Antes que seja tarde 2

Antes que seja tarde 2

João Pedro Stédile retornou à UNILA (Universidade Federal da Integração Latino-Americana) em 4/09/25. Desta vez ele veio por videoconferência, para participar do primeiro Ciclo de Debates sobre a COP 30.

Há pouco tempo, João Pedro esteve conosco para celebrar o Centenário da Coluna Prestes em Foz do Iguaçu. Na ocasião, ele falou sobre os 100 anos de luta pela Reforma Agrária no Brasil. Rendeu homenagem a Luiz Carlos Prestes e à Olga Benário, militante comunista assassinada pelos nazistas. O auditório Martina ficou lotado como não se via há tempos.

Agora ele regressou para falar da crise climática e da agroecologia. E começou apontando os crimes ambientais praticados pelo empresariado contra o meio ambiente. Sem meias palavras, foi direto ao ponto: “a chamada crise ambiental”, disse, “não é outra coisa senão expressão da crise do capitalismo mundial”.

E isto acontece independentemente da vontade deste ou daquele empresário individual, ponderou. Para reverter a lei da queda tendencial da taxa de lucro na agricultura, causada por variações na composição do capital (mais trabalho morto e menos trabalho vivo) o burguês ataca com redobrada voracidade os recursos naturais.

Para isso, ele transforma em valor de troca tudo o que pode: as águas, os minérios, a floresta…Assim como fez no Estatuto da Terra, há 150 anos, a burguesia instituiu o estatuto das florestas, das águas, da vida.

Com o acirramento da crise capitalista, tudo é convertido em mercadoria. O burguês se volta contra a natureza e o trabalhador rural com fúria redobrada. Assim, o saque aos recursos naturais e a superexploração do trabalho se multiplicam e são levados ao paroxismo. O agro não é, nunca foi e nunca será pop. O agro é tóxico!

Para alcançar tal desiderato, o burguês recorre ao agrotóxico, contamina as águas e os alimentos, pratica a pecuária extensiva, multiplica as minas a céu aberto e, com a ajuda do estado, privatiza recursos naturais, vende reservas ambientais, invade territórios indígenas, queima e destrói.

Os desastres se sucedem. Vide Brumadinho. Vide Mariana. E os custos financeiros produzidos por esses desastres são elevadíssimos, da ordem de 60 a 80 bilhões de reais. E advinha quem paga a conta ao fim e ao cabo. Você, o meio ambiente e todos os seres vivos desse combalido planeta.

Exposto ao saque desmesurado e insaciável, o meio ambiente está implorando por socorro. Estão aí os eventos extremos que vieram para ficar. Reiterando as palavras de Boff, João Pedro nos alerta: escutem os cientistas do IPCC (painel científico de mudança climática da ONU). A Terra está entrando em colapso. As secas prolongadas, as chuvas torrenciais, os ventos enfurecidos que não existiam no Brasil e agora se tornaram corriqueiros são sintomas disso.

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Com riqueza de exemplos, João Pedro discorre sobre a complexidade ambiental do país. Percorre o território nacional. Comenta desastres ecológicos daqui e dali. Observa o desatre. Aponta alternativa. Cita o exemplo de Sebastião Salgado. Um gigante. João Pedro converteu-se, seguramente, no mais preparado intelectual orgânico que o campesinato jamais produziu.

Seu DNA marxista não o impede de questionar certos dogmas da obra de Marx. Afirma, por exemplo, que o campesinato nunca foi o saco de batatas, fragmentário e fragmentado, criticado no 18 Brumário de Luiz Bonaparte, disposto a apoiar a primeira liderança inescrupulosa e populista que lhe dê algumas migalhas.

“Nossas raízes estão entranhadas no feudalismo, há cinco mil anos atrás; com os povos incas do altiplano andino, sobrevivemos ao capitalismo comercial e industrial e seu circo de horrores. Chegamos ao século 21 como guardiões da terra, conscientes de nosso papel histórico como classe”.

Recomendamos fortemente que assistam à sua palestra, disponível no canal do ILAESP-UNILA no YouTube. Em meio à miséria da filosofia, contrariando o pensamento único e a mesmice emburrecedora, João Pedro se agiganta. É um orgulho dos movimentos populares. Os verdadeiros patriotas têm motivo para se orgulhar dele.

Ao encerrar sua participação, Stédile apontou novos rumos e sugeriu alternativas: Desmatamento zero, produção de alimentos saudáveis, agricultura familiar, políticas públicas, reflorestamento nas áreas degradantes pela soja e monoculturas.

“Plantemos árvores, milhões de árvores”, conclama, “como fazem na China”. “Plantemos árvores nas margens das estradas, nas universidades federais, na UNILA…”

Em suma, foi mais uma noite memorável de preparação dos alunos para a COP 30. Que volte sempre companheiro João Pedro. Se tudo der certo, nos veremos na Cúpula dos Povos, entre 10 a 16 de novembro próximo, em Belém do Pará.

Até breve!

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