Antes que seja tarde 3
Por videoconferência de Paris, Michel Löwy, sociólogo brasileiro radicado na França, fez na tarde do dia 5/9/25 a palestra de encerramento do primeiro Ciclo de Debates da UNILA (Universidade Federal da Integração Latino-Americana) sobre a COP 30.
Ao falar sobre o agravamento da crise climática, cujas evidências estão por toda parte, Löwy associou o aquecimento global ao uso do carvão, petróleo e gás como fontes de energia responsáveis pela emissão dos gases causadores do efeito estufa.
As mudanças do clima acontecem desde a revolução industrial, no final do século 18, e decorrem da expansão sistemática do capitalismo industrial. Esse modo particular de organizar a produção, baseado na propriedade privada dos meios de produção, não reconhece senão a lógica da acumulação e expansão do capital. Como apontou Rosa Luxemburgo, no início do século passado, nenhuma área do planeta está a salvo de sua exploração.
Depois da segunda guerra mundial, especialmente nos últimos trinta anos, as mudanças climáticas se aceleraram assustadoramente. Estudos científicos dizem que podemos chegar a temperaturas insuportáveis, o que colocaria em risco a sobrevivência da humanidade.
Ninguém imagina que isto vá acontecer nas próximas semanas, no entanto, se nada for feito com urgência, este é o destino que nos aguarda. Antes que seja tarde, é hora de agir e lutar, e não de ceder ao catastrofismo daqueles que dizem que é inútil resistir ou que já não há o que fazer.
Nada garante que podemos ganhar essa luta, dada a potência das forças políticas e dos interesses econômicos contrários. No entanto, citando Bertold Brecht, que disse de maneira simples e sábia que “quem luta pode perder; quem não luta já perdeu”, Michael Löwy nos convoca à ação.
Diante do destino incerto em que nos achamos, ele renova a aposta de Leonardo Boff numa ética da esperança e do esperançar, manifestada na primeira noite do nosso Ciclo de Debates, assim como na utopia revolucionária do MST, defendida por João Pedro Stédile em seguida.
Sua proposta ecossocialista é radical, no sentido marxista de tomar as coisas pela raiz. Se o capitalismo é a causa do desastre ambiental que se evidencia por toda parte, é contra as suas divisões de governos reacionários, empresas privadas e mineradoras criminosas que devemos apontar os nossos canhões.
Coincidentemente, a palestra de Löwy ocorreu no Dia Internacional da Mulher Indígena, mesma data em que também se celebra o Dia da Amazônia. Como lembrou Michael Löwy, as mulheres indígenas são as guardiãs das florestas.
A proposta ecossocialista se dirige às mulheres indígenas, assim como ao conjunto dos povos originários, à juventude, aos camponeses, aos intelectuais progressistas, ao movimento negro, feminista, LGBT, aos movimentos populares e sindicais e os convidam a se tornarem também guardiões das matas, guardiões da casa comum.
O ecossocialismo nos alerta contra a balela do capitalismo verde – tese segundo a qual é possível minimizar os efeitos provocados pelo capitalismo no meio ambiente. Os créditos de carbono e os serviços ambientais são parte dessa armadilha.
O ecossocialismo também contesta a visão social-democrata de reforma gradual do sistema para conter seus ímpetos destrutivos. Esta tendência destrutiva é parte da natureza do escorpião, e não pode ser neutralizada sem que o bicho seja exterminado.
Além disso, critica o rumo tomado pelos países do então chamado socialismo realmente existente, que no século passado imaginaram poder superar o capitalismo sem revolucionar o seu modo de organização da produção.
Michael Löwy compreende o ecossocialismo como uma concepção de vida diferente. Algo que não se alcança da noite para o dia, seja por meio do voto, seja da insurreição. A perspectiva ecossocialista implica uma mudança de mentalidade e de recusa do padrão de produção e consumo atuais. É este modelo que está nos levando para a beira do abismo.
Para explicar seu ponto de vista, Michael Löwy criou a parábola do Titanic. Segundo ele, a civilização capitalista se encontra a bordo do Titanic II. Ao contrário dos passageiros do Titanic, que não sabiam que navegavam em direção à morte, a cabine de comando e a tripulação do Titanic II têm consciência do desastre que os aguarda.
Estudos científicos do IPCC (Painel de cientistas da ONU) alertam há anos para a gravidade da situação em que nos encontramos. O problema é que, mesmo diante da gravidade da situação, há os que propõem cinicamente diminuir a velocidade do navio para adiar o naufrágio. Há ainda os que sugerem lançar ao mar os passageiros da classe econômica.
De fato, as Conferências do Clima das Nações Unidas se sucedem há anos e nenhum governo até agora tomou medidas efetivas para mudar o rumo das coisas. Em que pese os investimentos pesados em energias alternativas, a utilização do carvão, petróleo e gás permanece no mesmo patamar percentual se décadas atrás.
O ecossocialismo advoga pelo decrescimento econômico. Propõe o fim da exploração de petróleo e a estatização das empresas mineradoras. Defende o transporte urbano coletivo, público e gratuito. Luta pela restrição dos carros nas cidades. Recomenda a substituição da frota de caminhões de carga por trens, hidrovias e navegação de cabotagem. Convoca a população a bloquear as grandes obras de infraestrutura que atentam contra reservas florestais, territórios indígenas, nascentes etc. Denuncia os planos de construção de corredores bioceânicos sem a devida licença ambiental. Defende a substituição da monocultura e da pecuária extensivas pela produção de alimentos saudáveis. Alerta para as consequências nefastas que a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia pode causar ao meio ambiente.
Estes são apenas alguns exemplos da proposta ecossocialista. Ela não pretende ser um cardápio de alternativas ideais, mas um roteiro para o caminhar coletivo, criativo e militante.
Em suma, na perspectiva ecossocialista, a ideia de progresso contínuo formulada pela sociedade ocidental no século das luzes, revigorada pela sociologia positivista do século 19, e infiltrada em algumas correntes dogmáticas do marxismo, adeptas do desenvolvimento das forças produtivas como motor da história, constitui uma falsa promessa para o século 21.
Michael Löwy conclui com uma referência ao marxismo não dogmático de Walter Benjamin. E para retratar a nossa condição contemporânea, ele sugere outra parábola, a do trem no rumo do precipício. Em vez de acelerar a locomotiva, com base na ideologia do progresso linear, a revolução pode consistir em acionar o freio de emergência.
Além da palestra disponível no canal do ILAESP-UNILA no YouTube, recomenda-se a leitura dos livros “O que é o Ecossocialismo?” e “A Revolução é o Freio de Emergência: Ensaios sobre Walter Benjamin”, ambos de autoria de Michael Löwy. Obrigado professor. Esperamos revê-lo na Cúpula dos Povos em Belém.

Sociólogo. Foi chefe da assessoria de Relações Internacionais da Secretaria-Geral Presidência da República (2006 a 2011). Ex-presidente do FoMerco (2017-2019). É professor do Instituto Latino-Americano de Economia, Sociedade e Política da UNILA (2010).
