As promessas dos governos têm feito muito pouco pelo clima

As promessas dos governos têm feito muito pouco pelo clima

NAIROBI – Os novos compromissos climáticos assumidos pelos governos reduziram apenas ligeiramente o aumento da temperatura global ao longo deste século, deixando o mundo no caminho de uma grave escalada de riscos e danos climáticos, advertiu um relatório das Nações Unidas divulgado na terça-feira, 4.

Inger Andersen, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), afirmou que “embora os planos climáticos nacionais tenham alcançado alguns progressos, eles estão longe de ser rápidos o suficiente”.

“Ainda precisamos de reduções de emissões sem precedentes em um prazo cada vez mais curto e em um contexto geopolítico cada vez mais desafiador. Mas ainda é possível, embora por pouco. Já existem soluções comprovadas”, acrescentou Andersen.

Os alertas correspondem ao mais recente Relatório sobre a Lacuna de Emissões, do PNUMA, publicado antes do início, em 10 de novembro, da 30ª Conferência das Partes (COP30) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que será realizada na cidade amazônica de Belém, no Brasil.

O relatório lembra que já se passou uma década desde que os líderes mundiais adotaram o Acordo de Paris, cujo objetivo é manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de dois graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais e, preferencialmente, abaixo do limite de 1,5 °C.

Os países descrevem seus esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa — que impulsionam o aquecimento global — por meio de planos de ação conhecidos como Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC, na sigla em inglês), apresentados a cada cinco anos.

A terceira rodada cobre o período até 2035, e apenas 60 partes do Acordo (que conta com 197 países e a União Europeia), ou seja, menos de um terço, haviam apresentado novas NDCs até o final de setembro.

O relatório revela que as projeções de aquecimento global para este século, baseadas na plena implementação das NDCs, situam-se agora entre 2,3 °C e 2,5 °C, em comparação com 2,6 °C a 2,8 °C da edição do ano passado.

As estimativas baseadas nas políticas atuais são de 2,8 °C, em comparação com 3,1 °C do ano passado.

O PNUMA observou, porém, que atualizações metodológicas representam 0,1 °C da melhora, enquanto a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris anulará outros 0,1 °C — “o que significa que as novas NDCs, por si só, tiveram impacto pouco significativo”.

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Consequentemente, os países ainda estão longe de atingir as metas do histórico tratado.

Assim, até 2035 serão necessárias reduções anuais de emissões de 35% a 55% em comparação com os níveis de 2019, a fim de alinhar-se aos objetivos de 2 °C e 1,5 °C.

O relatório conclui que o aumento médio da temperatura global ao longo das próximas décadas excederá 1,5 °C, pelo menos temporariamente, o que será difícil de reverter.

Por isso, são necessárias reduções de emissões mais rápidas e significativas para que o planeta volte ao limite de 1,5 °C até o ano 2100.

“Cada fração de grau evitada reduz a escalada dos danos, perdas e impactos à saúde que prejudicam todas as nações — embora afetem mais severamente as mais pobres e vulneráveis — e diminui os riscos de pontos de inflexão climáticos e outros impactos irreversíveis”, afirma o relatório.

O PNUMA destaca que a comunidade internacional pode acelerar a ação climática, se assim decidir.

Desde a adoção do Acordo de Paris, as previsões de temperatura caíram entre 3 °C e 3,5 °C. Além disso, já existem tecnologias capazes de proporcionar grandes reduções de emissões, como a energia eólica e solar.

Andersen observou que “desde o rápido crescimento das energias renováveis de baixo custo até o combate às emissões de metano, sabemos o que precisa ser feito”.

“Agora é o momento de os países se comprometerem de forma ousada e investirem em seu futuro com ações climáticas ambiciosas — ações que gerem crescimento econômico mais rápido, melhor saúde humana, mais empregos, segurança energética e resiliência”, concluiu a chefe do PNUMA.

Na imagem de arquivo, manifestação em frente à Casa Branca, em Washington, exigindo ações em favor do clima. A retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris para trabalhar na contenção e redução das emissões de gases que agravam o aquecimento global anula parcialmente o impacto dos esforços de outras nações, e essa situação deverá ser examinada na próxima semana na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Imagem: Greenpeace

Este texto foi publicado originalmente pela Inter Press Service

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