na Espanha, com a participação do Lula e outros chefes de Estado.

O Fórum, reitero, é uma a iniciativa da sociedade civil, mas ele pode e deve se unir com essas três instâncias – governos progressistas, partidos e sociedade civil – para lutar contra o avanço do autoritarismo. Isso não significa ficar a serviço de partidos e governos.

Aliás, é fundamental que os movimentos preservem sua posição, até porque nós, da sociedade civil organizada, temos o papel de indicar um caminho claro para a humanidade. Nós não temos capacidade sozinhos de mudar o mundo. Mas as organizações da sociedade civil podem ser referência e mostrar exemplos do que temos de fazer.

A questão das cisternas é um bom exemplo. Ela nasceu de uma iniciativa da sociedade civil que mostrou a possibilidade de convivência com o semiárido e não de uma luta contra a seca. Isso se tornou uma política pública que levou um milhão de cisternas para as pessoas da região, incluindo todo um sistema de formação básica.

É assim que a sociedade civil mostra os caminhos e Fórum Social Mundial precisa apontá-los para, efetivamente, construirmos esse outro mundo possível. Para isso, ele precisa se expressar mais e se relacionar com outros atores que têm mais capacidade de implementar um projeto. Essa convergência sempre foi e, agora, é mais necessária do que nunca.

Agora, é fundamental reconhecermos as conquistas do FSM. Nós temos de tomar muito cuidado nesse processo para não reinventar a roda e, sim, pensar na continuidade e no avanço dessa caminhada.

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