Ambientalismo fraco agrava crise climática antes da COP30

Ambientalismo fraco agrava crise climática antes da COP30

Às vésperas da 30ª Conferência das Partes (COP30) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, parece difícil cumprir a meta acordada na COP21 de limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius

POR MARIO OSAVA

Inundações, secas, incêndios florestais, elevação do nível dos oceanos e ondas de calor mortais estão se multiplicando ao redor do mundo, com a humanidade falhando em responder com a urgência necessária para conter a crise climática global.

Às vésperas da 30ª Conferência das Partes (COP30) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que será realizada em novembro na cidade de Belém, na Amazônia brasileira, parece difícil cumprir a meta acordada na COP21 de limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius.

É evidente que a ciência que alerta para o risco de catástrofe e os movimentos ambientalistas não têm força para promover as políticas essenciais para atingir a meta estabelecida no Acordo de Paris, adotado em 2015.

O crescente número de vítimas e a destruição causada por desastres estão aumentando a conscientização pública sobre as mudanças climáticas, enquanto o poder político da extrema direita, que nega o fenômeno, cresce no mundo todo.

A composição geográfica, topográfica e geológica local deve impedir a ocupação humana, especialmente atividades agrícolas densas que removem a cobertura vegetal e assoreiam os cursos d’água, diz Renato Oliveira

A gestão de Donald Trump como presidente dos EUA desde janeiro é “mais um evento extremo” que agrava todos os outros, reconheceu Roberto Messias Franco, ex-presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), órgão executivo ambiental do país.

O Brasil, anfitrião da COP30, exemplifica a tensão entre o ativismo ambiental e climático e os retrocessos impostos pela extrema direita em ambos os campos.

A extrema direita, que esteve no poder de 2019 a 2022, não conseguiu garantir a reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022, mas mantém influência suficiente no Congresso Nacional e na sociedade para minar alguns esforços ambientais.

Uma praça de São Paulo como ficou após as chuvas torrenciais de 24 de janeiro de 2025. Um exemplo dos eventos extremos que atingiram cidades ao redor do mundo com frequência e intensidade crescentes nos últimos anos. Imagem: RS / Public Photos

Retrocessos, não mais progresso

“O Brasil corre atualmente o risco de retrocessos”, lamentou Messias, que atualmente preside a Fundação Biodiversitas , organização não governamental voltada para a conservação da biodiversidade. O Congresso bicameral já aprovou “modificações em leis cuja aprovação foi muito disputada no passado”.

Áreas de proteção permanente (APPs), nas margens de rios e topos de montanhas, foram criadas por lei em 1934 e agora enfrentam propostas para reduzi-las, explicou ele.

Como as lutas políticas tradicionalmente se desenrolam em torno de ideias econômicas, sociais e políticas, a questão ambiental é uma novidade histórica. O conhecimento do meio ambiente como um risco à sobrevivência da humanidade remonta a apenas algumas décadas, diz Liszt Vieira

“A educação insistente, incluindo o uso de novas ferramentas como as redes sociais, é a solução”, disse à IPS por telefone, de Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, no sudeste do Brasil, o veterano ambientalista, geógrafo de formação universitária.

“Um povo educado é fácil de governar, difícil de dominar e impossível de escravizar” é uma frase que ele adotou como lema, após lê-la em uma escola no interior do estado onde morou, fora de seus períodos como chefe de órgãos ambientais do governo em Brasília ou como vice-diretor do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) para a América Latina na Cidade do México.

Mas o processo educacional é lento em relação à urgência dos desafios climáticos, refletidos em eventos extremos que ceifam vidas e perdas econômicas, e no deslocamento de populações afetadas, até mesmo submergindo ilhas. Além disso, os avanços educacionais não impedem o surgimento de negacionistas climáticos.

Uma cena de setembro de 2024, do pior dos mundos na Amazônia. Rios secos e incêndios florestais, resultado de uma seca que se repete a cada cinco anos na região que abriga as maiores florestas tropicais do mundo. Imagem: Ricardo Stuckert / PR

Conhecimento sem ação

Por mais que a população esteja ciente da emergência climática, os interesses imediatos, sejam eles econômicos, emocionais ou ideológicos, predominam.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha em outubro de 2024 em todo o Brasil revelou que 60% dos entrevistados consideram as mudanças climáticas “um risco imediato para a população do planeta” e 32% um risco para o futuro. Apenas 5% negaram qualquer risco.

Mas na Amazônia, sede da COP30 de 10 a 21 de novembro, projetos que ambientalistas rejeitam por seus impactos negativos, em termos de destruição da floresta e biodiversidade, tendem a ser aprovados devido à pressão de políticos, empresas ou da própria população local.

Uma delas é a exploração de petróleo na bacia do Rio Amazonas, atrativa pela proximidade com a Guiana, onde foram descobertos depósitos significativos de petróleo e a produção já se aproxima de quase um milhão de barris por dia.

A licença ambiental para a Petrobras realizar exploração na bacia conta com o apoio de políticos, da população local e até do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, que voltou ao poder no primeiro dia de 2023 com a promessa de restaurar a liderança ambiental e climática do país.

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Outro projeto que certamente promoverá o desmatamento no coração da Amazônia é a reconstrução e pavimentação da rodovia BR-319, construída na década de 1970 e deteriorada nas décadas seguintes, com a queda de pontes e o reflorestamento de alguns trechos.

A rodovia de 885 quilômetros conecta Manaus, capital do estado do Amazonas, com 2,2 milhões de habitantes, em seu extremo norte, a Porto Velho, capital do estado de Rondônia, com 515.000 habitantes, em seu extremo sul. Ela representa um forte desejo, especialmente em Manaus, cuja população se sente isolada do resto do país.

O IBAMA autorizou a restauração da estrada, mas a Justiça suspendeu a obra em uma batalha na qual a facção ambientalista que impulsionou a medida é altamente impopular.

A cidade de Eldorado do Sul, com 40 mil habitantes, ficou completamente submersa na grande enchente de maio de 2024 no estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil. O dilema é reconstruir a cidade ou realocar sua população para outro local seguro. Imagem: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil

No sul, cidades submersas

Uma realidade dramática existe no estado mais ao sul do Brasil, o Rio Grande do Sul, que sofreu inundações sem precedentes em maio de 2024, com 2,3 milhões de pessoas afetadas em 478 municípios, 185 mortes confirmadas até agora e 23 pessoas ainda desaparecidas.

Porto Alegre, capital do estado com 1,38 milhão de habitantes, teve muitos bairros completamente alagados por semanas, e seu aeroporto local, fechado em 3 de maio, só reabriu em 21 de outubro de 2024.

“Essa tragédia é fruto do modelo de ocupação territorial, que tem origem na colonização europeia, feita principalmente por imigrantes italianos e alemães, que se instalaram nos vales de terras férteis”, destacou Renato de Oliveira, sociólogo e ex-secretário de Ciência e Tecnologia do governo do Rio Grande do Sul.

Essa imigração foi mais intensa no final do século XIX e início do século XX.

Os vales também os atraíam pela proximidade com o principal mercado consumidor, Porto Alegre. Mas eram uma armadilha; sua fertilidade é aluvial, devido a milênios de inundações frequentes, que agora se tornaram torrenciais.

Uma família se recusou a vender sua terra pelo equivalente a US$ 277.000 por 70 hectares há 10 anos, e agora ninguém quer comprá-la, explicou Oliveira.

“A composição geográfica, topográfica e geológica local deve impedir a ocupação humana, especialmente atividades agrícolas densas, que removem a cobertura vegetal e assoreiam os cursos d’água”, disse Oliveira à IPS por telefone de Porto Alegre.

A área mais afetada, centro e leste do estado, é composta pelas bacias de cinco rios que deságuam no Rio Guaíba, na verdade um grande lago em cujas margens foi construída a Região Metropolitana de Porto Alegre, que abriga 4,16 milhões de pessoas.

Apesar do desastre, em grande parte atribuído à gestão local, o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, foi reeleito em outubro de 2024. “Não havia alternativas melhores”, explicou Oliveira.

Mas as propostas para o futuro também não abordam as medidas estruturais ousadas exigidas pela realidade atual, agravada pelas novas inundações e secas na região de fronteira do estado, lamentou. Governos, partidos políticos e as empresas imobiliárias que controlam a grande mídia estão sufocando o debate.

Fragilidade do ambientalismo

A tragédia repetida favoreceria o papel dos ambientalistas, mas só evidencia sua fragilidade política, pois “se limitam ao ambientalismo, sem considerar as dimensões econômica, social e humana” da questão; “são doutrinários”, diagnosticou.

“Partidos e movimentos verdes não têm poder para impor uma agenda ambiental, primeiro porque as ideias dominantes vêm das classes dominantes que controlam o mercado e a mídia”, reconheceu Liszt Vieira, outro ambientalista veterano, ex-deputado federal e ex-secretário do Meio Ambiente do estado do Rio de Janeiro.

“Então, como as lutas políticas são tradicionalmente baseadas em ideias econômicas, sociais e políticas, a questão ambiental é uma novidade histórica. O conhecimento do meio ambiente como um risco à sobrevivência da humanidade remonta a apenas algumas décadas”, observou.

As consequências dos desastres ambientais e climáticos atingiram mais duramente os pobres até agora. No futuro, “elas tendem a afetar também os ricos, então a agenda ambiental se fortalecerá”, previu ele em entrevista à IPS no Rio de Janeiro.

Artigo publicado originalmente na Inter Press Service.


Belém, uma das capitais amazônicas do Brasil, e seu Parque da Cidade, em construção em fevereiro de 2025, em Belém, onde delegações oficiais dos 196 países e organizações internacionais participantes da COP30 se reunirão de 10 a 21 de novembro. Imagem: Ricardo Stuckert / PR

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